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SÓCRATES: a humanização da política
F. Cabral Pinto
Em 2003 foi editada uma tradução portuguesa do opúsculo de ORTEGA YGASSET intitulado “A desumanização da Arte”. O original veio pela primeira vez à luzdo dia em 1925. No pressuposto de que os editores, em regra, só publicam o que évendável, é de presumir que o conteúdo do texto em referência não perdeu actualidade.Trata-se de uma posição, de uma tese filosófica sobre a arte. Talvez ALTHUSSER,quando o “cachorro do estruturalismo [lhe] passou entre as pernas” tivesse alguma razãoao afirmar – filosoficamente – que as questões da filosofia são imunes à história e, porisso, em nenhum tempo ficam definitivamente decididas. A tese de que se trata poderesumir-se em poucos enunciados: 1. a arte é por essência antipopular (sublinhe-se: nãosimplesmente impopular, mas
antipopular 
); 2. a arte divide a sociedade em duasvariedades distintas da espécie humana: uma elite de homens estéticos (uma“aristocracia instintiva”), de um lado, e uma multidão de gente vulgar (a “massa”popular), do outro; 3. a arte é indiferente aos problemas da vida humana; nada do que éhumano lhe interessa.Em rigor, estes enunciados são mais prescritivos do que descritivos.Apresentam-se como orientações de acção estratégica para a resistência das “minoriasselectas” contra a
rebelião das massas
. ORTEGA Y GASSET intitula assim ofenómeno que outros interpretam como democratização, a saber, a crescente invasãodos espaços públicos por pessoas anónimas: “Agora, de repente, aparecem sob a espéciede aglomeração e os nossos olhos vêem por toda a parte multidões. Por toda a parte ?Não, não; precisamente nos lugares melhores, criação realmente refinada da culturahumana, reservados antes a grupos menores, em definitivo, a minorias” (1959, 57).Dantes, o povo excluía-se dos prazeres de carácter artístico e luxuoso e abstinha-se de juízos sobre as questões do governo. As actividades relevantes eram naturalmenteentregues à competência inquestionável de minorias qualificadas. “A massa – observaORTEGA Y GASSET – não pretendia intervir nelas ... Conhecia o seu papel numasaudável dinâmica social” (1959, 60-1). Agora é totalmente diferente: “resolveu avançarpara o primeiro plano social e ocupar os locais, usar os utensílios e gozar dos prazeres
 
antes adscritos a poucos ... Hoje assistimos ao triunfo de uma hiperdemocracia...Vivemos sob o brutal império das massas” (1959, 61 e 63).Mas o filósofo espanhol não se limita a constatar e a lamentar estes sinais dotempo: ele exorta a uma contra-rebelião das elites. E, embora o diagnóstico que faz dacontemporaneidade seja pessimista, é com optimismo que encara o futuro, profetizandouma nova hegemonia aristocrática e o consequente fim da nivelação social: “Aproxima-se o tempo em que a sociedade, da política à arte, se voltará a organizar, como é devido,em duas ordens ou condições: a dos homens ilustres e a dos homens vulgares. Todo omal-estar da Europa acabará por desembocar e sarar nesta nova cisão salvadora” (2003,42). A cultura será o factor determinante desta cisão. Para que a sociedade seja re-aristocratizada é necessários que as expressões culturais sejam aversivas à multidão.É assim que os enunciados de ORTEGA Y GASSET sobre a arte se tornamprescritivos: a arte, em si mesma, não é antipopular, mas os artistas devem esforçar-separa que ela o seja. O objectivo é reduzir o povo à sua insignificância social, ter sobreele o efeito de o obrigar a reconhecer-se como aquilo que é: “simples povo” e “matériainerte do processo histórico”. Concomitantemente, a arte deve contribuir “para que os‘melhores’ se conheçam e reconheçam entre o cinzento da multidão e descubram a suamissão que consiste em serem poucos e em terem que combater contra muitos” (2003,41-2). Como é isso possível ? Segundo o filósofo, bastará prosseguir a tendência para adesumanização iniciada pela arte nova. “Esta tendência levará a uma eliminaçãoprogressiva dos elementos humanos, demasiado humanos, que dominavam a produçãoromântica e naturalista”. Nesta perspectiva, a arte do futuro deverá cortar todos os seuslaços com o mundo não metafísico da vida comum, excluindo de si temas, personagense estilos que possam ser atractivos para a sensibilidade de um público popular. “Seráuma arte para artistas e não para a massa dos homens; será uma arte de casta e nãodemótica” (2003, 45).