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Para uma revolução epistemológica dos estudos indológicos

Para uma revolução epistemológica dos estudos indológicos

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Article published by REVISTA LUSÓFONA DE CIÊNCIA DAS RELIGIÕES – Ano V, 2006 / n. 9/10 – 227-237
Article published by REVISTA LUSÓFONA DE CIÊNCIA DAS RELIGIÕES – Ano V, 2006 / n. 9/10 – 227-237

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Categories:Types, Research, History
Published by: José Carlos Calazans on Feb 03, 2009
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 A crise científica está profundamente ligada aomecanismo social, políticoe económico que tende adeterminar o naturaldesenvolvimento dasciências e disciplinascorrelativas. Ora, oconhecimento científicodistingue-se da ideologia,que deforma o princípio e arealidade dos factoscientíficos; quando aideologia se apropria daciência, a ponto de adeformar, o movimentonatural imanente dodesenvolvimento da própria ciência, leva àconsequente
ruptura doparadigma
. Os momentosde crise surgem, portanto,quando os métodos detrabalho ou as teorias, nãosatisfazem mais asexigências do própriodesenvolvimento.
 José Carlos Calazans
Centro de Estudosem Ciência das Religiõese Bolseiro da Fundação para aCiência e Tecnologia
 ARTIGOS
Para uma revoluçãoepistemológicados estudos indológicos
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– Ano V, 2006 / n. 9/10 – 227-237
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maioria dos historiadores da História da Índia, indó-logos e filologistas do Indo-europeu do século dezanove,adoptaram três postulados falaciosos (evidência lin-guística, teoria ariana invasionista e cronologia bíblica),a partir dos quais determinaram com imprecisão posi-tivista alguns estudos indológicos e a cronologia da His-tória da Índia Pré-clássica. Infelizmente, alguns historia-dores contemporâneos continuam a seguir os mesmospostulados, sem se terem apercebido que novas cronolo-gias (corrigidas), novos dados arqueológicos e novas in-terpretações e traduções dos textos clássicos, têm abertonovos horizontes e esclarecido uma parte considerávelda História da Índia Pré-clássica. Este período histórico,tinha permanecido obscuro nos manuais da história e dalinguística, enquanto as culturas do Oriente Médio des-de finais do século dezanove, já apresentavam quadrosclaros de classificação.O resultado desta errada atitude metodológica notrabalho de investigação científica em História, levaramaqueles investigadores a excluírem alguns dos elemen-tos mais importantes de todo o processo evolutivo dopensamento pré-clássico indiano. A astronomia e a ne-cessidade de cálculo matemático foram justamente doisdesses elementos, utilizados para resolver os problemasbásicos da sobrevivência das populações, ligados à con-strução do espaço urbano, religioso e astronómico.O que se pretendeu rejeitar como não sendo provaevidente e não relevante, para os filologistas e linguistas
 
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do Indo-Europeu (Indo-Ariano), é precisamente o que representa o centro das atençõesde todo o ritual védico: a preocupação de medir o tempo de tal forma precisa, que nãohaja nenhuma falha nos rituais ao longo do ano.A medição do tempo religioso foi coincidente com a do tempo astronómico sideral.Sem ela, todo o ritual e toda a cosmogonia não teriam nenhum sentido; sem ela, nãoteria feito sentido manter a tradição (oral) e registar no período fonético (utilizando umnovo alfabeto, o
devanâgarî 
), um ritmo de tempo determinado por configurações úni-cas e irrepetíveis.O período védico e pós-védico refere-se, portanto, a um período astronómico per-feitamente identificável, que coincide com as referências feitas no
R. gveda
. É legítimo,portanto, classificar-se o Sânscrito-Védico, que preferimos designar por
¯
ars´am
?, comoo monumento linguístico Indo-Ariano mais antigo que se conhece.Exceptuando a exagerada extrapolação astronómica de Tilak (1893) sobre a origemárctica dos Arianos, deve-se prestar a devida homenagem ao esforço de investigaçãorealizada por Hermann Jacobi (1894), P. C. Sengupta (1938, 1941) e A. Seidenberg(1962, 1978). Os seus cálculos e investigações estavam basicamente correctos, mas assuas teses não fizeram eco entre sanscritólogos e historiadores, durante o seu tempode vida.A tese romântica de uma invasão Ariana na Índia (que os historiadores positivis-tas tradicionais defendiam e ainda hoje se mantêm), não podia tolerar a vetusta anti-guidade dos Vedas, provada pela informação astronómica neles contida. De facto, nosVedas não se encontra uma única referência a invasão, nem aí consta nenhuma descri-ção geográfica que possa ser identificável com a Ásia central, com os Balcãs ou com aAnatólia.Apesar do respeito que merecem os sanscritólogos, indólogos e historiadores tra-dicionais da Índia, que ainda seguem a cronologia bíblica proposta por Max Müllercomo base para a datação do
R. gveda
, deve-se dizer, que excluíram dos seus instru-mentos de auxílio metodológico, precisamente o que a Antiguidade Pré-Clássica india-na considerou de maior importância: a astronomia e a matemática.Ao terem excluído estas ciências da sua metodologia de trabalho científico, re-duziram a investigação a uma leitura deficiente dos textos em Védico. Durante o pe-ríodo em que viveu Max Müller, a arqueologia era tão deficiente que ninguém pode-ria advinhar, que algum dia ela vira a ser um instrumento útil da História e daAntropologia e mais tarde tornar-se ela mesma uma ciência independente. O que di-riam Max Müller, Monier-Williams, A. A. Macdonell, A. B. Keith, J. Eggeling e W. D.Whitney (só para mencionar os mais conhecidos), se tivessem tido acesso às dataçõesfornecidas por
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C sobre o espólio arqueológico da cultura Harappâ? — não mencio-nando outros métodos como a termoluminescência,
 fission track dating
,
obsidian hydra-tion
, dendrocronologia e
archaeomagnetic dating
.Esta falha é desculpável para quem viveu no século dezanove ou até mesmo noinício do século XX, porém, Hermann Jacobi (1894) e P. C. Sengupta (1938, 1941), quetambém viveram neste período, não foram da mesma opinião quanto ás possíveiscronologias detectadas a partir de referências nos hinos védicos. Estes dois investi-gadores partiram de um exaustivo estudo, que teve como referência fundamental, ainformação astronómica contida nos textos védicos.A última grande contribuição científica para a correcção deste erro metodológico
 
