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questão ambiental haitiana

questão ambiental haitiana

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01/31/2014

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Notas sobre a questão ambiental haitiana
Livia Morena Brantes Bezerra
Antecedentes históricos
O Haiti se destaca como o primeiro lugar onde Cristóvão Colombo aportou,nas águas azuis de Môle Saint-Nicolas. Nessa época, a riqueza de espécies eambientes que se podia presenciar deve ter colocado belos sorrisos nos rostosdos colonos. Começa a exploração colonial, primeiramente espanhola e após otratado de Riswik, francesa, e com ela a dizimação dos povos autóctones, e desua relação harmônica com a biodiversidade. A exploração do acaju nativo e deoutras madeiras de lei, foi a primeira a se estabeler na ilha La Hispaniola, e apartir dela começa o empobrecimento, num primeiro momento, e a devastação,logo em seguida, das suas florestas ancestrais.
 A paisagem que encantou os tripulantes da Santa Maria, foto tirada em 2010.
Durante o processo de colonização, nos duzentos anos que se seguiramapós a “descoberta” de Colombo, priorizaram-se dois tipos de plantação, ambosextremamente daninhos ao ambiente, na forma com que foram conduzidos. Oprimeiro e mais importante foi a Cana-de-açúcar, que só se desenvolve emgrandes extensões de terras planas e com grande quantidade de força-de-trabalho envolvida, já o segundo, o café, se desenvolveu nos morros e encostas,deixando assim todo o território haitiano vulnerável ao desmatamentodesenfreado, em busca de terras produtivas. Esse é o marco inicial do quechamamos comércio tringular, responsável pela grande acumulação primitivaque pode em seguida dar início ao desenvolvimento capitalista. Os escravos
 
eram trocados na África pelas famosas quinquilharias, amontoados nos naviosnegreiros chegavam às colônias, onde seriam trocados por matérias-primasvaliosas ou pelos produtos coloniais, que seriam vendidos a ouro na Europa. Anatureza e localização das Antilhas aí eram muito propícias, e o Haiti em especialchega a ser conhecido como a Pérola das Antilhas, sendo responsável por cercade 2/3 de todas as riquezas da França. A presença de navios piratas eraconstante e assolava também o quadro devastador.Em 1793 começa a guerra de liberação dos escravos, que tinha sidoplanejada em baixo de uma frondosa árvore, numa nascente chamada BwaKayman. Muitas são as lendas haitianas que envolvem os elementos naturais, edaí advem o respeito que os ancestrais tem pela natureza e ao mesmo tempo avoracidade com que os exploradores a destróem, como se ao destruir a naturezaestivessem também destruindo os elementos de organização do povo. Em 1804,ao fim da primeira rebelião de escravos triunfante na América, e ao início daprimeira Nação livre de nosso continente, a terra ainda ardia pelos sucessivosincêndios nas plantações e nos seus arredores, utilizados como defesa contra oexército de Napoleão.O principal objetivo do Exército de Toussaint Louverture era o acesso àterra para os que nela trabalhavam. Ao estabelecer-se a pátria sob o comandode Dessalines essa foi a primeira tarefa empenhada, e foi também a causa desua queda. Após a morte de Dessalines as terras agricultáveis passaram às mãosde poucos senhores, antigos generais e comandantes do exército, e os montes,único regio para os camponeses sem terra, passaram a fazer parte dapropriedade do Estado. Até hoje reina a confusão daquela época, no que dizrespeito à propriedade e titulação da terra.O que se seguiu foi uma opressão tremenda por parte das naçõespoderosas do mundo sobre o território haitiano, como que para mostrar para asdemais colônias o que acontecia quando o povo tomava as rédeas da nação,evitando sempre que o Haiti pudesse servir de exemplo para outras colôniasamericanas. A cobrança de uma dívida pelos colonos franceses, sobre a perda doseu direito de explorar o solo alheio, e o pagamento absurdo da mesma, paraque fosse reconhecido o direito do Haiti de ser uma Nação. As sucessivasocupações militares norte-americanas, sob o pretexto de trazer a ordem (e oprogresso) para o país. A ditadura Duvalier, que tentou desenvolver a indústria eexplorar ao máximo a força-de-trabalho mais barata das américas, estabeleceucontratos comerciais e sanitários que destruíram a economia camponesa, eainda sob o pretexto de combater formações guerrilheiras nas fronteiras com aRepública Dominicana devastou os últimos grandes remanescentes florestais dopaís.
Causas estruturais
O Haiti é o país mais empobrecido das Américas. Sua história é marcadapor uma pressão externa que nunca deixou o Estado se fortalecer e estabelecerpolíticas necessárias para o desenvolvimento da nação. Nos últimos anos, com aforça do neoliberalismo assolando as nações periféricas ao capital, essa fraqueza
 
