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Sobrados e Mocambos

Sobrados e Mocambos

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Livro com análise sobre a formação da sociedade brasileira
Livro com análise sobre a formação da sociedade brasileira

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03/01/2013

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Sobrados e Mucambos – Gilberto Freyre – 3ª ONHB – 2011- Prof. Ive
   P    á   g   i   n   a   1 
Introdução à história da sociedade patriarcal no Brasil - 2
© Fundação Gilberto Freyre, 2003 Recife-Pernambuco-Brasil 14
1
edição, 2003, Global Editora
Sobrados e Mucambos
Decadência do patriarcado rural e desenvolvimento do urbano
Gilberto Freyre
14
a
edição revistaApresentação de Roberto DaMattaBiobibliografia de Edson Nery da FonsecaNotas bibliográficas revistas e índices atualizados por Gustavo Henrique Tuna
Iconografia
Fundação Gilberto Freyre Global Editora
Projeto Gráfico
Lúcia Helena S. Lima
Capa
Victor Burton
Editoração Eletrônica
Antônio Silvio LopesLúcia Helena S. Lima
Ilustração
Lula Cardoso AyresA Global Editora agradece a gentil cessão do material iconográfico àFundação Gilberto Freyre e Biblioteca José e Guita Mindlin.
Direitos Reservados
Global Editora e Distribuidora Ltda.São Paulo 2003
Diretor Editorial 
Jefferson L. Alves
Editor Adjunto
Francisco M. P. Teixeira
 Atualização de notas e índices
Gustavo Henrique Tuna
Gerente de Produção
Flávio Samuel
Coordenação de Revisão
Ana Cristina Teixeira
Revisão
Ana Cristina Teixeira Giacomo Leone Neto Rinaldo Milesi
 
 
Sobrados e Mucambos – Gilberto Freyre – 3ª ONHB – 2011- Prof. Ive
   P    á   g   i   n   a   2 
II - O engenho e a praça; a casa e a rua
A praça venceu o engenho, mas aos poucos. Quase sempre respeitando nos vencidos umas tantas virtudes e gabolices; procurando imitá-las; àsvezes até romantizando-as e exagerando-as nessa imitação de "inferiores" por "superiores". Outras vezes troçando do matuto rico, do fazendeiroopulento mas atrasado nos seus modos de falar e nas suas modas de vestir-se, do senhor de engenho fanfarrão e até quixotesco, de toda a "gente domatto", de todo o roceiro de "serra acima". Destacando-lhe os vícios de linguagem, os atrasos de cinqüenta, cem anos em estilos de habitação e demeios de transporte, os ridículos de moral e de etiqueta também atrasada um século, dois, às vezes três. Porque esses atrasos variavam de regiãopara região, dando ao país variedade pitoresca, mas às vezes dramática, de estilos e estágios de cultura. Variavam de região para região como de sexopara sexo, de raça para raça, de classe para classe.Quando no capítulo anterior procuramos salientar o declínio do patriarcado rural, principalmente em Pernambuco e na Bahia, onde desde oséculo XVI se consolidara na casa-grande de engenho ou de fazenda, dominando daí a paisagem do Brasil colonial, foi pretendendo fixar apenas atendência mais saliente; e não sustentando que o domínio da casa-grande de engenho tivesse sido até então absoluto.O paulista, por exemplo, figura que dramatizou como nenhuma a paisagem sertaneja dos primeiros dois séculos de colonização, imprimindo-lhetraços profundos de sua ação criadora, a casa que ligou a essa paisagem não foi a grande e estável, de pedra e cal, mas a palhoça quase de caboclo, ocasebre quase de cigano, o mucambo quase de negro, que só nos fins do século XVIII, época de relativa sedentariedade para aqueles nômades, seeuropeizaria na habitação urbana de taipa, "isto he" - explica Casal - "de terra" e "branqueada com tabatinga".
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Em 1720, em carta a Bartolomeu de Sousa Mexia, o conde de Assumar, queixando-se de Domingos Rodrigues do Prado "natural da comarca deSão Paulo, homem revoltoso e regullo", informava que decidira povoar Pitangui de reinóis, que explorassem melhor as minas, pois era lugar até entãohabitado por Paulistas "cujas habitações sempre tem pouca forma, porque a sua vida e a natural propensão que tem de andarem pelos mattos, fazque as suas povoações não sejam persistentes..."
