Princípios Constitucionais do Direito Penal - 3
O princípio, apesar de expressar-se, comumente, na fórmula latina
nullum crimen,nulla poena sine lege,
não tem, como muitos pensam, sua origem no Direito Romano. Aí, apesar da existência de definições de crimes e penas, a punição sem lei anterior erapermitida, a não ser num pequeno tempo, o de Silla, e com a
ordo judiciorum publicorum,
em que a analogia passou a ser proibida
1.
No mais, todo o Direito Romanoaceitou a aplicação de penas sem prévia definição legal de crimes.Durante toda a Idade Média, em que prevaleceu o direito consuetudinário,
“permitiu-se o
plenum arbitrium
dos juízes. Foi a idade de ouro das
penasarbitrárias.
Ao juiz só era vedado, quando muito, excogitar uma espécie novade pena. E ao lado do arbítrio do juiz ainda havia o arbítrio do rei, de que foram atestado, em França, as célebres
lettres de cachet
”
2.
J
OSÉ
F
REDERICO
M
ARQUES
ensina que
“as raízes do princípio de reserva legal nas normas punitivas encontram-se no Direito medieval, mormente nas magníficas instituições do Direito ibérico. Nas Cortes de Leão, em 1186, declara AFONSO IX, sob juramento, que não procederia contra a pessoa e propriedade de seus súditos, enquanto não fossem chamados ‘perante a
Curia
’. E nas Cortes de Valladolide foi proclamado, em 1299, que ninguém pode ser privado da vida ou propriedadeenquanto sua causa não for apreciada segundo o ‘fuero’ e o Direito. Em 1351,essas mesmas Cortes pediram a Pedro I que ninguém fosse executado ou presosem investigação do foro e direito, no que acedeu o rei. E essa promessa foi depois renovada com ênfase por Henrique II, nas Cortes de Toro, em 1371”
3.
Na Inglaterra, o princípio constou, pela vez primeira, na
Magna Charta
de 1215,ao tempo de João Sem Terra, com a proibição da analogia para definir crimes e aplicarpenas. Aí também se inscreveu o gérmen da idéia de limitar-se o poder do Estado emface da liberdade do indivíduo que, mais tarde, ganharia foros de princípio maior detodas as nações civilizadas. A fórmula latina foi elaborada por Feuerbach, no princípio do século XIX, mas oprincípio constou dos
Bills of Rights
, as constituições das colônias inglesas na Américado Norte, e foi incluído entre os direitos fundamentais do homem no Congresso de
1
HUNGRIA, Nelson.
Comentários ao código penal
. 3. ed. Rio de Janeiro: Forense, 1955. v. 1, t. 1, p. 26.
2
Idem p. 29.
3
Tratado de direito penal
. Campinas: Bookseller, 1997. p. 181-182.
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