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Comentários sobre Os Lusíadas por Francisco Achcar

Comentários sobre Os Lusíadas por Francisco Achcar

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06/03/2013

 
 Estudo de
Os Lusíadas
(1572)
Orientado por Francisco Achcar (USP - Universidade de São Paulo)
CAMÕES E O CLASSICISMO PORTUGUÊS
O Renascimento literário atingiu seu ápice, em Portugal, durante o períodoconhecido como Classicismo, entre 1527 e 1580. O marco de seu início é oretorno a Portugal do poeta Sá de Miranda, que passara anos estudando naItália, de onde traz as inovações dos poetas do Renascimento italiano, como overso decassílabo e as posturas amorosas do
doce stil nouvo
. Mas foi Luís deCaes, cuja vida se estende exatamente durante este peodo, quemaperfeiçoou, na língua portuguesa, as novas técnicas poéticas, criando poemas líricos que rivalizamem perfeição formal com os de Petrarca e um poema épico, Os Lusíadas, que, à imitação deHomero e Virgílio, traduz em verso toda a história do povo português e suas grandes conquistas,tomando, como motivo central, a descoberta do caminho marítimo para as Índias por Vasco daGama em 1497/99. Para cantar a história do povo português, em
Os Lusíadas
, Camões foi buscar naantigüidade clássica a forma adequada: o poema épico, gênero poético narrativo e grandiloqüente,desenvolvido pelos poetas da antigüidade para cantar a história de todo um povo.
 A Ilíada
e a
Odisséia
, atribuídas a Homero (Século VIII a. C.), através da narração de episódios da Guerra deTróia, contam as lendas e a história heróica do povo grego. Já a
 Eneida
, de Virgílio (71 a 19 a.C.),através das aventuras do herói Enéas, apresenta a história da fundação de Roma e as origens do povo romano. Ao compor o maior monumento poético da língua portuguesa,
Os Lusíadas
, publicado em 1572, Camões copia a estrutura narrativa da
Odisséia
de Homero, assim como versosda
 Eneida
de Virgílio. Utiliza a estrofação em
Oitava Rima
, inventada pelo italiano Ariosto, queconsiste em estrofes de oito versos, rimadas sempre da mesma forma:
abababcc
. A epopéia secompõe de
1102
dessas estrofes, ou
8816
versos, todos
decassílabos
, divididos em
10
cantos.
1. Três planos narrativos (planos temáticos)
1
 
Em
Os Lusíadas
, três histórias, ou planos narrativos, se superpõem e se imbricam:1.a história da viagem de Vasco da Gama e seus marinheiros à Índia;2.a história de Portugal, chegando até a época da viagem e antecipando acontecimentos posteriores a ela;3.a história dos deuses que, como forças do destino, tramam e destramam a sorte daqueles bravos portugueses que enfrentam perigos e inimigos desconhecidos para ampliar asfronteiras de seu reino e de sua religião
2. Divisão da obra (estrutura interna)
O poema se organiza tradicionalmente em cinco partes:
1.
Proposição
(Canto I, Estrofes 1 a 3)Apresentação da matéria a ser cantada: os feitos dos navegadores portugueses, em especial os daesquadra de Vasco da Gama e a história do povo português.
2.
Invocação
(Canto I, Estrofes 4 e 5)O poeta invoca o auxílio das musas do rio Tejo, as Tágides, que irão inspirá-lo na composição daobra.
3.
Dedicatória
(Canto I, Estrofes 6 a 18)O poema é dedicado ao rei Dom Sebastião, visto como a esperança de propagação da fé católica econtinuação das grandes conquistas portuguesas por todo o mundo.
4.
Narração
(Canto I, Estrofe 19 a Canto X, Estrofe 144)A matéria do poema em si. A viagem de Vasco da Gama e as glórias da história heróica portuguesa.
5.
Epílogo
(Canto X, Estrofes 145 a 156)Grande lamento do poeta, que reclama o fato de sua “voz rouca” não ser ouvida com mais atenção.
3. Função dos deuses
Para o poeta, qual o mais elevado objetivo do corajoso empreendimento português? Tal objetivo serio o de, a um tempo, alargar as fronteiras da fécatólica e ampliar o poderio da civilização da Europa, representada pelo ImpérioPortuguês. Os navegadores lusitanos estariam, pois, a serviço da Religião e doRei de Portugal, país que, como fica claro no início do Canto VII, representaria,solitário, a vanguarda de um grande movimento de expansão do Cristianismo,fazendo frente aos "infiéis" muçulmanos, quando outras potências européias se perdiam em guerras de cristão contra cristão.Sendo assim, é no mínimo estranho que deuses "pagãos", como Vênus eMarte, se associem aos portugueses para fazer triunfar a fé católica. Diversoscríticos literários tentaram resolver o problema, alegando que os deuses seriammero recurso de ornamentação do poema e que, utilizando-os em sua intriga, o poeta estaria apenas adotando uma prática antiga do gênero épico.Ocorre, porém, que os deuses, como demosntra António José Saraiva (19-), estão longe de poder ser tomados como elementos de ornamentação. De fato, eles são essenciais em
Os Lusíadas
,assim como o eram nos poemas de Homero e Virgílio. Diante da palidez e da inexpressividadeextrema de Vasco da Gama, que deveria ser o herói do poema e não passa de um boneco de gestosrígidos, hieráticos, que não age, só posa; diante das apagadas figuras dos companheiros de Gama naviagem, dos quais não se destaca nenhum verdadeiramente dotado de vida, capaz de
ação ficcional
(isto é, de ação verossímil e conseqüente na intriga do poema); diante dos perfis rápidos das figurashistóricas apresentadas, entre talvez só a de Inês de Castro se destaque com mais relevo; diantedesse panorama de personagens
 fracas
, estereotipadas, incapazes de surpresa e vida própria, os
2
 
