semideuses que falam de deuses e de outros semideuses. Foi assim nos primórdios datragédia grega. Para o assunto que aqui desenvolvo, não interessam as lucubrações deNIETZSCHE sobre o sucesso estético da feliz combinação dos dois princípiosestruturantes e originários da tragédia, o
espírito
apolíneo e o
instinto
dionisíaco.Somente interessa saber onde vai ele descortinar razões para explicar o quesubjectivamente percepciona como morte daquela arte. Pois bem ! O declínio terácomeçado quando o poeta EURÍPEDES decidiu, nas suas obras, trocar o céu pela terra,as peripécias fatídicas de heróis sobre-humanos pela epopeia vital de gente comum.Para o dizer no mesmo jogo de linguagem de ORTEGA Y GASSET, a causa letalapontada por NIETZSCHE consiste justamente na
humanização da arte
. Escreve ofilósofo alemão: “Quem reconheceu de que substância, antes de Eurípedes, eramformados os heróis dos trágicos prometeicos, e quanto estes estavam longe de quererapresentar no palco qualquer máscara fiel da realidade, compreenderá agora tambémnitidamente a absoluta divergência das tendências de Eurípedes. Devido a este, ohomem comum deixou o banco dos espectadores e subiu ao palco; o espelho, queoutrora reflectia só nobres e altivas feições, passou a representar com exactidão servil ea reproduzir com minúcia todas as disformidades da natureza ... o espectador via e ouviao seu próprio duplo nas cenas de Eurípedes e rejubilava sinceramente com a sagacidadedemonstrada pelo seu sósia nos vários discursos” (1982, 90).NIETZSCHE não verbera apenas banalização social das personagens, aocupação do espaço cénico por figuras da vida quotidiana; a sua ira vai sobretudo contraa exoneração dos deuses e heróis, obrigados a ceder o protagonismo a parceiros de cenamenos nobres. Seja dado o exemplo de JASÃO na
Medeia
. Este herói lendário tornou-se um pusilânime calculista que abandonou a mulher que lhe salvara a vida, e de quemtinha dois filhos, para casar por interesse com CREUSA, filha de CREONTE, rei deCorinto. Em contraste, emerge como verdadeira heroína MEDEIA, a mulher traída, que,cega pelo ciúme, vai ao ponto de sacrificar a vida dos próprios filhos para saciar o seuirreprimível desejo de vingança. Paixões humanas, sem dúvida; e, no entanto, nada queconstituísse novidade face à tradição das velhas teogonias e tragédias. O que, paraNIETZSCHE, era insuportavelmente humano, demasiado humano, não era o escândaloda violência e do infanticídio (factos amorais na óptica do esteta), mas sim a mudançade valores sociais e culturais que a peça espelhava e promovia. A ordem dos senhoresestava a ser subvertida pela autoconsciência dos escravos insubmissos. MEDEIArepresenta no palco o despertar social da autoconsciência da condição feminina: “De
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