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Em um país da extensão do nosso e com tão acentuada diversidade não tanto de clima, nem de técnica de produção e de trabalho -aliás a detrabalho foi quase a mesma: a escravidão, primeiro do índio e depois do negro - mas de contatos com outros povos e com outras culturas - contatostão desiguais, durante o período da formação brasileira - só podia ter variado, como variou, de região para região, o processo de integração social ounacional. Integração ainda hoje incompleta.É que a diferenciação, intensíssima em uns pontos, em outros foi quase nenhuma. Quase nenhuma mesmo através da segunda metade do séculoXIX.Só depois de bem iniciado o século XVIII é que na área mineira foram-se radicando, em número considerável, famílias ao solo. Até então a zona doouro se achava salpicada menos de vilas e de casas de fazenda do que de bandos de aventureiros sem lugar fixo de atividade nem organização cristãde família. Bandeiras. Arraiais movediços, atrás de minas e de escravos. Burgos cenográficos que desapareciam e reapareciam como se fossemcenários de teatro de feira.Compreende-se não se ter desenvolvido ou generalizado entre gente tão móvel, nenhum tipo de habitação sólida ou senhoril, contentando-se oscolonos aventureiros com a palhoça, a casa de barro, o casebre; com um gênero de vida, de habitação e de alimentação próximo do indígena; com atécnica de transporte, de pesca, de caça e até de lavoura, da gente nativa. Seus contatos de cultura com a Europa quase que se interrompiam de todoà proporção que se distanciavam do litoral; iam-se amortecendo, rareando, para se avivarem os contatos com a cultura indígena.E esses aventureiros de palhoça ou de casa de barro, deve-se notar que eram em grande parte solteirões; mais fáceis, portanto, de se dissolveremem nômades. "Solteirões" - informava D. Lourenço de Almeida em carta a el-Rei, que já compreendera a conveniência política dos seus colonostomarem "estado de casados" e se estabelecerem "com suas famílias reguladas." Porque "por este modo ficarão mais obedientes ás Minhas reaesordens, e os filhos que tiverem do matrimônio os farão ainda mais obedientes, e vos ordeno me informeis se será conveniente mandar eu que só oscasados possam entrar na governança das câmaras das vilas, e se haverá suficiente numero de casados para se poder praticar esta ordem..." ReparavaD. Lourenço: "{...] e mostra a experiência nos poucos casados que ha nestas terras, que são muito mayores trabalhadores em desentranharem ouroda terra, que estes solteirões que só lhes leva o tempo a se ocuparem em extravagâncias [...]".
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No que talvez houvesse injustiça, e grande, aos solteirões, da parte de D. Lourenço. Eles descobriram minas, romperam o mato virgem, abriramcaminhos, tendo sido provavelmente mais eficientes que os casados nessa fase de colonização quase militar. É claro que para uma época de vida maisfácil, tudo pacificado, só faltando mesmo explorar as minas, burocratizar o trabalho, regularizar e cristianizar as relações entre os sexos, essesromânticos tornaram-se figuras incômodas e arcaicas; figuras angulosas, ajeitando-se mal a uma sociedade de gente arredondada pelasedentariedade e pela paz. A não ser que se casassem - como fez em Pernambuco Jerônimo de Albuquerque, depois de muitos anos de vida solta,libertina mesmo, mas nem por isto inútil.Não é preciso negar-se ao solteiro nômade todo o valor, para reconhecer se a importância enorme do casado e sobretudo da mulher-matrix, damulher estável e mãe de família em nossa formação.Sem essa figura quase matriarcal de mulher-matrix, não se imagina a casa-grande de engenhoque foi o centro da nossa integração social.O tipo nobre de casa que ficou se chamando "casa-grande" desenvolveu-se na região dos engenhos de cana; e menos em torno da figura dohomem, que do vulto gordo da matrona portuguesa do século XVI. As Das. Brites, as Das. Genebras, as Das. Franciscas, as Das. Teresas, as Das. Marias.Mulheres casadas que acompanharam os maridos ao Brasil.Onde elas se instalaram, gordas e pesadonas, com seus conhecimentos de coisas de cozinha e de higiene da casa, com seus modos europeus ecristãos de tratar de menino e de gente doente, pode-se afirmar que aí a civilização européia aprofundou-se mais e fixou-se melhor. As iaiás foramsempre as estabilizadoras de civilização européia no Brasil.
