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Rastros n.-1 (Out/2012)

Rastros n.-1 (Out/2012)

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"Economia da potência, ecologia do cuidado"; "Em defesa da esquerda punitiva"
"Economia da potência, ecologia do cuidado"; "Em defesa da esquerda punitiva"

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12/04/2012

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RASTROS
Desterro, Outubro/2012
 
|
Editor: Moysés Pinto Neto
Editorial: Alexandre Pandolfo, José Linck, Manuela Mattos,Marcelo Mayora, Mariana Garcia, Moysés Pinto Neto.
Sempre que você disser algo, não diga duas vezes.Encontrando o seu pensamento em outra pessoa: negue-o.Quem não escreveu sua assinatura, quem não deixou retratoQuem não estava presente, quem nada falouComo poderão apanhá-lo!Apague os rastros!
n .
“ ‘A revolução ou a morte’: esse slogan nãoé mais a expressão lírica da consciência re-voltada, é a
última palavra do pensamento
cientíco de nosso século [XX]
. Isso se apli-ca aos perigos da espécie como à impossi-bilidade de adesão pelos indivíduos. Nestasociedade em que o suícidio progride comose sabe, os especialistas tiveram que reco-nehcer, com um certo despeito, que ele caíraa quase nada em maio de 1968. Essa prima-vera obteve assim, sem precisamente subi--lo em assalto, um bom céu, porque algunscarros queimaram e porque a todos os ou-tros faltou combustível para poluir. Quan-do chove, quando há nuvens sobre Paris,não esqueçam nunca que isso é responsa-bilidade do governo. A produção industrial alienada faz chover. A revolução faz o bomtempo.”  
(Guy Debord)O ufanismo progressista grita em altos brados
as vitórias do Brasil moderno, do Brasil-potên-
cia que comemora seus altos índices econômi
-
cos, seus números que fazem inveja ao Norteenvelhecido e carcomido diante dos saudáveise produtivos emergentes. Alianças improváveis
entre o arcaico e o
hi-tech.
O novo-velho Brasil
sintetizado nessa gura emblemática que é a se
-
nadora Kátia Abreu: oligárquico, com renda eterra concentrada, escravocrata e genocida, deum lado, e tecnológico, produtivo, capitalista e“potência mundial”, de outro. Como sempre, os“restos dessa história” são soterrados sem po
-
der sequer gritar por justiça, como os índios al
-
 vos de pistoleiros no interior do Brasil que querfazer o verde se tornar cinza, e depois verde denovo, numa dialética oresta-concreto-dinhei
-
ro cujo movimento nal de “síntese” está pron
-
to a ser justicado em nome do
 progresso
que já tarda.Que estejamos assistindo o ocaso do modeloque resolvemos, na retaguarda do atraso, sim
-
plesmente copiar, é algo que parece não inco
-
modar qualquer dos legitimadores.
1
O fetichepor números vazios em uma economia sem las
-
tro real, mero jogo de espelhos (especulação),caminha ao lado de cções político-jurídicas do“avanço do Estado de Direito” e da cidadania,ainda que isso signique simplesmente colocarmilitares para vigiar mais perto os espaços emque o Estado jamais esteve presente. O mesmo jogo de espelho funciona para os intelectuaiscolaboracionistas que legitimam o modelo atual
1
VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. “Desenvolvimentoeconômico e reenvolvimento cosmopolítico: da necessi
-
dade extensiva à suciência intensiva.” Em:
Sopro,
n.51,Maio/2011. Nosso texto é totalmente parasitário em rela
-
ção a este.
ECONOMIA DA POTÊNCIA,ECOLOGIA DO CUIDADO
 