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STUDOS
NDOLÓGICOS
no trabalho científico em história, foi sem dúvida a investigação realizada pelo grandehistoriador da ciência A. Seidenberg (1962, 1978). Não é a primeira vez nem será a úl-tima, que as ciências como a matemática, a física e a astronomia, concorrem para a cor-recção de desvios na metodologia de trabalho em outras ciências auxiliares. Este pro-cesso é bem conhecido na evolução das ciências, e sempre que se chega a um impassecientífico (
crise do paradigma
), é certo que os sintomas indicam um momento de
revoluçãoepistemológica
e de
revolução científica
.A revolução na ciência histórica é um facto conhecido, detectado e necessário. Temocorrido sempre que se dão fenómenos de crise científica, porém, esta revolução nãoocorre simultaneamente em todas as ciências, dependendo unicamente da dinâmicainterna e da capacidade que cada disciplina têm para se adaptar ás novas exigênciasrequeridas.O modelo de autenticidade científica actual, atravessa uma profunda crise doparadigma dominante originado pelo racionalismo, que no caso da Indologia começoucom Max Müller, A. B. Keith, J. Eggeling, W. D. Whitney, A. A. Macdonell e outros. Aruptura pela qual estamos a passar, iniciou-se com Einstein e com a mecânica quân-tica, mostrando que não só a relatividade do conhecimento está relacionada com a de-scontinuidade da matéria, como é possível ocorrerem vários acontecimentos no mesmotempo e no mesmo lugar em total simultaneidade com outros ocorridos à distância(
relatividade da simultaneidade
).Ora, para os filólogos e historiadores da Índia do século dezanove, era impossívelimaginar sequer a possibilidade de outras civilizações terem atingido um ponto tão altona sua evolução, como as civilizações Egípcia, Assírica e Grega; a Índia encontrava-sefora desta escala, e a sua prolixidade literária (linguística) como arquitectónica, devia-se unicamente a uma invasão Indo-europeia, para não dizer “Indo-germânica”. Paraeles seria inaceitável a relatividade do conhecimento, assim como a relatividade da si-multaneidade dos factos históricos, o que é desculpável; Heinsenberg publicaria o seu
Die physikalischen Prinzipen der Quanten-theorie
em 1930 e Einstein apresentaria a sua
Teoria da Relatividade
em 1954.Como se sabe também, a crise científica (
ruptura do paradigma dominante
) está pro-fundamente ligada ao mecanismo social, político e económico que tende a determinaro natural desenvolvimento das ciências e disciplinas correlativas. Ora, o conhecimentocientífico distingue-se da ideologia, que deforma o princípio e a realidade dos factoscientíficos; quando a ideologia se apropria da ciência a ponto de a deformar, o movi-mento natural imanente do desenvolvimento da própria ciência, leva à consequente
ruptura do paradigma
. Os momentos de crise surgem, portanto, quando os métodos detrabalho ou as teorias, não satisfazem mais as exigências do próprio desenvolvimento.A Ciência é sempre mais rápida no seu desenvolvimento do que os mecanismos so-ciais e políticos.É este fenómeno que se detecta hoje entre os estudos indianos que incluem as disci-plinas da Linguística Comparada, Sânscritologia, História, Mitologia Indiana, Arqueo-logia, entre outras. Os imperativos políticos e económicos, assim como a estrutura cul-tural do sistema colonial europeu do século dezanove, determinaram o andamento dosestudos das línguas africanas e asiáticas, de tal forma que os horizontes cronológicose a interpretação dos textos das culturas em estudo, ficou limitado aos parâmetros cul-

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