É demasiado evidente para que valha a pena sequer referi-lo o facto de que sãoas diatribes demofóbicas de NIETZSCHE que alimentam esta mundividência elitista deORTEGA Y GASSET. A
rebelião das massas
é manifestamente um eco da
rebeliãodos escravos
que, segundo o filósofo alemão, estaria a transformar o europeu numa“espécie diminuída, quase ridícula, um animal de rebanho, dócil, doentio e medíocre...”. Concretamente, no que respeita à
desumanização da arte
, ela tem a sua matrizideológica na
origem da tragédia
onde o jovem NIETZSCHE, apóstolo de Diónisos,proclama a condição antimoral e inumana da verdadeira obra artística. Os artistas são
 
semideuses que falam de deuses e de outros semideuses. Foi assim nos primórdios datragédia grega. Para o assunto que aqui desenvolvo, não interessam as lucubrações deNIETZSCHE sobre o sucesso estético da feliz combinação dos dois princípiosestruturantes e originários da tragédia, o
espírito
apolíneo e o
instinto
dionisíaco.Somente interessa saber onde vai ele descortinar razões para explicar o quesubjectivamente percepciona como morte daquela arte. Pois bem ! O declínio terácomeçado quando o poeta EURÍPEDES decidiu, nas suas obras, trocar o céu pela terra,as peripécias fatídicas de heróis sobre-humanos pela epopeia vital de gente comum.Para o dizer no mesmo jogo de linguagem de ORTEGA Y GASSET, a causa letalapontada por NIETZSCHE consiste justamente na
humanização da arte
. Escreve ofilósofo alemão: “Quem reconheceu de que substância, antes de Eurípedes, eramformados os heróis dos trágicos prometeicos, e quanto estes estavam longe de quererapresentar no palco qualquer máscara fiel da realidade, compreenderá agora tambémnitidamente a absoluta divergência das tendências de Eurípedes. Devido a este, ohomem comum deixou o banco dos espectadores e subiu ao palco; o espelho, queoutrora reflectia só nobres e altivas feições, passou a representar com exactidão servil ea reproduzir com minúcia todas as disformidades da natureza ... o espectador via e ouviao seu próprio duplo nas cenas de Eurípedes e rejubilava sinceramente com a sagacidadedemonstrada pelo seu sósia nos vários discursos” (1982, 90).NIETZSCHE não verbera apenas banalização social das personagens, aocupação do espaço cénico por figuras da vida quotidiana; a sua ira vai sobretudo contraa exoneração dos deuses e heróis, obrigados a ceder o protagonismo a parceiros de cenamenos nobres. Seja dado o exemplo de JASÃO na
 Medeia
. Este herói lendário tornou-se um pusilânime calculista que abandonou a mulher que lhe salvara a vida, e de quemtinha dois filhos, para casar por interesse com CREUSA, filha de CREONTE, rei deCorinto. Em contraste, emerge como verdadeira heroína MEDEIA, a mulher traída, que,cega pelo ciúme, vai ao ponto de sacrificar a vida dos próprios filhos para saciar o seuirreprimível desejo de vingança. Paixões humanas, sem dúvida; e, no entanto, nada queconstituísse novidade face à tradição das velhas teogonias e tragédias. O que, paraNIETZSCHE, era insuportavelmente humano, demasiado humano, não era o escândaloda violência e do infanticídio (factos amorais na óptica do esteta), mas sim a mudançade valores sociais e culturais que a peça espelhava e promovia. A ordem dos senhoresestava a ser subvertida pela autoconsciência dos escravos insubmissos. MEDEIArepresenta no palco o despertar social da autoconsciência da condição feminina: “De
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