do Estado se tornou algo que afeta muito negativamente todos os setores dapopulação, mas também um atrativo a mais para se estabelecerem novasformas de exploração sobre o povo haitiano. Tem-se por costume chamá-lo de“Letà pepè”, referindo-se aos produtos vendidos na rua que vem de segunda-mão ou dos outlets norte-americanos e dominicanos. Não haveria figura delinguagem mais apropriada para o que se vê por aqui.Esse estado sem autonomia, é o que abre todas as torneiras da economiahaitiana para o mercado internacional, e ao fazê-lo destrói qualquer tentativa dedesenvolvimento endógeno. As poucas indústrias, têxteis e bebidas, estão nasmãos de grandes corporações. A agricultura está dependente dos insumosexternos, fertilizantes, sementes, agrotóxicos, ou seus produtos tem seus preçossubordinados aos preços dos produtos subsidiados, sendo comum a prática dodumping, enchendo o mercado de produtos alimentícios importandos e aomesmo tempo inviabilizando a produção camponesa.Some-se a isso um neoliberalismo aplicado também aos serviços básicosque, além de privatizados, se encontram num estado de precarização absurdo.Cerca de 85% da educação está nas mãos da iniciativa privada, e não temregulamentação quanto ao currículo básico que devem seguir, nem sobre apedagogia adotada. É comum adolescentes chegarem em casa com as mãosvermelhas, pois a prática da violência entre os professores para com osestudantes ainda é rotineira. O direito à saúde é negado a milhares dehabitantes e quando existe é ineficiente. A mortalidade média no Haiti é de10,72 a cada mil habitantes. O estado mal tem orçamento para o saneamentobásico, apenas 1 em cada 5 casas tem água encanada, as demais ou compramágua nos caminhões pipa ou coletam sua água nos reservatórios públicos. Aágua potável é privilégio de apenas % da população.A questão energética é algo que deve ser analisado a parte, pois temíntima ligação com a questão da degradação ambiental no país. Calcula-se que71% da energia consumida no país provém de biomassa florestal, e são rarasiniciativas de plantio para esse fim. Alguns estabelecimentos nas cidadesutilizam o gás propano e a eletricidade tem fontes termelétricas (a base depetróleo) e hidrelétricas. Apenas 31,6% das casas haitianas estão ligadas à redede distribuição pública. Todos os dias as cozinhas das principais cidades sãoabastecidas com o carvão dos poucos remanescentes de florestasCom a crescente pauperização das estruturas do estado e da economiahaitiana, cresce a pressão sobre dos recursos naturais, que assim como outroselementos do território não tem regulamento para seu uso. O trabalhador, semterra própria para plantar, sem insumos, sem oportunidade de trabalhoassalariado se vê impelido a cortar as árvores dos montes, que pertencem aoEstado para fazer caro e ter algum ingresso durante a semana. Aresponsabilidade pela absurda degradação ambiental no país está longe de serda massa camponesa. Está nas mãos daqueles que desenharam esse quadro deexploração da população haitiana, que não deixa outra saída para o pobre, e

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