deuses avultam como as verdadeiras personagens, as personagens
 fortes
do poema, aquelas que sãoarrastadas pelas paixões em que se envolvem e envolvem o leitor. Os deuses é que overdadeiramente interessantes, com seus amores e ódios, seus ciúmes, suas fraquezas, num quadroem que os presumidos "heróis" são indefectíveis amostras de virtude. Assim, longe de ornamentais,os deuses são centrais e estruturais, ou seja, sem eles a ação do poema perderia a sua mola e oelenco de personagens ficaria sem suas melhores figuras.
4. Ideologia (Cristianismo, Imperialismo, Humanismo)
Outra contradição que se pode apontar na obra consiste no fato de Camões celebrar os feitosguerreiros, conclamando D. Sebastião, no início (na dedicatória) e no fim (epílogo) do poema,empreendendo uma grandiosa guerra. No entanto, ele é humanista e seu porma resulta, basicamente,de sua formação, sua cultura e seus ideais humanísticos. Sabe-se que o Humanismo, por princípio,se opunha à guerra. Camões, porém, justifica seu empenho bélico com razões ao mesmo tempohumanísticas e religiosas: a grande meta seria ampliar o domínio da civilização ocidental (idealhumanístico) e da religião crsitã (ideal das Cruzadas) por todo o universo, levando às mais remotasterras, não a morte, mas a superação dela, graças à imortalidade da alma prometida por Cristo e seusseguidores.
Vós, portugueses, poucos quanto fortes,Que o fraco poder vosso não pesais;Vós, que à custa de vossas várias mortes, A lei da vida eterna dilatais...(VII 3)
Tratava-se de estender os limites do Cristianismo e da civilização ocidental, sob o domíniodo rei de Portugal; portanto, um triplo e concomitante objetivo: religioso, humanístico e nacional(imperial). Nesse contexto é que se justifica a guerra.
5. Monumento literário e lingüístico
Do ponto de vista artístico,
Os Lusíadas
constituem um dos maiores êxitos da literatura deinspiração clássica do século XVI, pois o poeta conseguiu dar nova vida a um gênero que pareciamorto e que nunca mais reviveu depois da realização camoniana. O verso utilizado por Camõescorresponde à chamada "medida nova", introduzida em Portugal por de Miranda: é o
decassílabo clássico
, que pode ser 
heróico
, quando os acentos predominantes incidem na
sexta
e
décima
sílabas (caso da quase totalidade dos versos do poema), ou
 sáfico
, quando os acentosrecaem na
quarta, oitava e décima
(ou simplesmente na quarta e décima) sílabas:
 As-ar-mas-e-os-ba-RÕES-a-ssi-na-LA(dos)
(I 1)610
 Es-pe-ra-um-COR-po-de-quem-LE-vas-A AL(ma)
(IX 76)4 8 10A estrofe (ou estância) utilizada no poema é a oitava-rima (ou oitava real), conjunto de oitoversos em que os seis primeiros têm duas rimas (A e B), dispostas alternadamente (ABABAB), e osdois últimos são emparelhados por uma terceira rima (C):
 No mais interno fundo das profUNDASACavernas altas, onde o mar se escONDE, B Lá, donde as ondas saem furibUNDAS, A
3

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