3
COLABORAÇÃO
Tribuna da Saudade
Ferreira Moreno
P
’ra quem lê habitual-mente as crónicas quevou rabiscando, não énovidade o empenho daminha parte em citar as fontes deinformação, sempre que a opor-tunidade favorece a transcriçãoadequada. No entanto, uma vez por outra, o diabo passa-me umaendiabrada rasteira, como acon-teceu recentemente na crónica“Combate no Alto Mar”.Ao tempo escrevi que ao navioinglês “Jonquil”, adquirido pelaEmpresa Insulana de Navegação,fôra atribuído o nome de “Car-valho Araújo”. A notícia é au-téntica e em conformidade coma lacónica informação fornecida por James Guill (1924-2004), queconheci em vida. Apenas falhei,despercebidamente, em apontar o nome do livro (Azores Islands,A History), o número da página(507) e o ano da edição (1933).Embora, como adiante explica-rei, seja outra a origem do paque-te Carvalho Araújo, destinado aotransporte de passageiros e cargaentre o Continente e Ilhas Atlân-ticas, tenciono transcrever, aqui eagora, os resultados das minhas pesquisas àcerca do Jonquil, queem português dir-se-ia junqui-lho. No espaço OLDSHIPS.ORG.UK está evidenciada a existência dumsloop (aviso ou corveta), de na-cionalidade inglesa com o nomeJonquil. Foi lançado ao mar emDezembro de 1915 e vendido àMarinha Portuguesa em Maio de1920, tomando o nome de Carva-lho Araújo, e acabando por ser desmantelado em 1959. Na pági-na 118 do livro “30 Anos de Es-tado Novo”, publicado em 1957,o Carvalho Araújo encontra-se
classicado na categoria de naviohidrográco (survey ship, em in
-glês).A este respeito escreveu-me o dr.Mayone Dias: “Creio que foi comcerto optimismo que a Marinha
de Guerra Portuguesa o classi
-cou como cruzador. De qualquer modo, não me parece que o Jon-quil pudesse ter sido transforma-do num paquete com lotação p’ra354 passageiros. Admitamos poisque o Jonquil nasceu e morreucomo navio de guerra”.Uma outra corveta inglesa“H.M.S. Jonquil K68” foi lança-da ao mar em Setembro de 1940,vendida em Maio de 1946, rebap-tizada sucessivamente com osnomes de Lemnos e de Olympic
Rider (1951), cando perdida em
Janeiro de 1955. Numa informação que me foitransmitida por José do CoutoRodrigues, (Portuguese HeritagePublications of California), o pa-quete Carvalho Araújo teria sidomandado construir em 1930 pelaEmpresa Insulana de Navegaçãonos estaleiros de Monfalcone,Itália. Não pretendo suscitar controvér-sia, mas recordo-me de ter lidoalgures que as máquinas, caldei-ras e respectivas fornalhas, foramconstruídas em 1929 na Escócia.Escrevendo de Lisboa p’ró quin-zenário “Correio do Norte”(Capelas, S. Miguel, 15 de No-vembro, 2008), Luís Machado brindou-nos com uma apresenta-ção mais desenvolvida e autori-zada àcerca da história associadacom o paquete Carvalho Araújo.Eis a transcrição:“O navio da E.I.N. que foi nomea-do de “Carvalho Araújo”, em ho-
menagem ao mesmo ocial e que
vem referenciado nas gravurasilustrativas do artigo (Combateno Alto Mar), não proveio donavio inglês Jonquil. Na reali-dade, o navio Carvalho Araújofoi encomendado pela E.I.N. aoestaleiro italiano Cantieri Nava-li Triestino e lançado à água em17 de Dezembro, 1929, chegou aLisboa vindo do estaleiro em 19de Março, 1930, e partiu de Lis- boa p’rà sua viagem inaugural nalinha da Madeira e Açores a 23d’Abril do mesmo ano.Este navio manteve-se ao serviçodo mesmo armador e na mesmalinha até que foi desarmado em8 de Janeiro, 1971, fazendo os portos de todas as ilhas, quandoo tempo o permitia, incansavel-mente a transportar pessoas e bens, a ligar os Açores ao Con-tinente, e quebrar mensalmente oisolamento, a proporcionar ofestejado dia de São Vapor.
Na fase nal da sua longa vida,
ainda fez diversas viagens a trans- portar tropas p’rà Guiné, quandoas linhas aéreas já o tinham feitodispensável. De 1971 a 1973 per-maneceu desarmado e atracadoem Lisboa, sem préstimo. Em1972 mudaram-lhe o nome p’raMarcéu, porque o armador ad-quiriu um cargueiro a que quisatribuir a honra de homena-gear Carvalho Araújo. A 20d’Outubro, 1973, saiu de Lisboa,a reboque, p’ra ir morrer em Es- panha (Aviles), desmantelado por um sucateiro espanhol”.Confesso que não consegui en-contrar em parte alguma a cópiado livro “Paquetes Portugueses”de Luís Miguel Correia. Igual-mente, quer na colectânea perten-cente à biblioteca da U.P.E.C. emSan Leandro, quer entre os núme-ros avulsos de que disponho, nãoencontrei o referido exemplar darevista “Atlântida” com o artigo“A Insulana e a sua frota”.A fechar, só me resta registar um reconhecido e entusiásticoobrigado ao Luís Machado, nãosó pela gentileza que dispensouà leitura da minha crónica, massobretudo pelo cuidado que em- pregou em arrecadar tantas e tão preciosas informações a respeitodas origens e dos tempos do pa-quete Carvalho Araújo.Quando eu era barco novo,Ganhava muito dinheiro;Agora que já sou velho,Estou posto no estaleiro.Eu nasci no alto mar E nele fui embalado;Com um beijo duma vaga
Logo quei baptizado.
A bordo do Carvalho Araujo