crendo nos velhos motes do progresso e da civi
-
lização. O pragmatismo absolve tudo. A maior prova da utuação no vazio especu
-
lar dessas justicativas é sua própria falta de
compromisso com o mais concreto do
real 
, ouseja, com a própria possibilidade
material 
de
implementação desse modelo baseado no con
-
sumo ilimitado no Planeta Terra.
1
economia- nómos do oikos
(lei/governo da casa) - destróitoda possibilidade de
ecologia - logos do oikos
(pensamento da casa) - cobrindo o real com seuimplacável mundo homogêneo de concreto. Nadialética do verde e cinza, o heterogêneo mul
-
tinatural brasileiro - sua riqueza qualitativa - édevastado pelo deserto civilizatório da homoge
-
neidade inclusiva - pura riqueza em quantida
-
de.Não se trata de nostalgia nem purismo. Opo
-
sição que não se dá entre puro e impuro, mas
entre
 pharmakon
tóxico e terapêutico. A inclu
-
são, mote central da estratégia política da nos
-
sa “tecnocracia de esquerda”, é perniciosa nasua violenta lógica homogeneizante: um únicodispositivo deve reunir toda multiplicidade deformas-de-vida, agrupando singularidades sobum mesmo eixo civilizatório. Oferece-se umcoquetel que combina o
kit-consumo
- provo-
cador de intoxicação e adição generalizada nosseus usuários e atual modelo econômico empleno declínio no cenário mundial
2
- e o
kit--cidadania
- restolhos de participação políticaem um regime democrático corroído por trocasplutocráticas e em plena crise de legitimidade
(
como canta Thom Yorke, “they don’t speak forus!” 
), acreditando-se com isso estar em verda
-
deira redenção messiânica do povo brasileiro.
3
 
Nessa disputa de
 pharmaka
, não é um acasoque a tecnocracia brasileira ataque por meio do
1
DEBORD, Guy. “O planeta doente”. Em:
 Sopro,
n.44,Janeiro/2011.
2
STIEGLER, Bernard.
 Mécréance et Discrédit, 3 - L’esprit  perdu du capitalisme.
Paris: Galilée, 2006. pp. 114-116.
3
GUATTARI, Félix.
 As três ecologias.
Campinas: Papirus,1990 (cujo diagnóstico permanece perfeitamente atual).
 Ministério da Cultura
, transformado em rea
-
cionário guardião da propriedade intelectual, justamente um dos
 pharmaka
que tem o mais visível potencial de transformação do nosso es
-
paço jurídico, político e econômico: a
 Internet 
.Fórmula resumida da nossa experiência atualda política: a cultura reduzida à propriedade, apolítica reduzida ao gerencialismo, a economiareduzida ao consumo. O
investimento
é tomadopela construção de estradas para os automóveisque fazem girar a roda do consumo, a mesmaroda que destrói a ecologia psíquica com o
stress
do trânsito e a violência intersubjetivaimpessoal protegida por exo-esqueletos de lataque ceifa diariamente muito mais vidas que os bem-noticiados assaltos; a ecologia urbana, aotransformar a cidade numa paisagem desérticaregida pelos carros (“carrocentrismo”); e a eco
-
logia terrena, provocando o aquecimento globale corrosão da variedade das paisagens multina
-
turais. Assim, entre extermínio de índios, destruiçãode biomas, xenofobia com imigrantes haitianos,submissão da experiência política ao formalis
-
mo liberal, desprezo pelas convenções interna
-
cionais e ofensivas de estado de exceção caindosobre os pobres para promover mega-eventoscaminha o Brasil-potência, já bem parecido,embora de forma caricata, com seus modelosdo Norte. O produtivismo como matriz comumà direita e à esquerda é também
masculino
,
pois ele se opõe às antigas estéticas feministasdo passivo e do receptivo.
4
Por isso não é coin
-
cidência que o Brasil-potência, regido parado
-
xalmente pela sua “Dama-de-Ferro”, recuse-sea enfrentar a perigosíssima ascensão de um
ul-traconservadorismo
de perl fascista e funda
-
mentalista que ataca diariamente as mulherese o movimento LGBT, preferindo apegar-se amigalhas de votos para aprovação dos projetosde ferro e concreto em nome do reforço dos nú
-
meros a sair nos noticiários todas as noites.
4
DERRIDA, Jacques.
 Éperons: les styles de Nietzsche.
Paris: Flammarion, 1978. pp. 61-63.
RASTROS
n .
2
Que a roda não possa girar ao innito nessemesmo ritmo, que haja um limite incontorná
- vel derivado da
 fnitude
dos recursos energé
-
ticos desse sistema em equilíbrio metaestávelchamado Terra é algo que não abala em nadaa crendice negacionista dos nossos pensado
-
res e governantes.
Que ninguém ouse colocarlimites à potência por vir!
, bradam os progres
-
sistas, já prontos a reproduzir a mesma arro
-
gância violenta, soberana e delirante dos seusmodelos do Norte.Recusamo-nos a entrar no século XXI, habitarde uma nova forma nosso lugar, a construirum novo
ethos
com novos investimentos e
sem efetivar a destruição da Terra por efeitosantropogênicos em vista. A construção des
-
se novo equilíbrio não pode, na imanência dasociedade em que
nós
(não todos, mas
nós
apenas) estamos lançados, ser reduzida a umasimplória interdição individual, como fazem as“verdismos” ingênuos, mas a partir de uma
ne-gatividade de ruptura
, uma “Grande Recusa”
5
 
