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Sopro 62 (Nov/2011)

Sopro 62 (Nov/2011)

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Fragmento do livro "Filosofía zombi", de Jorge Fernández Gonzalo; "Notas para a reconstrução de um mundo perdido", de Flávio de Carvalho: "XIV: O Bailado e o crime", "XV: A alegria e o Crime", "XVI: O Crime, a Floresta e a Memória da Espécie"
Fragmento do livro "Filosofía zombi", de Jorge Fernández Gonzalo; "Notas para a reconstrução de um mundo perdido", de Flávio de Carvalho: "XIV: O Bailado e o crime", "XV: A alegria e o Crime", "XVI: O Crime, a Floresta e a Memória da Espécie"

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SOPRO
62
 
 
O
 
SOPRO
 
apresenta a tradução (feita por Alexandre Nodari) das páginas iniciais de
Filosofía zombi 
,livro de Jorge Fernández Gonzalo (Madri: Anagrama, 2011).
Fragmento
Filosofa zumbi
Jorge Fernández Gonzalo
TRAILERIntrodução
Zombies won’t be able to do philosophy.
Owen Flanagan
, “Zombies and the Function of Consciousness”
 A zombie has a different philosophy. That is the only difference. Therefore,zombies can only be detected if they happen to be philosophers.
** 
Jaron Lanier 
, “You can’t argue with a Zombie”As produções sobre zumbis muitas vezes se apresentam como um barômetro de certas inquie-tudes sociais. Filmes, séries televisivas,
videogames
, quadrinhos e mesmo desles ou
zombiewalks
animam o circo mediático e as práticas do transcultural, punk ou anti-sistema a partir de umaperspectiva lúdica e, ao mesmo tempo, perturbadora. Todavia, as páginas que lerão a seguir nãopretendem abordar de maneira sistemática o fenômeno histórico-cultural do zumbi em sua relaçãocom o cinema e outras artes, nem oferecer uma leitura moral ou paródica de seus estilemas e dos
enredos icônicos preferidos do gênero. Trata-se de conceber uma losoa zumbi, de autorizar o
zumbi como conceito, como metáfora a partir da qual se pode entender o entorno mediatizado que
nos rodeia: desequilíbrios nanceiros, paixões reduzidas ao pastiche de sua expressão hiper-real,
modelos de pensamento assegurados pelo poder e consolidados pela implementação da maquina-
*
[Os zumbis não serão capazes de fazer losoa]
**
[Um zumbi tem uma losoa diferente. Esta é a única diferença. Portanto, zumbis só podem ser identicadoscaso sejam lósofos.]
2
Sopro 61 novembro/2011
3
 
4
Sopro 62 novembro/2011
mortos vivos. O único problema será que, nessa busca intrépida, o leitor possivelmente se deparará
com um espelho ao nal do labirinto, e que a imagem destes andarilhos esfomeados não lhe devol
-
va nada além de seu reexo deformado, tudo aquilo que acreditava ser seu visto agora em estado
de decomposição como efeito desta outra praga, muito mais velada que todos os cadáveres domundo levantando-se da terra, mas igualmente virulenta, trazida pelo desenvolvimento de um novocapitalismo afetivo e mediático que assistimos expectantes.Fica o aviso.
ROLO I: “A noite dos mortos vivos” (1968)O horror do indizível
 
