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Conteúdo Ideológico Da Obra Conteúdo Ideológico Da Obra Conteúdo Ideológico Da Obra Conteúdo Ideológico Da Obra 
 
 Editada em primeiríssima mão e postumamente, em 1614,
Peregrinação é
um documentoinesgotável de uma época tão rica e controversa como o foi a da expansão marítima que,segundo alguns, terá desencadeado a dita Revolução Comercial que atingiu o seu clímax noséculo XVI e seguintes.A obra citada é, por si mesma, a expressão mais fiel do espírito subjacente a esta nova épocada História Universal, a Época Moderna, decisivamente impulsionada pelas viagens de des-cobrimentos ultramarinos iniciadas no século XV e ditadas pela ambição das nações costeirasda Velha Europa, ávidas dos lucros do comércio com o Oriente e ansiosas por dominar efec-tivamente as Rotas da Seda e das Especiarias. Este comércio, inicialmente estabelecido nasprincipais cidades de Itália, foi então disputado por Portugal e Espanha, reinos emergentes enos quais recrudescia o espírito mercantilista, fruto provável da Revolução Burguesa de1383-1385. Este despertar ibérico terá tido as suas origens na necessidade de estabelecer rotascomerciais mais rendíveis para as suas economias nacionais, então profundamente debilita-das pelas elevadas quantias dispendidas em troco de sedas, essências, especiarias e tapeça-rias importadas da Ásia e comercializadas nos portos italianos.A precocidade e domínio italianos no campo comercial, para além de muitos outros, foramas condições de terminantes do florescimento Renascentista. Introduzindo fortes alteraçõesna cosmovisão medieval essencialmente dogmática e autoritária, o Renascimento introduz aproblematização das leis já instituídas, com particular incidência naquelas que se cria rege-rem o Universo. Este não era já concebido como um sistema finito de esferas concêntricasgirando em torno do nosso planeta, mas como um conjunto de astros que, devido a forçasentão desconhecidas, descreviam um movimento quase circular em torno do Sol. Era a teoriaheliocêntrica, construída e desenvolvida com base numa atitude crítica e céptica, que recusa-va o misticismo e ascetismo de outros tempos ainda próximos, senão coexistentes no tempo eno espaço. As novas teorias, defendidas por Copérnico, Galileu e Leonardo da Vinci, desper-taram em muitos dos seus contemporâneos a atracção pelo desafio acerbado pelo desconhe-cido, que já não era temido, e pelo desbravar de novos horizontes, até então demasiados res-tritos e restritivos.Despido de preconceitos, o Homem aventura-se para além das suas fronteiras naturais. Omar deixa de ser o fim do mundo e um limite intransponível, para se tornar o canal privile-giado de comunicação e de comércio entre o Velho Mundo e o Novo Mundo. As navegaçõesefectuadas, por seu turno, demonstraram os erros dos antigos e justificaram as palavras de
 
Duarte Pacheco em
Esmeralda de Situ Orbis,
«a experiência é a madre das coisas, e por elasoubemos radicalmente a verdade», assim como as de Garcia da Orta, que se dedicou comgrande afinco ao estudo da flora oriental e sobre ela elaborou importantes estudos, tal comoo fizeram também Azurara, frei João dos Santos e Fernão Mendes Pinto, que deram igualimportância à fauna daquelas terras longínquas. Em
Peregrinação
surgem grandes quadrossinestéticos das paisagens naturais observadas pelo seu narrador, que não consegue escondero seu espanto. Estas descrições abarcam campos como a geografia, a topografia, a fauna, aflora e a etnografia e são dotadas de um grande realismo e tentativa de objectividade, de queo Capítulo XLI é bem exemplificativo. A viagem é uma aprendizagem contínua e um con-fronto permanente entre a realidade que pela primeira vez se observa despreconceituada-mente e de modo ingénuo e com objectividade e os conceitos dogmáticos que são a cada pas-so usurpados pelo mundo abarcado pela visão e pela experiência. Deste modo, a descobertade algo que era até então desconhecido é um facto inolvidável e fonte de contentamento,mesmo que a natureza do fenómeno observado possa constituir uma ameaça, como o croco-dilo:«Em todo este rio, que não era muito largo, havia muita quantidade de lagartos, aos quaiscom mais próprio nome poderia chamar serpentes, por serem alguns do tamanho de uma boa almadia, conchados por cima do lombo, com as bocas de mais de dous palmos, e tão sol-tos e atrevidos no cometer, segundo nos afirmaram os naturais da terra, que muitas vezesarremetiam a uma almadia quando não levava mais que três, quatro negros, e a soçobravamcom o rabo, e um e um os comiam a todos, e sem os espedaçarem os enguliam inteiros.»
Peregrinação,
cap. 14Esta relação directa e
in locu
com tais fenómenos e realidades só foi possível, contudo, devidoao progresso na aquisição e assimilação de conhecimentos geográficos e científicos, cuja con-cretização se ficou a dever, por seu lado, ao aperfeiçoamento dos instrumentos de orientaçãoe de navegação, nomeadamente o astrolábio e a bússola. De salientar que os processos expe-rimentais da época nada têm em comum com o método experimental da ciência moderna,porque no primeiro caso a experimentação consistia exclusivamente na recolha ocasional dedados, registados por pilotos e marinheiros nos seus diários de bordo. Segundo o polígrafo
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