Sei muito bem que nada o trará de volta, mas o sinto a cada minuto a meulado e lamento. Lamento não ter tido a chance de conviver mais, muito mais, do queos poucos 32 anos de Cazuza. Sinto não ter tido mais tempo para aprender acompreendê-lo e fazer com que perdoasse os erros do passado: o excesso de zelo,a cegueira que me impedia de ver o poeta que ele era, e aproveitar um pouco maisdo artista inconformado em que se revelou. Queria que me perdoasse, por ter dadoimportância a coisas tão pequenas, nas quais eu acreditava como verdade suprema.Que me perdoasse por tê-lo sonhado à minha imagem e semelhança e a forçar queele pautasse sua vida, que apenas começava, em convenções inúteis.E, nesse exercício de autoconhecimento, aproveito a oportunidade que osofrimento me deu para dividir com todas as mães do mundo um aprendizado feito aduras penas. E, ainda, tentar responder às eternas questões que atormentam a almafeminina há séculos. Como, por exemplo, a pergunta que tantas e tantas vezes meperseguiu: o que é preciso para que uma mãe aceite ter gerado um anjo rebelde?Mais, ainda, como ter a generosidade suprema de dividi-lo com o resto do mundo?Dividi-lo com pessoas que você nunca viu? Saber que ele corre perigo e já nãoaceita seus velhos conselhos? Queremos que nossos filhos vivam debaixo denossas asas, que pensem como nós, se comportem como nós e, ao crescer, fiquemricos, famosos e felizes para sempre.Um dia pensei ter poderes divinos e que o poder de uma mãe poderiaalcançar a graça suprema de mudar o rumo da história. Acho que João e eu, cegosde esperança, chegamos a acreditar que o patrimônio conseguido ao longo de umavida de luta seria suficiente para salvar nosso filho. Mais do que crenças desabaramquando o desfecho de toda a doença de Cazuza foi um trágico final sem volta, semhipótese alguma de solução. Sua morte modificou de tal maneira minha existênciaque fui me deixando aceitar essa missão que se impôs e me coloca hoje no papel deproteger vidas, poucas que sejam, todas as que eu possa, onde a sombra do hivpositivo ronda perversa nessa guerra fria da luta contra um monstro invisível,palpável, apenas, no corpo que definha à nossa frente, transformando nossaimpotência em quase loucura.E foi quando resolvi dar um basta na importância preconceituosa e pobre deespírito dos segredos, das dissimulações e das mentiras. E imaginei que a trajetóriade Cazuza talvez pudesse ajudar a salvar almas, além de vidas. Decidi que minharelação com ele merecia ser passada a limpo.Decidi seguir o exemplo de meu filho e declarar, contar, revelar, como se omeu pensamento e coração fossem o quintal do mundo, a aldeia global que tantofascinou esse menino tão esperado, cercado de amor demais. Amei meu filho comtoda a força sobrenatural que um sentimento muito forte nos permite. Queria que elefosse o melhor em tudo: o mais bonito, o mais inteligente, o mais bem vestido, omais estudioso e comportado. Lutei muitas vezes com a força de minhas própriasmãos para que ele seguisse as regras que eu – a mãe perfeita – considerava ascertas. E por quê? Cazuza foi criado do jeitinho que ditava a cartilha da minha
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cara , eu quero ganhar esse livro , estou apaixonado por ele antes mesmo de ter lido , tenho 17 anos estou no ensino médio , ficarei grato se eu for presenteado com este livro - e-mail : ewertongreenday@gmail.com