Não há nada que o homem mais tema do que o contato com o desconhecido. Ele
quer ver aquilo que o está tocando; quer ser capaz de conhecê-lo ou, ao menos,
de classicá-lo. Por toda parte, o homem evita o contato com o que lhe é estra
-
nho. À noite ou no escuro, o pavor ante o contato inesperado pode intensicar-seaté o pânico. Nem mesmo as roupas proporcionam segurança suciente – quão
facilmente se pode rasgá-las, quão fácil é avançar até a carne nua, lisa, indefesada vítima.
Elias Canetti
,
Massa e poder 
O zumbi representa essa força do ignoto a qual Canetti se refere.
Não há nada que o homem maistema do que o contato com o desconhecido.
O impulso do irrepresentável, o traço sem gura que
nos obriga a fugir da realidade, a repudiá-la, a negar sua proximidade grumosa, mas indiferenciada.O imediato que carece de nome, a presença que não termina de se concretizar no sortilégio daunidade, que não se refugia na linguagem, mas se sustenta por uma dispersão, entre os vãos e
labirintos do vero. Aí está o medo, a angústia, o desassossego humano. H. P. Lovecraft armava na
abertura de seu famoso texto
O horror sobrenatural na literatura
: “O medo é uma das emoções maisantigas e poderosas da humanidade, e o medo mais antigo e poderoso é o temor do desconhecido”.
E prossegue: “Os primeiros instintos e emoções do ser humano formaram sua resposta ao ambienteem que se encontrava. Os sentimentos bem denidos baseados no prazer e na dor cresceram em
torno aos fenômenos cujas causas e efeitos ele compreendia, enquanto que em torno daqueles
que ele não entendia se teciam aquelas personicações, interpretações maravilhosas, e sensaçõesria capitalista. Porque, como nos lmes lado B, sempre se está falando de outra coisa, ainda quenão se queira: Jorge Martínez Lucena assinalava a relação entre
 A invasão dos ladrões de corpos
,de 1956, em pleno auge do macarthismo, e o medo diante de uma possível alienação comunista. Oucomo aponta Serrano Cueto, “no caso de George A. Romero, o zumbi é utilizado como instrumento
para articular uma crítica social, uma análise dos conitos humanos, que, com pouco esforço, pode
ser associado com momentos históricos determinados (a guerra do Vietnã em
 A noite dos mortos-vivos
), situações comumente aceitas, mas não por isso menos doentias, como o consumismo exa-cerbado (
O despertar dos mortos
) e a informação sensacionalista (
Diário dos mortos
), o abuso dopoder militar (
O dia dos mortos
) ou a luta de classes (
Terra dos mortos
)”. O próprio Romero haviadeixado isso claro em uma entrevista a
Scifworld 
: “todos meus lmes sobre zumbis surgiram a partir 
de idéias, ao observar o que está ocorrendo no plano cultural ou político, no momento em que o
lme está sendo rodado”.
A semiótica do zumbi é a do desvio, a de uma ocultação indiscriminada. Só quem achar neces-sário poderá ver aqui um ensaio sobre mortos vivos: no entanto, nosso intuito é oferecer uma aná-
lise relativa à linguagem, à hiper-codicação do mundo atual, aos vícios do capitalismo ou da moda
e os farrapos afetivos que foram despedaçados pelas modernas sociedades computadorizadas. A
relação entre os capítulos ou fases é pouco mais que anedótica: a partir da lmograa de GeorgeA. Romero, encadeamos uma série de temas que não concernem somente a seus lmes, mas que
também permitem articular toda uma crítica, mais ou menos sistemática, à ordem estabelecida, aseus discursos, suas quimeras aceitas. Não faltarão tropeços nem hesitações, tateares no escuro,
estrondos, dribles para esquivar os avanços da infecção. Assim, uma parte [do livro] nos remete ao
poder do desconhecido que a mitologia zumbi põe em jogo através do medo e da espetacularidadede suas imagens, outra nos previne contra a ameaça de nossas próprias servidões hiper-consumis-tas, aquela psicanalisa o zumbi, a mais além desconstrói a horda e suas práticas grupais, em outrase exploram as formas de afetividade degradadas e a última das partes apresenta uma análisedo fenômeno da cópia e da subversão literária. Tudo ocorre ao modo de uma praga, por infecção
e dentada dos temas, os quais, pouco a pouco, encadeiam o corpo desado da narração. Corpo
incompleto, com zonas expostas ao olhar e vazios que nos mostram a visibilidade do fundo, buracos
através dos quais se pode pensar, escrever, dizer aquilo que os grandes relatos da losoa tinhamocultado até pouquíssimos anos. Pois, como dizia Michel Foucault, o objetivo do pensamento não
haveria de ser, como até agora, o de preservar obras, autores ou modelos de esquematização do
real; antes, corresponde à losoa sempre ir além, pretender, de algum modo, mostrar novos cami
-
nhos, abrir sendas, espaços intransitados e dependências desconhecidas de nossa razão – ainda
que, para tanto, se tenha de decapitar uma torrente de zumbis.Contudo, quem quiser se empenhar em procurar nestas páginas essas entranháveis e pútridas
criaturas poderá fazê-lo. E as encontrará em quase todas as páginas. Centenas delas, legiões de
Fragmento
Filosofa zumbi
Jorge Fernández Gonzalo

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