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Profissionalização da Atividade de Inteligênciano Brasil: Critérios, Evidências e DesafiosRestantes
Marco Cepik e Priscila Antunes 
Resumo
Discute-se aqui as características da função de analista/coletor de inteligência e oscritérios a partir dos quais se pode definir que esta atividade constitui uma profissão. Emseguida, o caso do Brasil é analisado sob o ponto de vista do processo de institucionaliza-ção histórica da atividade de inteligência e de como o país vem desenvolvendo capacidadeprópria para recrutar, educar e manter este tipo de profissional. Os desafios associados aoestabelecimento de uma carreira governamental em inteligência são discutidos no textoem relação com os quatro critérios utilizados para se caracterizar uma profissão: requisi-tos cognitivos, sistema educacional, carreira propriamente dita e requisitos éticos. Para arealização deste trabalho foi aplicado um survey a 47 componentes da Agência Brasileirade Inteligência (ABIN). A conclusão principal do texto é de que a atividade de inteligên-cia já pode ser considerada uma profissão no caso do Brasil, mas permanecem desafiosimportantes sobre os incentivos e sanções da carreira de analista de inteligência erecomenda-se uma reforma nos conteúdos e métodos da educação profissional eminteligência no âmbito do governo federal. Tampouco se pode generalizar a conclusão dotexto para as demais agências de inteligência brasileiras, especialmente militares e polici-ais, pois estudos mais específicos são necessários.
Introdução
Esse texto discute o problema da profissionalização da atividade de inteligência noBrasil tendo em vista três objetivos básicos. Em primeiro lugar, definir parâmetros con-ceituais a partir dos quais se torne possível avaliar se a atividade de inteligência pode ounão ser considerada uma profissão. Em segundo lugar, analisar a trajetória recente do pro-cesso de institucionalização democrática da atividade de inteligência no Brasil e identifi-car os avanços, impasses e desafios colocados no processo de profissionalização dessaatividade no setor público estatal. Finalmente, mas não de menor importância, pretende-se aqui iniciar uma avaliação sistemática dos valores e expectativas profissionais dospróprios funcionários das agências governamentais de inteligência no Brasil.Esse terceiro objetivo corresponde também a um esforço de pesquisa comparativo,realizado no âmbito do projeto “Comparative Perceptions of Intelligence Professionalismin North, South and Central America”, coordenado por Russell Swenson (Estados Uni-dos) e Susana Lemozy (Argentina).
 
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Como parte de um esforço comparativo e conscientes dos problemas metodológicosinerentes a ele, traduzimos e adaptamos um questionário estruturado (
survey
) que foi apli-cado a uma amostra de 47 (quarenta e sete) analistas de informações e gestores que trabal-ham na sede central da Agência Brasileira de Inteligência (ABIN), em Brasília-DF. Dadaa peculiaridade do objeto — atividades de inteligência protegidas legalmente pelosegredo governamental — aceitamos certos limites ao estudo. O desenho geral desta pes-quisa de opinião e alguns de seus resultados preliminares serão discutidos na última partedesse trabalho.Desde já, porém, os autores gostariam de agradecer aos professores Swenson e Lem-ozy a inestimável ajuda na superação dos problemas mais graves relativos à equivalênciasemântica, conceitual e normativa de um questionário traduzido e adaptado do Espanhol edo Inglês para o Português.
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Também é preciso destacar a boa vontade e a colaboração dos dirigentes e funcionáriosda Agência Brasileira de Inteligência (ABIN) durante a realização de entrevistas, visitastécnicas e aplicação do questionário auto-aplicado. Num contexto como o da AméricaLatina, onde em muitos lugares os regimes de segredo governamental tendem a perderfuncionalidade sem perder poder, gostaríamos de agradecer a abertura e a franqueza dosfuncionários da agência, representados pela professora Marisa Del’Isola e Diniz, diretorageral da ABIN. Um agradecimento especial aos funcionários da agência que ajudaram aviabilizar essa primeira tentativa de pesquisa sobre os valores e atitudes dos profissionaisde inteligência no Brasil.
