Read without ads and support Scribd by becoming a Scribd Premium Reader.
 
OS DESAFIOS DA ECONOMIA POPULAR SOLIDÁRIA
Prof. Armando de Melo Lisboa (Economia/UFSC)alisboa@mbox1.ufsc.br 
Resumo
:
Os grupos de economia solidária, no Brasil e em outros países, por viverematualmente um processo de expansão, enfrentam uma série de desafios. Pretendemos, aodiscutir estes desafios, entre os quais o amadurecimento de uma ampla rede de trocassolidárias com os diversos atores envolvidos, contribuir para que a economia solidária atinjanovos patamares e consolide a criação de um mercado solidário.
1. O caminho se faz ao caminhar ...
Hoje há um espaço extremamente propício para construir alternativas econômicas. As pessoas estão desamparadas pelo Mercado, desprotegidas pelo Estado e desiludidas comas utopias tradicionais. Este campo é como um vulcão emergindo e explodindo, comforças muito grandes e caóticas, onde é mister ter muito cuidado, mesmo porque se trilhacaminhos novos ...Constatar a relevância das quase incontáveis experiências econômicas associativas, que pululam com freqüência no plano municipal, não deve levar a ficar restrito à um culto dolocalismo, mas nos desafia a pensar seu significado mais amplo. Como as iniciativassurgem a partir do local e do micro-econômico (o que é imposto pela própria urgênciados problemas da sobrevincia), um dos principais desafios é o de gestar umavisão/utopia global (
desafio utópico
), caso contrário, se elas se prenderem no localismodas pequenas soluções isoladas, entregar-se-á às forças neoliberais o governo do mundo.As diferenças são brutais: enquanto o mercado financeiro globalizado mergulha nasvertigens cósmicas dos derivativos, noutra ponta os excluídos reconstroem sistemas deescambo e recriam moedas locais. Face ao atual império do Mercado desumanizado,como construir um outro Mercado, socializado? Diante do vácuo gerado pelo nãocumprimento das promessas das velhas ideologias, as experiências solidárias alternativasestão desafiadas à assumirem um protagonismo maior, à demonstrarem que uma outrahumanidade é possível.Aos poucos está ocorrendo uma verdadeira corrida em busca dos caminhos solidários.Uma moda, talvez, mas também, sem dúvida, uma verdadeira revolução molecular. Elasurge por todos os lados do espectro ideológico (internacionalmente através do BancoMundial e de organizações do Terceiro Setor; no Brasil também através do Sebrae e doPrograma Comunidade Solidária do Governo FHC) que cada vez mais, por exemplo,disponibilizam recursos através dos mais variados fundos ou bancos de micro-crédito popular. Nos países capitalistas centrais observa-se especialmente a expansão das redes decomércio justo. Nestes mesmos países e em outros, como no caso particular daArgentina, crescem as experiências de Rede de Trocas com moedas sociais. Aqui noBrasil, ao invés de centrar os esforços na construção de moedas comunitárias, configura-se um "setor econômico popular-solidário" através de inúmeros empreendimentoscomumente designados como de Economia Popular Solidária (EPS), bem como hojeavança a perspectiva de articular política e economicamente redes (ou fóruns) entre osmesmos (
desafio da constituição de redes
). Entretanto, no momento se coloca o
desafio de conjugar estes caminhos
(do comércio justo, da moeda social e o das redesde EPS): esta é uma forte possibilidade em debate e já em construção.