 
 
Sobrados e Mucambos – Gilberto Freyre – 3ª ONHB – 2011- Prof. Ive
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De onde, em grande parte, a diferença regional de estilos de vida na América portuguesa: a maior predominância de padrões europeus de cultura,nos pontos de colonização por homens casados; e menor, naquelas regiões colonizadas por homens, em sua maioria, solteiros, ou simplesmenteamasiados com caboclas da terra.O príncipe Maximiliano, viajando em princípios do século XIX pelo interior do Brasil, encontrou em São Salvador dos Campos dos Goitacases,fazendeiros ricos, vivendo a mesma vida relassa que no século XVTI. Homens de enviar para a cidade próxima tropas e mais tropas cheias de produtos,donos de mil, mil e quinhentas cabeças de gado, morando em casebres inferiores aos dos camponeses alemães mais pobres.
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Casas térreas de barro enem ao menos caiadas. Verdadeiros mucambos. Faltava talvez, a esses colonos, a ação da mulher portuguesa, no sentido da maior dignidade moral edo maior conforto físico da casa, do móvel, da vida doméstica.Em São Vicente, no recôncavo da Bahia, em Pernambuco - os pontos de colonização portuguesa do Brasil que mais rapidamente se policiaram - apresença da mulher européia é que tornou possível a aristocratização da vida e da casa. E com esta, a relativa estabilização de uma economia quetendo sido patriarcal nos seus principais característicos, não deixou de ter alguma coisa de "matriarcal": o maternalismo criador que desde o primeiroséculo de colonização reponta como um dos traços característicos da formação do Brasil.No fim do século XVI, o padre Cardim se admirava de encontrar em Pernambuco "grandes senhoras". E os homens e as mulheres vestindo-se pelosmesmos estilos que em Lisboa; banqueteando-se com as iguarias e os vinhos de Portugal; dormindo em camas forradas de seda que nem os príncipese as princesas do Reino.
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Senhores de engenho morando em casas isoladas, reuniam-se, entretanto, os colonos em Olinda para suas festas de igreja e de casamentos, suascavalhadas, seus jogos, suas danças, suas representações de comédias, seus recitativos. Aí não tardou a aparecer o primeiro poema inspirado pelapaisagem brasileira, ainda que escrito, talvez, por judeus; e onde vem exaltada a figura da mulher do donatário:
"Dona Beatrizpreclara e excellente." 
Mulher que foi o primeiro indivíduo do sexo chamado frágil a governar capitania ou província na América, embora o fizesse não como matriarca masem substituição ao patriarca ausente ou enfermo.A presença da mulher européia em maior número é talvez o elemento mais vivamente responsável pelo fato de se ter desenvolvido desde o séculoXVI em Pernambuco, na Bahia, em São Vicente e, mais tarde, em Minas Gerais, no Maranhão, no Pará, em Santa Catarina, no Rio Grande do Sul, umtipo de habitação mais nobre que em outros pontos de colonização portuguesa e espanhola na América. Esse tipo de habitação tendo a princípio seespecializado na casa-grande de engenho, depois se requintou na casa-grande assobradada, de cidade. A arquitetura de residência elegante e o estilode vida doméstica a ela correspondente se acham ligados, na formação brasileira, ao maior domínio da mulher portuguesa sobre a vida colonial.O patriarcalismo brasileiro, vindo dos engenhos para os sobrados, não se entregou logo à rua; por muito tempo foram quase inimigos, o sobrado ea rua. E a maior luta foi a travada em torno da mulher por quem a rua ansiava, mas a quem o
 pater famílias