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Definições e Critérios para se discutir inteligência como profissão
Será inevitável começar com alguns esclarecimentos sobre o uso restrito que se devefazer do termo inteligência, entendida aqui enquanto um tipo de conflito informacional.Queremos dizer basicamente que, para nós, inteligência não é apenas segurança nemmeramente informação, mas sim a busca e análise de informações necessárias para vencerum conflito entre vontades antagônicas.Este uso restrito do termo inteligência é necessário por duas razões. Em primeiro lugar,porque a relevância dos fluxos informacionais gerados na e pela atividade de inteligênciavaria na proporção inversa da quantidade de áreas que se pretende abarcar com recursosescassos. Em segundo lugar, porque os riscos para a democracia — gerados por um usoindiscriminado dos recursos de inteligência em áreas de políticas públicas não direta-mente relacionadas com defesa, política externa e segurança — crescem na proporçãodireta em que se dilui a consciência sobre a natureza conflitiva dessa atividade e se passa
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Orlando Behling and Kenneth Law,
Translating Questionnaires and Other Research Instru-ments
(London: SAGE, 2000), 1-16.
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Por razões de segurança, a diretoria da ABIN solicitou apenas que não fossem divulgadosdados primários sem consulta prévia, e que uma versão preliminar desse texto fosse examinadaantes da sua publicação, condições aceitas pelos autores em correspondência encaminhada no dia20/08/2002.
 
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a tratar inteligência como qualquer insumo informacional relevante para qualquer pro-cesso de tomada de decisão.Neste momento em que o tema da reforma e do papel a ser desempenhado pelosserviços de inteligência na democracia está posto nos Estados Unidos e também em diver-sos países da América Latina e do Caribe, parece oportuno fixar algumas balizas teóricasque permitam uma decisão realista e ao mesmo tempo progressista sobre o que fazer comesse aspecto do poder de Estado. Um aspecto importante desta decisão refere-se ao
status
que esta atividade deve ter nos regimes democráticos. Deve-se valorizar a atividade deinteligência, deve-se tolerá-la como um mal necessário, deve-se buscar suprimi-la doacervo de recursos que conformam o poder de Estado?Para responder a questões como esta é que discutiremos nesta seção os critérios pelosquais se pode avaliar o
status
da atividade de inteligência nos governos contemporâneos,tomando como ponto de partida aquela definição mais restritiva sobre o que é a atividadede inteligência, qual a sua missão, quais as finalidades principais dessa atividade. Concor-damos que trata-se de algo mais complexo e abrangente do que era antigamente a espio-nagem, mas não chegamos ao ponto de considerar toda e qualquer atividade de produçãode conhecimento, coleta e análise de informações como sendo atividade de inteligência,especialmente no âmbito governamental. Afinal, não são todos os temas importantes parao processo decisório governamental que são melhor tratados pela atividade de inteligên-cia. A atividade de inteligência é mais relevante quanto mais se aproxima do núcleo detomadas de decisões a respeito de segurança, defesa e política externa. Quanto mais nosafastamos destes temas para as áreas sociais ou econômicas de atuação do Estadocontemporâneo, menos relevante tende a ser a atividade de inteligência governamentalcomo insumo fundamental para o processo de tomada de decisão. Por esta razão, há com-plexidades e dificuldades associadas ao processo de profissionalização da atividade deinteligência que merecem nossa atenção.A atividade de inteligência governamental é definida por um conjunto de métodos,técnicas e temas de relevância definida. Em primeiro lugar, o processo de trabalhoenvolvido na atividade de inteligência privilegia, na etapa de obtenção das informações,um tipo de conhecimento, de habilidade técnica, de metodologia, de tecnologia distintodas habilidades, das tecnologias e das técnicas utilizadas na segunda metade desse pro-cesso de trabalho, que é a etapa de análise e produção dos resultados finais. Em uma frase,coletores de inteligência são especializados em disciplinas e tipos de fontes e analistas deinteligência são especializados em temas, regiões, tipos de problemas.Há também toda uma diferenciação, bastante complexa, entre os tipos de habilidade ede competências necessárias nas áreas de inteligência positiva e contra-inteligência. Alémdo que, contemporaneamente, há um processo de formação de subculturas profissionais,bem identificadas pela literatura especializada: inteligência criminal, inteligência militarou inteligência externa. Essas subculturas ou partes específicas do trabalho da atividadede inteligência configuram desafios próprios do ponto de vista da discussão sobre profis-sionalização.
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