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Versão Preliminar 
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janeiro 2009
O Método Popperiano Aplicado ao Direito
Por George Marmelstein,
Doutorando pela Universidade de Coimbra - PortugalMestre em Direito Constitucional pela Universidade Federal do Ceará
 –
BrasilProfessor de Direito ConstitucionalJuiz Federal
“Os nossos
sonhos e esperanças não têm necessariamente de comandar as nossas conclusões.Na procura da verdade, o nosso melhor plano pode ser o de começar por criticar as crenças quemais prezamos. É possível que este pareça a alguns um plano perverso. Mas não o parecerá
àqueles que querem descobrir a verdade e não têm receio dela”.
 Karl Popper
1
 
“Boldness in conjectures on the one hand and austerity in refutations on the other: this isPopper's recipe”.
 Imre Lakatos
2
 
Importante: este texto representa uma versão preliminar de um
 paper 
 a ser apresentado no curso de doutoramento
Direito, Justiça e Cidadania noSéculo XXI
, da Universidade de Coimbra. Disponibilizo-o livremente para queseja objeto de críticas, comentários e sugestões, que podem ser enviadaspara o meu e-mail: georgemlima@yahoo.com.br.
1
POPPER, Karl.
Conjecturas e Refutações
. Coimbra: Almedina, 2006, p. 22.
2
LAKATOS, Irme.
The methodology of scientific research programmes
 –
Philosophical Papers v. 1
. Cambridge: Cambridge Press, 1978, p.
8. Tradução livre: “Ousadias nas conjecturas, de um lado, e austeridade nas refutações do outro lado: eis a
 
receita de Popper”.
 
 
(Versão Preliminar 
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Janeiro
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2009)
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1 Introdução
O pensador austríaco Karl Raimund Popper foi um dos mais conhecidos filósofos da ciência do séculoXX
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. Suas idéias revolucionaram a metodologia científica (ou pelo menos o estudo da metodologia científica),pois permitiram que os cientistas refletissem criticamente sobre suas próprias teorias e, conseqüentemente,aprimorassem suas técnicas de trabalho.As teses principais defendidas por Popper giram em torno das chamadas ciências naturais,especialmente da física. Portanto, ele não citou
nenhum “cientista do direito” (!?) para justificar seus
argumentos, nem fez sugestões metodológicas voltadas especificamente para a atividade jurídica.Apesar disso, é inegável que muitas idéias que ele apresenta podem ser utilizadas também por juristas. Sua metodologia, como ele próprio reconhece, vale, em grande medida, para todas as áreas doconhecimento e não apenas para as ciências exatas. Aliás, em algumas partes de sua obra, Popper costumareforçar seus pontos de vista utilizando metáforas, comparando a atividade dos cientistas com a atividade dos juízes, o que reforça a idéia de que existe uma afinidade estrutural entre o raciocínio científico na descobertada verdade e o raciocínio judicial na busca de soluções justas para o caso concreto.Foi nesse contexto que assumi o desafio de fazer um
approach
entre o direito e a filosofia da ciência,no intuito de tentar trazer as mais importantes idéias epistemológicas e metodológicas desse pensadoraustríaco para o mundo jurídico. Afinal, o que é que os juristas podem aprender com as sugestõesmetodológicas recomendadas por Popper? Como fazer com que o raciocínio jurídico se aproxime, em termosde confiabilidade e de prestígio social, do método científico? Tentar responder a essas indagações é o objetivodeste
 paper 
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.Para começar, nada mais razoável do que resumir os pontos principais defendidos por Popper e, apartir daí, fazer a transposição para o direito daquilo que for compatível com a metodologia jurídica.Tentarei aproveitar aquilo que o pensamento popperiano pode oferecer de útil para a construção deum
método jurídico melhor 
. Adianta-se, desde logo, que, na minha ótica,
método jurídico melhor 
é aquele que,em primeiro lugar, seja ético, democrático e comprometido com os direitos fundamentais. Esse aspectomaterial é básico, e talvez a metodologia científica não ajude muito nesse aspecto (é o direito quem talvezpossa ajudar a delimitar os limites éticos das investigações científicas). Mas para além desse aspecto axiológico,
é preciso que o método jurídico seja mais racional, mais objetivo, mais consistente, mais coerente, maisconvincente e, porque não dizer, mais científico
. E nesse ponto a metodologia popperiana pode contribuirbastante.Evitarei, na medida do possível, adentrar nos meandros do pensamento estritamente político de KarlPopper, pois essa tarefa não me pareceu ser necessária para os fins ora pretendidos. Só se mencionará as suasopiniões ideológicas quando isso for útil à compreensão do método lógico-científico por ele desenvolvido.Também não é minha intenção seguir acriticamente todas as suas idéias, até porque isso seria uma posturanitidamente anti-popperiana. Se há uma importante lição que Popper nos deixou foi a de que devemos sercríticos em relação a tudo. Isso vale, logicamente, para a própria análise do seu ponto de vista. Por isso,tomarei a liberdade de também realizar, em torno de seu pensamento, algumas
conjecturas e refutações
queme pareçam pertinentes para os meus objetivos, tendo, naturalmente, o cuidado de esclarecer cada ponto deatrito, a fim de que se perceba onde nossos pensamentos não coincidem.
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Popper nasceu em Viena, em 28 de julho de 1902 e faleceu na Inglaterra em 17 de setembro de 1994. Suas principais idéias foramdesenvolvidas antes da Segunda Guerra, embora seus livros mais conhecidos somente tenham sido publicados na segunda metade doséculo passado.
4
Obviamente, não se reivindica aqui qualquer pioneirismo ou originalidade nessa tentativa de utilizar as idéias de Popper no direito. Bastadizer, por exemplo, que o jusfilósofo alemão Arthur Kaufmann também aproveita i
númeras propostas popperianas na sua “Filosofia doDireito”, o que apenas reforça meu objetivo principal que é demonstrar as vantagens de se colocar os “óculos popperianos” na
resoluçãode problemas jurídicos.
 
