(Versão Preliminar
–
Janeiro
–
2009)
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Sendo assim, pode-se começar. De início, nada mais óbvio do que tentar contextualizar a filosofiapopperiana.
2 A Filosofia da Ciência de Karl Popper
Uma das principais preocupações de Karl Popper foi tentar compreender como o pensamentocientífico evolui e como é possível (se é que é possível) chegar ao conhecimento verdadeiro. É, basicamente,em torno desses temas que a sua
filosofia da ciência
gira.Popper viveu em um período de grande exaltação do chamado
positivismo lógico
, que era omovimento intelectual que supervalorizava a razão e o pensamento científico e empírico em detrimento dasespeculações metafísicas e do conhecimento baseado no senso comum e na mera intuição. Basta dizer quePopper foi contemporâneo do famoso
Círculo de Viena
, grupo informal de pensadores de diversas áreas doconhecimento, capitaneado pelo filósofo e físico alemão
Moritz Schlick
, que costumava se reunirsemanalmente em Viena durante os anos de 1922 a 1936 justamente para debater e propagar esse tipo defilosofia anti-metafísica
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.Popper jamais fez parte do Círculo de Viena, nem sequer foi convidado para qualquer reunião dogrupo, apesar de ser amigo de vários membros. Além disso, nunca assumiu uma vinculação filosófica com asidéias do positivismo lógico. Aliás, ele foi até mesmo considerado por Otto Neurath
como a “oposição oficial”
do Círculo de Viena, pois discordava dos principais pontos sustentados por aquele movimento
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. De fato, épossível encontrar na filosofia popperiana tanto uma defesa da metafísica quanto do senso comum, ainda queele não deixe de reconhecer também os méritos e a utilidade prática do conhecimento científico
stricto sensu
,que transformou em seu principal objeto de estudo e de investigação. Portanto, Popper não pode serconsiderado como
positivista
, pelo menos se o sentido do termo for o mesmo da concepção científica demundo defendida pelo Círculo de Viena.Karl Popper autodenomina a sua escola de
pensamento de “racionalismo crítico”
, cuja tradiçãofilosófica remonta aos primeiros filósofos gregos. É possível notar, por exemplo, uma grande admiração pelahumildade intelectual de
Sócrates (“só sei que nada sei e nem isso eu sei”) e
pela constante curiosidade dos
primeiros “amantes da sabedoria” de desejar descobrir a verdade e conhecer o mundo através da razão.
Comohumanista, Popper acreditava no ser humano enquanto ser dotado de inteligência para tomar decisões comsabedoria e com autonomia, tal como fora defendido, por exemplo, pelo filósofo Immanuel Kant. Desconfiavadaqueles que desconfiavam da razão. Também desconfiava daqueles que não acreditavam na liberdade e nacapacidade do indivíduo de se auto-determinar. Por isso, era contra qualquer opinião que levasse aodeterminismo histórico ou à prevalência do coletivo em detrimento do indivíduo, o que, na sua visão, iriacontra a sua idéia de
sociedade aberta
, uma das maiores conquistas da civilização ocidental. Era um otimistaepistemológico, sem perder o seu ceticismo crítico jamais.
3 A Defesa do Método Científico
Apesar de ser um grande admirador do método científico, Popper tinha plena consciência de que aciência, no fundo, não passa de um modo evoluído do
pensamento mitológico
desenvolvido pela criatividadehumana para tentar explicar os acontecimentos do mundo que nos cerca.O ser humano, como se sabe, sempre almejou entender os fenômenos naturais, no intuito dedescobrir um liame lógico entre as causas e efeitos dos fatos observáveis. Quando não conseguia desenvolver
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As idéias centrais do Círculo de Viena foram resumidas em um célebre texto de 1929 redigido por Hans Hahn, Otto Neurath e Rudolph
Carnap, intitulado “A Concepção Científica do Mundo: o Círculo de Viena” (
Wissenschaftliche Weltauffassung. Der Wiener Kreis
), também
conhecido como “
Manifesto do Círculo de Viena
”.
No âmbito do direito, como se sabe, Hans Kelsen foi o jurista que mais simpatizou com o positivismo lógico defendido pelo Círculo deViena. Mais à frente, serão analisadas as divergências (que são muitas) entre o pensamento kelseniano e o pensamento popperiano.
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POPPER, Karl.
Em Busca de um Mundo Melhor
. 3ª Ed. Lisboa: Fragmentos, 1992, p. 160.
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