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 CazuzaSó as mães são felizes
 
Lucinha AraújoDepoimento a Regina Echeverria
 
 
"Só as mães são felizes 
é uma homenagem às pessoas que vivem o ladoescuro da vida, aquelas que preferem trocar o escritório pela rua, que resolvem vivere escrever a vida "
 
Cazuza
PREFÁCIO
"Mãe, aconteça o que acontecer,eu vou estar sempre junto de você " 
CazuzaÉ complicada a matemática da justiça. Essa equação sempre foi de difícilcompreensão para mim. Mal saída de uma conjugação perversa que me jogou numcanto escuro do pensamento – onde era imperioso assistir a um espetáculo de dor esorrir –, comecei ame agarrar às lembranças. Como se elas me chamassemdesesperadamente para a vida, deixei meu coração recordar. Estava sentadaolhando a janela, no andar alto daquela casa em Laranjeiras, conseguida emnegociações pacientes, quando o ruído das crianças no pátio me causou arrepios.Ouvia o burburinho bom das correrias, risadas, gritos finos. Era impossível esquecer:todas elas foram tocadas pelo mesmo vírus que levou meu filho. E estavam láembaixo gritando e brincando como crianças sadias. Talvez ainda nãocompreendam muito bem a sua situação. Algumas foram largadas ali pelas própriasmães; outras, recolhidas de abrigos impróprios. Mas, tenho certeza, seus coraçõesbatem com esperança.Anos depois da morte de Cazuza, muitas delas estavam vivas – que ironia –por causa dele! Estranho sentimento esse. Era impossível sufocar essa indagaçãoquase óbvia: foi preciso que ele morresse para que essas crianças vivessem?Pergunto, também: e se tudo não tivesse passado de um sonho ruim? Seessa doença não tivesse se infiltrado em minha família, estaria eu aqui hoje,fundadora e presidente da Sociedade Viva Cazuza? Uma casa modesta, onde trintacrianças que receberam de seus pais a herança do hiv podem alcançar umaqualidade de vida que eu e meu marido João pudemos, ao menos, proporcionar aonosso único filho. Estaria eu aqui?Certamente não.
 
Sei muito bem que nada o trará de volta, mas o sinto a cada minuto a meulado e lamento. Lamento não ter tido a chance de conviver mais, muito mais, do queos poucos 32 anos de Cazuza. Sinto não ter tido mais tempo para aprender acompreendê-lo e fazer com que perdoasse os erros do passado: o excesso de zelo,a cegueira que me impedia de ver o poeta que ele era, e aproveitar um pouco maisdo artista inconformado em que se revelou. Queria que me perdoasse, por ter dadoimportância a coisas tão pequenas, nas quais eu acreditava como verdade suprema.Que me perdoasse por tê-lo sonhado à minha imagem e semelhança e a forçar queele pautasse sua vida, que apenas começava, em convenções inúteis.E, nesse exercício de autoconhecimento, aproveito a oportunidade que osofrimento me deu para dividir com todas as mães do mundo um aprendizado feito aduras penas. E, ainda, tentar responder às eternas questões que atormentam a almafeminina há séculos. Como, por exemplo, a pergunta que tantas e tantas vezes meperseguiu: o que é preciso para que uma mãe aceite ter gerado um anjo rebelde?Mais, ainda, como ter a generosidade suprema de dividi-lo com o resto do mundo?Dividi-lo com pessoas que você nunca viu? Saber que ele corre perigo e já nãoaceita seus velhos conselhos? Queremos que nossos filhos vivam debaixo denossas asas, que pensem como nós, se comportem como nós e, ao crescer, fiquemricos, famosos e felizes para sempre.Um dia pensei ter poderes divinos e que o poder de uma mãe poderiaalcançar a graça suprema de mudar o rumo da história. Acho que João e eu, cegosde esperança, chegamos a acreditar que o patrimônio conseguido ao longo de umavida de luta seria suficiente para salvar nosso filho. Mais do que crenças desabaramquando o desfecho de toda a doença de Cazuza foi um trágico final sem volta, semhipótese alguma de solução. Sua morte modificou de tal maneira minha existênciaque fui me deixando aceitar essa missão que se impôs e me coloca hoje no papel deproteger vidas, poucas que sejam, todas as que eu possa, onde a sombra do hivpositivo ronda perversa nessa guerra fria da luta contra um monstro invisível,palpável, apenas, no corpo que definha à nossa frente, transformando nossaimpotência em quase loucura.E foi quando resolvi dar um basta na importância preconceituosa e pobre deespírito dos segredos, das dissimulações e das mentiras. E imaginei que a trajetóriade Cazuza talvez pudesse ajudar a salvar almas, além de vidas. Decidi que minharelação com ele merecia ser passada a limpo.Decidi seguir o exemplo de meu filho e declarar, contar, revelar, como se omeu pensamento e coração fossem o quintal do mundo, a aldeia global que tantofascinou esse menino tão esperado, cercado de amor demais. Amei meu filho comtoda a força sobrenatural que um sentimento muito forte nos permite. Queria que elefosse o melhor em tudo: o mais bonito, o mais inteligente, o mais bem vestido, omais estudioso e comportado. Lutei muitas vezes com a força de minhas própriasmãos para que ele seguisse as regras que eu – a mãe perfeita – considerava ascertas. E por quê? Cazuza foi criado do jeitinho que ditava a cartilha da minha
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cara , eu quero ganhar esse livro , estou apaixonado por ele antes mesmo de ter lido , tenho 17 anos estou no ensino médio , ficarei grato se eu for presenteado com este livro - e-mail : ewertongreenday@gmail.com

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