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Sendo assim, pode-se começar. De início, nada mais óbvio do que tentar contextualizar a filosofiapopperiana.
2 A Filosofia da Ciência de Karl Popper
Uma das principais preocupações de Karl Popper foi tentar compreender como o pensamentocientífico evolui e como é possível (se é que é possível) chegar ao conhecimento verdadeiro. É, basicamente,em torno desses temas que a sua
 filosofia da ciência
gira.Popper viveu em um período de grande exaltação do chamado
 positivismo lógico
, que era omovimento intelectual que supervalorizava a razão e o pensamento científico e empírico em detrimento dasespeculações metafísicas e do conhecimento baseado no senso comum e na mera intuição. Basta dizer quePopper foi contemporâneo do famoso
Círculo de Viena
, grupo informal de pensadores de diversas áreas doconhecimento, capitaneado pelo filósofo e físico alemão
Moritz Schlick 
, que costumava se reunirsemanalmente em Viena durante os anos de 1922 a 1936 justamente para debater e propagar esse tipo defilosofia anti-metafísica
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.Popper jamais fez parte do Círculo de Viena, nem sequer foi convidado para qualquer reunião dogrupo, apesar de ser amigo de vários membros. Além disso, nunca assumiu uma vinculação filosófica com asidéias do positivismo lógico. Aliás, ele foi até mesmo considerado por Otto Neurath
como a “oposição oficial”
do Círculo de Viena, pois discordava dos principais pontos sustentados por aquele movimento
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. De fato, épossível encontrar na filosofia popperiana tanto uma defesa da metafísica quanto do senso comum, ainda queele não deixe de reconhecer também os méritos e a utilidade prática do conhecimento científico
stricto sensu
,que transformou em seu principal objeto de estudo e de investigação. Portanto, Popper não pode serconsiderado como
 positivista
, pelo menos se o sentido do termo for o mesmo da concepção científica demundo defendida pelo Círculo de Viena.Karl Popper autodenomina a sua escola de
pensamento de “racionalismo crítico”
, cuja tradiçãofilosófica remonta aos primeiros filósofos gregos. É possível notar, por exemplo, uma grande admiração pelahumildade intelectual de
Sócrates (“só sei que nada sei e nem isso eu sei”) e
pela constante curiosidade dos
primeiros “amantes da sabedoria” de desejar descobrir a verdade e conhecer o mundo através da razão.
Comohumanista, Popper acreditava no ser humano enquanto ser dotado de inteligência para tomar decisões comsabedoria e com autonomia, tal como fora defendido, por exemplo, pelo filósofo Immanuel Kant. Desconfiavadaqueles que desconfiavam da razão. Também desconfiava daqueles que não acreditavam na liberdade e nacapacidade do indivíduo de se auto-determinar. Por isso, era contra qualquer opinião que levasse aodeterminismo histórico ou à prevalência do coletivo em detrimento do indivíduo, o que, na sua visão, iriacontra a sua idéia de
sociedade aberta
, uma das maiores conquistas da civilização ocidental. Era um otimistaepistemológico, sem perder o seu ceticismo crítico jamais.
3 A Defesa do Método Científico
Apesar de ser um grande admirador do método científico, Popper tinha plena consciência de que aciência, no fundo, não passa de um modo evoluído do
 pensamento mitológico
desenvolvido pela criatividadehumana para tentar explicar os acontecimentos do mundo que nos cerca.O ser humano, como se sabe, sempre almejou entender os fenômenos naturais, no intuito dedescobrir um liame lógico entre as causas e efeitos dos fatos observáveis. Quando não conseguia desenvolver
5
As idéias centrais do Círculo de Viena foram resumidas em um célebre texto de 1929 redigido por Hans Hahn, Otto Neurath e Rudolph
Carnap, intitulado “A Concepção Científica do Mundo: o Círculo de Viena” (
Wissenschaftliche Weltauffassung. Der Wiener Kreis
), também
conhecido como “
Manifesto do Círculo de Viena
”.
 No âmbito do direito, como se sabe, Hans Kelsen foi o jurista que mais simpatizou com o positivismo lógico defendido pelo Círculo deViena. Mais à frente, serão analisadas as divergências (que são muitas) entre o pensamento kelseniano e o pensamento popperiano.
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POPPER, Karl.
Em Busca de um Mundo Melhor
. 3ª Ed. Lisboa: Fragmentos, 1992, p. 160.

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