 
A EPS surge a partir de iniciativas de base comunitária em geral construídas por organizações vinculadas aos setores populares. Trata-se de atividades produtivas quetanto se inserem no Mercado quanto constituem redes de comercialização próprias (oMercado Solidário). O campo da EPS, baseado na pequena empresa comunitária, naagricultura familiar, no trabalho doméstico, autônomo, nas cooperativas e empresasautogestionárias, aos poucos supera o
desafio do Mercado
e viabiliza (e se visibiliza) suacompetitividade no mesmo, constituindo-se como uma alternativa desde o interior dasrelações mercantis. Trata-se de um outro circuito econômico diferenciado do mercantil-capitalista e do estatal no qual os pobres constróem suas próprias alternativascomunitárias de provisão material da sua existência através de relações de solidariedade.Estamos nos referindo, em geral, às pequenas unidades produtivas, às cooperativashabitacionais e aos mutirões na construção e conserto de casas, às formas associativas de produção de alimentos, vestuário, remédios, utensílios, artesanato, objetos de uso pessoale pequenos servos, bem como à agricultura familiar. Entretanto, o podemoscaracterizar a EPS pela escala modesta ou pela defasagem tecnológica dos seusempreendimentos. A Associação “Manos del Uruguai”, formada por 18 cooperativas commais de 1000 produtoras artesanais distribuídas em 40 cidades, vem buscando dar maisqualidade aos seus produtos através da melhoria do desenho e da incorporação de novastecnologias, automatizando inclusive certos processos e exportando mais de 50 % da produção.Outro caso relevante é o dos Galpões dos recicladores/Cooperativas dos catadores delixo (que surgem a partir de 1983 em Porto Alegre/RS). Hoje são 10 galpões apenas emPoA, dezenas por todo RS, sendo que em 1998 foi criada a Federação Estadual dosrecicladores. Também a maricultura em SC, emergindo em 1986 a partir da transferênciade avançadas e adaptadas técnicas de cultivo marítimo, já se constitui na principal fontede renda de milhares de famílias em inúmeras comunidades litorâneas catarinenses (hoje o principal polo produtor brasileiro e entre os maiores da América Latina). Em 1999também se criou a Federação dos Maricultores de SC.Destacamos ainda a experiência do Banco Palma$, vinculado a Associação de Moradoresdo Conjunto Palmeiras (ASMOCONP), em Fortaleza (CE). O Banco Palma$ já financiou(micro-crédito) centenas de empreendimentos no bairro (cerca de 30 mil moradores), e,atras do seu cartão de crédito, o PalmaCard (aceito em aproximadamente 100estabelecimentos locais), estimula o consumo dos moradores no próprio bairro. Tambémcontribuiu para organizar as costureiras do bairro através de uma grife de roupas (aPalmaFashion), bem como realiza semanalmente uma feira dos produtos geradoslocalmente. Também implantou uma escola de socio-economia solidária (PalmaTech). A partir de um seminário (“Mercado(s)olidários”, março/2000) promovido por eles,constituiu-se o Fórum da Economia Solidária em Fortaleza. Entre inúmeras iniciativascomunitárias presentes em Palmeiras, realça-se a Escola de Arte Circense, que ensinatécnicas de circo para crianças e adolescentes.Apesar de recentemente descobertas pelos intelectuais/governos, as atividades que dãosubstrato a EPS são muito antigas, e somente não eram visíveis para o olhar regido pelos parâmetros da razão econômica-social iluminista
1
. Nos países semi-periféricos, em particular, a acumulação capitalista não levou à desorganização da pequena produção
1
De certa forma, M. Santos pode ser considerado um precursor da categoria EPS, uma vez queesta retoma elementos centrais do que a três décadas já descrevia como "circuito inferior daeconomia urbana dos países subdesenvolvidos". Mas o conceito de EPS também se inspira nasreflexões de Proudhon, Munford, Polanyi, Illich, Sahlins, Schumacher, Marcuse, Ul Haq, Max- Neef.
