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3PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAISDO DIREITO PENAL 
 ___________________________ 
3.1 INTRODUÇÃO
 A Constituição é a base – o alicerce – do Estado e da sociedade. É nela que estãoinsertas as normas básicas de organização estatal e os princípios fundamentais sobre osquais se assentam todas as relações entre os indivíduos. Na Constituição do Estado,estão estabelecidos os primados sobre os quais tudo o mais existe.É na Carta Magna que está dito: república ou monarquia, parlamentarismo oupresidencialismo; propriedade privada sobre os meios de produção ou propriedadecoletiva, estatizada: capitalismo ou socialismo. Desde as questões mais complexas aosmecanismos mais simples da vida, do sistema financeiro à relação de emprego, todosencontram, na Carta Constitucional de um Estado, suas origens, suas bases, suas raízes,suas diretrizes e regras.Na Constituição Federal brasileira, estão estabelecidos todos os princípios queregem o Direito Civil, o Direito Administrativo, o Comercial, Trabalhista, Tributário,Processual e, não podia ser diferente, também o Direito Penal.Nela está determinado que a base da sociedade é a família, a qual também seconstitui por meio da união estável entre homem e mulher. Ali está escrito que nenhumtributo será estabelecido senão para ser cobrado no exercício seguinte. E está definidoque a saúde é um direito de todos e um dever do Estado. Está inscrito, felizmente, queninguém será privado de sua liberdade ou de seus bens sem o devido processo legal.São os fundamentos, os alicerces, que sustentam a vida da sociedade brasileira, dohomem. Todas as demais normas do direito devem harmonizar-se com os princípiosconstitucionais, sob pena de se tornarem inválidas.Todo o Direito Penal, igualmente, é construído com base em princípios inseridosna Constituição Federal, os quais norteiam sua construção e a sua vida, devendo, deconseqüência, ser respeitados. As normas penais ordinárias que vierem a ser
 
2 – Direito Penal – Ney Moura Teles
elaboradas em dissonância com os princípios constitucionais simplesmente não terão,em substância, nenhum valor, ainda que sejam votadas, promulgadas, publicadas etc.Tudo aquilo que colidir com o preceito constitucional será banido do ordenamento jurídico, ainda que formalmente nele tiver ingressado.Por isso, para se estudar o Direito Penal, o ponto de partida deve ser o estudo desuas bases, seus alicerces, seus princípios mais importantes, os quais, por essa razão,estão escritos na Constituição Federal. São eles: o princípio da legalidade, o princípio daextra-atividade da lei penal mais favorável, o princípio da individualização da pena, oprincípio da responsabilidade pessoal, o princípio da limitação das penas, o princípio dorespeito ao preso e o princípio da presunção da inocência.
3.2 PRINCÍPIO DA LEGALIDADE
3.2.1 Enunciado e breve histórico
O inciso XXXIX do art. 5
º
da Constituição Federal estabelece: “
Não há crimesem lei anterior que o defina, nem pena sem prévia cominação legal
”,preceito repetido no art. 1
º
do Código Penal: “
 Não há crime sem lei anterior que odefina. Não há pena, sem prévia cominação legal 
”, que já se encontrava no art. 153, §16 da Carta Constitucional de 1967, no § 27 do art. 141 da Constituição de 1946, no art.122 da Constituição de 1937, no § 26 do art. 113 da Constituição de 1934, no § 15 do art.72 da Constituição de 1891 e que constava do § 11 do art. 179 da Constituição doImpério, de 1824, assim: “
ninguém será sentenciado senão por autoridade competentee em virtude de lei anterior e na forma por ela prescrita
”.Já o art. 1
º
do Código Criminal do Império, de 1830, dizia: “não haverá crime, oudelito sem uma lei anterior que o qualifique”, e o art. 33,
“nenhum crime será punido com penas que não estejam estabelecidas nas leis,nem com mais, ou menos, daquelas que estiverem decretadas para punir ocrime no grau máximo, médio ou mínimo, salvo o caso em que aos juízes se permitir o arbítrio”.
O Código Penal de 1890, no art. 1
º
, consignava:
“Ninguém poderá ser punido por fato que não tenha sido anteriormentequalificado crime, e nem com penas que não estejam previamenteestabelecidas. A interpretação extensiva por analogia ou paridade não éadmissível para qualificar crimes, ou aplicar-lhes penas.” 
 
Princípios Constitucionais do Direito Penal - 3
O princípio, apesar de expressar-se, comumente, na fórmula latina
nullum crimen,nulla poena sine lege,
não tem, como muitos pensam, sua origem no Direito Romano. Aí, apesar da existência de definições de crimes e penas, a punição sem lei anterior erapermitida, a não ser num pequeno tempo, o de Silla, e com a
ordo judiciorum publicorum,
em que a analogia passou a ser proibida
1.
 
No mais, todo o Direito Romanoaceitou a aplicação de penas sem prévia definição legal de crimes.Durante toda a Idade Média, em que prevaleceu o direito consuetudinário,
“permitiu-se o
plenum arbitrium
dos juízes. Foi a idade de ouro das
penasarbitrárias.
 Ao juiz só era vedado, quando muito, excogitar uma espécie novade pena. E ao lado do arbítrio do juiz ainda havia o arbítrio do rei, de que foram atestado, em França, as célebres
lettres de cachet
” 
2.
 J
OSÉ
F
REDERICO
M
 ARQUES
ensina que
“as raízes do princípio de reserva legal nas normas punitivas encontram-se no Direito medieval, mormente nas magníficas instituições do Direito ibérico. Nas Cortes de Leão, em 1186, declara AFONSO IX, sob juramento, que não procederia contra a pessoa e propriedade de seus súditos, enquanto não fossem chamados ‘perante a
Curia
’. E nas Cortes de Valladolide foi  proclamado, em 1299, que ninguém pode ser privado da vida ou propriedadeenquanto sua causa não for apreciada segundo o ‘fuero’ e o Direito. Em 1351,essas mesmas Cortes pediram a Pedro I que ninguém fosse executado ou presosem investigação do foro e direito, no que acedeu o rei. E essa promessa foi depois renovada com ênfase por Henrique II, nas Cortes de Toro, em 1371” 
 3.
 Na Inglaterra, o princípio constou, pela vez primeira, na
 Magna Charta
de 1215,ao tempo de João Sem Terra, com a proibição da analogia para definir crimes e aplicarpenas. Aí também se inscreveu o gérmen da idéia de limitar-se o poder do Estado emface da liberdade do indivíduo que, mais tarde, ganharia foros de princípio maior detodas as nações civilizadas. A fórmula latina foi elaborada por Feuerbach, no princípio do século XIX, mas oprincípio constou dos
 Bills of Rights
, as constituições das colônias inglesas na Américado Norte, e foi incluído entre os direitos fundamentais do homem no Congresso de
1
HUNGRIA, Nelson.
Comentários ao código penal 
. 3. ed. Rio de Janeiro: Forense, 1955. v. 1, t. 1, p. 26.
2
Idem p. 29.
3
 
Tratado de direito penal 
. Campinas: Bookseller, 1997. p. 181-182.
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