tal como o “freio-de-mão”
6
da locomotiva ben
-
 jaminiana; entretanto o mesmo gesto, visto deoutra perspectiva, é
afrmativo
: como o Bar
-
tleby de Melville,
 prefere não
. Nós
 preferimosnão
viver como “consumidores”. Contra a eco
-
nomia da potência nós lançamos a ecologia docuidado. O mundo não como uma grande selvaestranha e hostil a ser conquistada em nomeda grandeza humana, mas
enquanto um outro frágil 
que me demanda cuidado.
7
Proposta deuma transformação que possa signicar
outralógica de relação com o mundo
, aberta à diver
-
sidade de heranças culturais e aos testemunhosdas singularidades sufocadas para a construção
5
BLANCHOT, Maurice. “A grande recusa”.
 
Em:
 A con-
versa infnita.
São Paulo: Ed. Escuta, 2001.
6
BENJAMIN, Walter. “Teses sobre o conceito dehistória”.
 
Em:
 Magia e Técnica, Arte e Política – Obras Escolhidas vol. 1.
São Paulo: Brasiliense, 1994.
7
SOUZA, Ricardo Timm de. “Sistema e Totalidade: so
-
 bre idealismo, cienticismo e totalização no contexto daecologia e da losoa da natureza”. Em:
 Em torno à dife-rença.
Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2008.
de formas-de-vida não-destrutivas. Em vez do
crescimento, a
deiscência
, imagem botânica aexpressar uma relação não violenta com a fragi
-
lidade daquilo que cresce quando
maduro
.
EM DEFESA DAESQUERDA PUNITIVA
“Injustiça evoca sofrimento; sofrimento éincompatível com veleidade. Essa é a razão
 pela qual pesa sobre um escrito flosófco
sobre a justiça a sombra de uma urgênciaque só pode ter como relativa correlação deequilíbrio a adesão incondicional à concre-tude do exposto: vida ex-posta”.
(Ricardo Timm de Souza)Em um texto que se tornou fundamental parao debate jurídico-penal brasileiro, Maria Lú
-
cia Karam denunciava, nos idos dos anos 90,a emergência de uma
esquerda punitiva
.
8
1
Se
-
gundo ela, estaríamos presenciando uma es
-
pécie de reciclagem dos ideais punitivistas dadireita sendo apropriados por uma esquerdaque se desviaria da sua crítica ao sistema pu
-
nitivo enquanto parte do mecanismo capitalistae promovedor da desigualdade social para, a
partir dos movimentos sociais, das demandas
por criminalização da ordem econômica e do“crime organizado”, promover-se uma tentati
-
 va de inversão do funcionamento do aparelhode punição. O notável texto de Maria Lúcia
Karam merece ser sempre retomado, revivido,
repotencializado. Acreditamos, contudo, quea recepção
crítica
potencializa a herança. Emoutros termos: pensamos ser mais
 féis
ao texto
legado por Maria Lúcia Karam com o repensarde alguns pontos a partir das circunstâncias
1
KARAM, Maria Lúcia. “A Esquerda Punitiva”. Em:
 Dis-cursos Sediciosos
, n.1, Rio de Janeiro: Relume-Dumará,1996.
Desterro, Outubro/2012
 [ www.culturaebarbarie.org/rastros ]
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