2
 
mercantil: sempre tivemos um grande conjunto da população "sobrevivendo" às margensdo mercado numa economia de "subsistência", subordinada sem dúvida.Mas há que distinguir. Os experimentos em curso exigem uma conceituação adequada(
desafio conceitual
): não podemos confundir o setor da economia informal (ou seja,atividades de tipo capitalista, porém fora da regulação institucionalizada), mera "sombra"da economia de mercado, com o conjunto de pessoas que se dedica à atividadeseconômicas sem a presença, muitas vezes, de relações de assalariamento, e que dependemda contínua realização do seu próprio fundo de trabalho para sua reprodução (Coraggio).Estas últimas, denominadas de EPS, o atividades (formais e informais)comunitariamente inseridas (ou seja, nelas tem grande peso os laços culturais e asrelações de parentesco, de vizinhança e afetivas) que muitas vezes são realizadas por grupos de mulheres (existe uma perspectiva de gênero na EPS), não motivadas pela idéiade maximizão do lucro (o que o significa que este o esteja presente), ototalmente sujeitas ao mercado (mas interagem com o mesmo) e a controles burocráticos, por meio das quais as pessoas satisfazem suas necessidades cotidianas de formaautosustentável (sem depender das redes de filantropia). Não há que romantizá-las, mastampouco depreciá-las ou superá-las buscando alcançar o
topos
da modernizaçãoocidental. Não resta dúvida que a EPS hoje encontra-se em vigorosa expansão em diversos planos,o que a está levando para novos patamares. Por um lado observa-se a consolidação dosatores pioneiros, em particular dos programas de geração de renda advindos das igrejas(como da ritas/CNBB
2
ou o do SPD da IECLB
3
) e de organizões não-governamentais (FASE, CESE, CEAPE) – todos apoiados financeiramente, em geral, pelas agências de cooperação internacional, agências estas que, com ainda mais vigor,redobram esforços e recursos para alavancar estas micro-experiências econômico-alternativas. Esta consolidação visualiza-se, particularmente, pela realização de FeirasEstaduais da EPS
4
organizadas coletivamente pelo conjunto dos atores deste campoatravés de Fóruns regionais e estaduais da EPS
5
. Entretanto, são ainda incipientes efrágeis as redes de articulações das diferentes experiências, dificultando tanto umintercâmbio quanto um amadurecimento pela reflexão comum dos êxitos e dificuldades, oque leva a um acentuado ritmo de natalidade-mortalidade destas atividades.Aos poucos surge a perspectiva de uma articulação alternativa entre as redes de EPS,tanto num plano nacional quanto entre países. Isto supõe, é claro, que elas estejamminimamente consolidadas nos níveis de base, o que ainda não se evidenciou.
O desafiode se consolidar nos níveis local/micro-regional/estadual
é um dos mais prementes da
2
A Caritas, criada em 1956, mantém desde o início dos anos 80 o Projetos AlternativosComunitários PACs (um Fundo de Mini Projetos que, até 1999, financiou 954empreendimentos apenas no RS, beneficiando mais de 40 mil pessoas).
3
O SPD/IECLB (Serviço de Projetos de Desenvolvimento da Igreja Evangélica de ConfissãoLuterana), criado em 1966, oferece apoio cnico-financeiro para projetos populares-comunitários de geração de renda.
4
O pioneirismo das Feiras no Brasil está no Rio Grande do Sul, particularmente em Santa Mariaonde, a partir da iniciativa do Projeto Esperança, ocorreram desde 1994 sete feiras estaduais docooperativismo alternativo. Já em Porto Alegre realizaram-se duas (1998 e 2000) feiras daEconomia Popular Solidária do Rio Grande do Sul, sendo que a segunda incorporou umaPrimeira Mostra Nacional.
5
Como o Fórum Metropolitano de Economia Popular Solidária de Porto Alegre (surgido em1996): formado pelas principais organizações envolvidas com a economia solidária na RMPoA,organizou em outubro/1999 a 1
a
Feira Metropolitana de Economia Popular Solidária. EsteFórum, por sua vez, é articulado com o Fórum Estadual da Economia Popular Solidária do RS(também surgido em 1996).
3
Search History:
Searching...
Result 00 of 00
00 results for result for
  • p.
  • More From This User

    Notes
    Load more