do sobrado procurou conservar o maispossível trancada na camarinha e entre as molecas, como nos engenhos; sem que ela saísse nem para fazer compras. Só para a missa. Só nas quatrofestas do ano - e mesmo então, dentro dos palanquins, mais tarde de carro fechado.De modo que a vida da moça de sobrado era dentro de casa, entretendo-se com a fala dos papagaios dizendo-lhe "Meu bem", "Meu amor", "Iaiã","Sinhá", "Dondon", na falta de voz grossa de homem que lhe acariciasse os ouvidos; com afagos de sagüim e de macaco, na ausência de mãos fortesde varão que agradassem as suas. E com cafunés afrodisíacos de mucamas na sua cabeça de moça que às vezes talvez se imaginasse"moura-encantada" das histórias contadas pela negras velhas, com algum encanto escondido nos cabelos.As lojas mandavam aos sobrados seus chapéus de abrir e fechar, suas botininhas de duraque, suas fitas, seus "pentes de marfim paradesembaraçar e tirar piolhos", suas travessas, seus filós, seus cetins; e a moça escolhia à vontade, muitas vezes, talvez, espalhando, como em cidadesdo interior quase nos nossos dias, as amostras pela esteira ou por cima do sofá, e ela, de cabeção e saia de baixo, o cabelo solto, rodeada de negras,feliz como uma menina doente entre brinquedos espalhados na cama.Quando não se mandavam vir mercadorias da loja, chamava-se o mascate. Os baús de flandres cor-de-rosa e as caixas de papelão dos mascates - aprincípio, homens do Oriente e portugueses, chamados "marinheiros",
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depois, europeus de outras origens inclusive judeus da Alsácia, quase todosarmados de varas de medir pano que eram verdadeiras matracas a quebrarem o silêncio das ruas - se escancaravam diante dos olhos gulosos dasmulheres dos sobrados. De dentro dos baús começavam a derramar-se pelas mesas de jantar de jacarandá ou pelas esteiras de piripiri tanto cetim,tanta fita, tanto pano bonito, tanto frasco de cheiro, às vezes até vestidos já feitos, que era uma festa nas casas tristonhas.Esses mascates iam também pelas casas-grandes de engenho, os baús carregados a mula. D'Assier não pôde deixar de contrastar a importância domascate, no interior do Brasil - quase um lorde, hospedando-se nos engenhos e andando de burro ou de mula - com o
"colporteuf 
dos Alpes e dosPireneus, que carregava seu bauzinho às costas, subindo e descendo humildemente ladeiras.
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Mas no Brasil escravocrático tinham esse ar importanteos barbeiros, os ferreiros, os carpinteiros, os pintores de parede, todos donos de escravos que lhes carregavam as ferramentas e lhes preparavam astintas: os senhores quase não sujavam os dedos; andavam de chapéu de três bicos e de sobrecasaca. Até os mendigos, notaram alguns estrangeirosque tinham modos de fidalgos; alguns pediam esmola de rede, nos ombros de dois escravos. Outros a cavalo.No interior, os mascates - muitos deles repita-se que judeus da Alsácia e do Reno depois de terem sido homens do Oriente e do Minho -continuaram no século XIX a praticar espertezas que nem as daqueles mercadores a pé do século XVI que escandalizavam o autor dos
Diálogos.
Asmatutas deixavam-se engabelar pelos mascates ruivos. Precisamente o meado do século XIX foi a idade de ouro desses novos mascates. Lucros de100%. Ou mais. Às vezes lucros monstruosos. Anéis comprados na Europa por 100 francos eram vendidos a senhores de engenho por 800$000, pagosà vista. A crédito, o senhor de engenho assinava uma letrinha de 1:000$000, isto é, 2.500 francos; e ainda por cima, hospedava o judeu. Uns mascatesse especializavam em vender jóia; outros, franceses, em frascos de cheiro; os italianos, em imagens de santo para as capelas das casas-grandes, paraos oratórios dos sobrados.
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Em algumas regiões, a boca do povo os foi chamando "gringos", ou por serem alourados como os ingleses ou por separecerem, nos modos, com os ciganos - outros que, desde dias remotos, foram denominados "gringos" no Brasil.
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