‘Ora, não fique muito triste,’ ela me consolava. ‘Afinal de contas. existe no mundo apenasum punhado de gente que seria capaz de fazer um trabalho de quatro dólares.’E essas palavras, a princípio, eram um consolo. Mas, pouco a pouco, sem que eupercebesse o que estava acontecendo, esse consolo começou a me irritar, fazendo-medecidir que executaria um trabalho de 4 dólares, nem que isso me matasse. No calor deminha decisão, via-me expirando no jardim, com a Condessa curvada sobre mim,estendendo-me os 4 dólares com lágrimas nos olhos, suplicando-me perdão por pensarque eu não era capaz de alcançar aquela marca.Foi no meio de uma dessas visões, numa noite de quinta-feira, quando eu estavatentando esquecer a derrota daquele dia e dormir um pouco, que a verdade me atingiucomo um raio, fazendo-me sentar na cama, quase sufocado pela emoção. Era o trabalhode 5 dólares que eu precisava realizar, não o de 4! Eu tinha de fazer o trabalho queninguém mais conseguiria, por ser impossível! Tinha plena consciência das dificuldades que me esperavam. Havia o problema, porexemplo, dos ninhos de minhoca, na terra. Talvez a Condessa nem os tivesse notado, poiseram muito pequenos. Mas, com os pés descalços, eu sabia a respeito deles, e precisavadar um jeito. E poderia continuar a aparar os canteiros com a tesoura, mas sabia que umtrabalho de 5 dólares exigia que eu marcasse as bordas dos canteiros com uma linhaesticada entre duas pedras, para cortar com exatidão, em linha reta. E havia outrosproblemas que apenas meus pés e eu conhecíamos.Iniciei na quinta-feira seguinte, passando um rolo pesado sobre os ninhos de minhocas.Após duas horas fazendo isso, já estava pronto para terminar meu dia! Eram apenas novehoras da manhã, e minha força de vontade já estava desaparecendo! Foi por acaso quedescobri como reconquistá-la. Sentado debaixo de uma nogueira, para descansar algunsminutos, caí no sono. Quando acordei, instantes mais tarde, o jardim pareceu tão bonito ameus olhos descansados, e a terra tão gostosa debaixo de meus pés, que desejeiardentemente continuar o trabalho.Segui esta fórmula secreta durante todo o dia, cochilando por alguns minutos no final decada hora de trabalho, para renovar minha perspectiva e minhas energias. Entre cochilos,passei o cortador de grama quatro vezes, duas no sentido do comprimento e duas nosentido da largura, até que o gramado ficou parecendo um tabuleiro de xadrez, feito develudo.Depois, cavei ao redor de cada uma das árvores, retirando os pedaços duros de terra edesmanchando-os com as mãos, para depois passar o aparador, de forma regular esimétrica. Em seguida, cortei a grama que crescia entre as lajes que compunham ocaminho principal.Fiquei com as mãos feridas de segurar a tesoura, mas o caminho nunca pareceu tãobonito. Finalmente, lá pelas oito horas da noite (...) tudo estava terminado. Estava tãoorgulhoso, que nem me sentia cansado, quando bati à porta.‘Bem, como foi hoje?’ ela perguntou.‘Cinco dólares,’ respondi, tentando manter-me calmo e frio.‘Cinco dólares? Você quer dizer, quatro, não é? Eu lhe disse que um trabalho de cincodólares era impossível.’‘Não, não é. Acabei que realizá-lo.’‘Bem, meu jovem, o primeiro jardim de 5 dólares da história, certamente merece umaobservação cuidadosa.’Caminhamos pelo jardim juntos, à última luz da tarde, e até mesmo eu estava duvidandoda possibilidade de fazer o que havia feito.‘Meu jovem,’ disse ela, colocando a mão no meu ombro, ‘o que foi que o levou a fazeruma coisa tão louca e maravilhosa?’Eu não sabia o que fora, mas, mesmo que soubesse, não poderia ter explicado, em meioao entusiasmo de ouvi-la dizer que eu havia feito.‘Acho que sei,’ continuou ela, ‘como você se sentiu, quando teve a idéia de realizar umtrabalho que eu lhe dissera ser impossível. A princípio ficou muito feliz, e depois umpouco amedrontado. Não é verdade?’Ela percebeu que estava certa, pela surpresa em meu rosto.‘Eu sei como se sentiu, porque a mesma coisa acontece com quase todo mundo. Aspessoas sentem este impulso de realizar uma grande coisa. Sentem uma enormefelicidade, mas esse sentimento passa, porque elas dizem: “Não, não vou conseguir.
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