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Equacionamento – cap. 2- Costumo dizer a mim mesma que essa coisa de costumo dizer é muitosentenciosa, pouco modesta e muitas vezes antipática. Entretanto...costumo dizer que quem procura culpados é o juiz de direito, o promotor, oadvogado, o detetive. Quem pensa em culpa pensa em punição para oculpado. Como não exercito as atividades dos profissionais referidos,quase nunca penso em ir atrás de culpabilidade, em qualquer situação.
 Fazendo uma digressão: tenho registrado em arquivos escritos algumascenas, momentos de vida, que me levaram a refletir sobre coisas mais gerais. Uma delas ocorreu em curso para professores da rede estadual, deum convênio CENP-USP, lá pelos anos 1980. Uma professora, lá às tantas,indignou-se com algo que eu havia dito e manifestou-se: “Você estáquerendo dizer que nós, professores, somos culpados pela nãoalfabetização do aluno?”.Minha resposta (ainda bem que consegui pensar rápido!): “Não sei e nemquero saber quem é o culpado. Quero é ajudar a resolver uma situação, eatribuir culpas não vai ser de tanta utilidade. O que quero saber é de quem são as responsabilidades, e neste caso há responsabilidade do professor, sim, mas há também responsabilidade do governo, da direção da escola,dos funcionários da escola, dos pais de alunos e dos alunos. Precisa-se saber quais são as responsabilidades de cada um, para determinar asorigens e causas dos problemas, e encontrar soluções cabíveis, exeqüíveise justas”.(exeqüíveis? Será que usei esse termo mesmo? Talvez, pois aquela turmacertamente o conheceria: todo mundo tinha sido normalista numa épocaem que se lia bastante.)E continuei com algo como: ”Culpa deve implicar em pena, penalidade. E aplicar penas é uma das coisas que menos ajudana solução mais permanente de muitos problemas. Já avaliar e solicitar oexercício de responsabilidades é fundamental para bons resultados.” A partir daí, no curso, as discussões foram muito mais livres, abertas e proveitosas: ninguém precisava sentir-se na berlinda, sendo julgado eacusado; passou-se a apenas avaliar atividades e situações, não pessoas.
Retomando: eu mesma me surpreendi com o episódio, e a partir daí passeia relatá-lo em diversas situações, em especial em aulas e em reuniões comdiferentes públicos, em processos de planejamento governamental. Daí o“costumo dizer”.
 
Creio que o raciocínio é aplicável ao nosso caso, pois de repente,insatisfeitos com rumos e resultados, passamos, de certa maneira, aacusações, a atribuições de culpa, a disfarçado menosprezo por certasidéias e intenções, e com isso a ferir sentimentos, a gerar descontentamentos a maioria das vezes involuntariamente e, em algunscasos, até um tanto inconseqüentemente.Quem? Quem fez isso? Não interessa, se concordamos com o acima exposto. O que queremos éque o grupo vingue, não que as pessoas se vinguem (
 Nossa! Não estoudemais, no uso do vernáculo?).
Indo à questão das responsabilidades, das atribuições. Do meu ponto devista, algumas das responsabilidades foram assumidas pelo GM (Grupo doMolina, aquele do qual o Molina não é dono, mas membro integrante), deforma voluntária e responsável. O GM (podemos mudar o nome e a sigla, para Grupo Executivo do CRUSP68, GEC ou GCRUSP68, por exemplo)respondeu plenamente às suas atribuições, como sabemos e tantoagradecemos.Meu raciocínio: isso, esse sucesso, levou à criação de novasresponsabilidades, um número imenso, indefinido, delas. E a indefiniçãonão se deu apenas em relação ao número de responsabilidades, mas aostitulares de cada uma. O andar da carruagem foi ocorrendo de formaespontânea, sem linhas demarcatórias, sem placas de estrada. E isso foi bom, foi muito bom. As pessoas foram se conhecendo, alguns grupos estãoclaramente em gestação, processo de parto e já nascidos, os tropeços foramsendo registrados e servindo de avisos, algumas intenções de trabalho e produção foram sendo manifestadas e implemantadas. O grupo que estámantendo contato e trabalhando ainda é muito pequeno? Sim e não. Sim, se pensarmos no grupo potencial, nos demais que podem vir a participar – elesnão sabem o que estão perdendo! Não, pois está atuante, e apresentaráresultados para seus integrantes e demais cruspianos e, esperosinceramente, para umas e outras parcelas da sociedade. Um bom resultado não depende de mudanças radicais de percurso. Masmelhores resultados dependem, sim, de melhor organização, de definiçãode responsabilidades.Algumas delas são de todos os participantes. Outras foram e estão sendodefinidas pelo processo. Quais são, umas e outras? Acredito que isto se
 
coloca como de fundamental discussão e estabelecimento. Não é tão fácil:haverá certamente uma hierarquia de atribuições, daí decorrendo algumahierarquia de poder. E isso me motiva para nova digressão: 
 No início de 1964 o arranjo da ocupação inicial (no bloco ocupado, o F, asmoças ocupavam o 3º andar, e os rapazes o 5º e o 6º) foi modificado. Asmoças passaram para o bloco D, os rapazes para o B e o C, e osapartamentos do F foram destinados a atividades administrativas e deorganização estudantil (o 101 era usado para nossas reuniões e contavacom alguma infra-estrutura de nosso uso), e, no correr do tempo,abrigaram professores visitantes e alunos de especialização e pós- graduação. Enquanto no D as pioneiras executaram a idéia de alternânciade alocação, intercalando apartamentos de pioneiras com apartamentos denovatas (lembro-me de que nós,já moradoras, fizemos diversas reuniõescom grupos de novatas, para falar da importância e significado daexperiência, e um dos papos era mais ou menos o seguinte: “Se vocêsvieram para o CRUSP apenas para resolver o problema de moradia decada uma, é bom saber o seguinte: o CRUSP não deve ser um lugar paraapenas morar: é um lugar para
viver;
 
 por isso, e também porque a opinião pública pode interessar à nossa permanência aqui, vamos nos comportar como se estivéssemos em nossas casas, com uma dose maior de liberdade,mas respeitando os demais moradores, quanto ao silêncio noturno, aoestudo, à higiene...”. A alternância foi possível no D, naquele momento, porque as novatas não vieram em número suficiente para ocupar todos osandares. Já o C foi ocupado por expressiva maioria de politécnicos, com um grandenúmero de calouros. O número de situações de angústia, por vezes deconflito, aumentou. Sei disso por ter pertencido à comissão derepresentantes, e também recordo que houve uma explicação: a maior  parte dos calouros vinha do interior, numa primeira experiência de vidalonge da família. Tinham entrado na Poli, então seriam certamente muitointeligentes e experimentariam, em suas cidades de origem, principalmenteas menores, alguma situação de destaque por sua genialidade e, possivelmente lá exerceriam alguma função de liderança. Pois bem: tal destaque e tal liderança não funcionavam da mesma forma no CRUSP: seria um monte de iguais, longe da família original e ainda sem uma nova, sem os cerceamentos daquela e sem orientação satisfatória para a vidanesta de agora. Levou um tempo para que as coisas se acomodassem, eacredito que a força das circunstâncias gerou algumas rusgas, sim, maslevou a muitas amizades fortes e duradouras.
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