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8FATO TÍPICO
 ____________________________ 
 A primeira característica do crime é ser um fato típico, descrito, como tal, numalei penal. Um acontecimento da vida que corresponde exatamente a um modelo de fatocontido numa norma penal incriminadora, a um
tipo
.Para que o operador do Direito possa chegar à conclusão de que determinadoacontecimento da vida é um fato típico, deve debruçar-se sobre ele e, analisando-o,decompô-lo em suas faces mais simples, para verificar, com certeza absoluta, se entre ofato e o tipo existe relação de adequação exata, fiel, perfeita, completa, total e absoluta.Essa relação é a
tipicidade
.Para que determinado fato da vida seja considerado típico, é preciso que todosos seus componentes, todos os seus elementos estruturais sejam, igualmente, típicos.Os componentes de um fato típico são a
conduta
humana, a conseqüênciadessa conduta se ela a produzir (o
resultado
), a relação de causa e efeito entre aquelae esta (
nexo causal 
) e, por fim, a
tipicidade
.O objetivo, neste capítulo, é estudar cada um desses elementos do fato típico,inclusive decompondo, cada um deles, em outros caracteres mais simples ainda, eestes, quando possível, em outros componentes.
8.1 CONDUTA
 Ao longo dos anos, os estudiosos do Direito Penal construíram várias teorias,procurando explicar a
ação, em sentido amplo,
ou
conduta
, o primeiro elemento dofato típico.O tema é da mais alta importância, pois do conceito de conduta adotadodecorrem profundas e diversas conseqüências para o tratamento de importantesquestões penais práticas.Não se trata de divergências de natureza meramente acadêmica, sem qualquer
 
2 – Direito Penal – Ney Moura Teles
reflexo na vida prática, como poderia parecer. Ao contrário, do conceito de condutaadotado decorre a própria orientação do Direito Penal vigente em determinado país,como se verá a seguir.
8.1.1 Teoria causalista
 A teoria causalista ou naturalista da ação, de B
ELING
e V 
ON
L
ISZT
, incorpora aoconceito de conduta as leis da natureza; daí o seu nome. Os adeptos da teoria causalistaou naturalista – até pouco tempo atrás a que imperava no Brasil, e que, ainda hoje,infelizmente, tem adeptos entre juízes e integrantes de certos tribunais – entendem quea conduta é um
 puro fator de causalidade
.Segundo eles, a vontade é a causa da conduta e esta é a causa do resultado. Emoutras palavras: a conduta é efeito da vontade e causa do resultado. A vontade causa aconduta, que dá causa ao resultado.Para o causalismo, a conduta é um comportamento humano voluntário que seexterioriza e consiste num movimento ou na abstenção de um movimento corporal.Essa teoria considera imprescindível que a conduta típica seja um comportamento voluntário, impulsionado pela vontade do homem, que se concretiza, torna-se real,material, por meio de uma ação positiva ou negativa.Existe conduta na atitude de Cláudio que se levanta da cama e vai até o banheiro, para escovar os dentes, tropeça e derruba seu filho que, na queda, fratura o braço. O movimento voluntário das pernas de Cláudio dentro de seu quarto – o andar,tropeçando – causou a fratura do braço de seu filho. A vontade de Cláudio impulsionouseu comportamento, que deu causa ao resultado.Igualmente, é conduta o comportamento de Jorge, impulsionado por sua vontade, que consiste em atirar, com a mão, uma pedra em direção ao corpo de Mário,ferindo-o.Os causalistas, ao examinarem a conduta de uma pessoa, não realizam qualquer valoração acerca do fim pretendido pelo agente. Para eles, basta analisar a voluntariedade do comportamento – se o agente queria movimentar-se ou abster-se deum movimento – e se há nexo de causa e efeito entre o comportamento e aconseqüência dele advinda.Não se importam – quando examinam a conduta – com o conteúdo da vontadedo agente. Não perguntam se Cláudio, ao derrubar seu filho, desejava ou não feri-lo,nem se Jorge, ao atirar a pedra, queria ou não atingir e ferir o corpo de Mário.Para a teoria causal, essas são questões que não se resolvem no âmbito da
 
Fato Típico - 3
conduta, do fato típico, momento em que basta verificar-se a voluntariedade do agentee o nexo de causalidade entre a conduta e o resultado. A finalidade, o conteúdo da vontade, diz o causalismo, não são temas paraserem abordados no momento da análise da tipicidade do fato. Devem ser estudadosquando se for verificar a culpabilidade, que é a terceira característica do crime.
8.1.2 Teoria finalista
Contra o causalismo levantaram-se críticas importantes, falhas cruciais.Imaginem-se três fatos da vida:
Fato A 
: João, voluntariamente, dispara um tiro de revólver contra Márcio,causando-lhe um ferimento na perna direita.
Fato B
: Pedro, voluntariamente, dispara um tiro de revólver contra Paulo,causando-lhe um ferimento na perna direita.
Fato C
: Antônio, voluntariamente, dispara um tiro de revólver contraSérgio, causando-lhe um ferimento na perna direita.Nos três fatos, as três condutas consistem em três ações voluntárias de pressionara tecla do gatilho da arma de fogo, disparando-a em direção a outra pessoa. Asconseqüências das três condutas, os resultados, são absolutamente idênticos nos trêsfatos: lesão do corpo do sujeito passivo.Em qual tipo legal de crime se ajusta cada um dos três fatos? Seriam três “
lesõescorporais
”, dolosas, como definidas no art. 129 do Código Penal? Ou seriam três
lesões corporais
”, culposas, de que trata o § 6
º
do mesmo art. 129? Ou poderiam ostrês fatos caracterizar-se como três
tentativas de homicídio
?O adepto da teoria causalista não pode, neste momento, responder a essasindagações, porque, segundo ele, não importa, no âmbito do fato típico, o conteúdo da vontade do agente. De conseqüência, só poderá responder quando for analisar aculpabilidade.O primeiro funcionário público encarregado de tomar contato com um fatodefinido como crime é o delegado de polícia, a quem incumbe investigar comoaconteceu, onde, quando, quem foi, como foi, por que foi e, após registrar tudo isto,num documento denominado inquérito policial, o encaminhará ao juiz, que o mandaráao promotor de justiça, cuja missão é, se considerar necessário, pedir ao juiz acondenação do infrator da norma penal.
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