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Marias e Antonias_um Convite Ao Dialogo Com o Feminismo Negro

Marias e Antonias_um Convite Ao Dialogo Com o Feminismo Negro

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Published by Arttemia Arktos

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01/31/2014

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Marias e AntôniasUm convite ao diálogo com o feminismonegro!
Gláucia Matos AdenikéHá pouco tempo, assisti pela Rede Globo à minissérie “Antônia”,que despertou a minha atenção. Pela primeira vez, na televisãobrasileira, um seriado foi dedicado exclusivamente à mulher negra.Retratou o cotidiano da mulher negra da periferia e as váriassituações de exclusão vividas por todas as mulheres da periferia,mas de maneira, mais aguda por ela: a pobreza, a situação de ex-presidiária, o convívio com a criminalidade, a situação de ser mãesolteira, a falta de acesso à saúde e à educação, o tratamentodesigual e preconceituoso recebido nos hospitais públicos, asituação de moradia, a busca por um trabalho decente. O Especialressaltou, principalmente, as dificuldades que as quatro jovensmulheres negras, personagens do seriado, enfrentaram para arealização dos seus sonhos. Sua luta para tornarem-se profissionaisreconhecidas da música brasileira. Elas desejavam ser cantorasrespeitadas e valorizadas na sua escolha – desejo que não édiferente do sonho e da luta das outras mulheres do Brasil.O drama revelou nitidamente o quanto um corpo violentado na suaessência, em sua alma, leva consigo, para o resto da vida, a marcadesta violência, que fere e, muitas vezes, mata o ser existente nestecorpo. Esse ser sofre pela discriminação velada da invisibilidade docorpo negro, que sente a dor da coisificação, da rejeição, daexclusão, e quem não possui um corpo negro dificilmente poderánarrar essa história e as lutas e resistências com vistas a superar talsituação! Para Começo de conversa, nós, mulheres negras, somostodas Antônias! Resultado do processo do tráfico de escravostransatlântico, do processo de escravização e do colonialismo,vítimas do racismo, discriminação racial, xenofobia e intolerânciacorrelata, em todo o mundo, AS MULHERES NEGRAS, quilombolase afrodescendentes, latinas americanas e caribenhas quesobreviveram e resistiram a barbárie abominável da escravidão,tragédias terríveis na história da humanidade em termos de suamagnitude, natureza de organização e, especialmente pela negaçãoda essência das vítimas.
 
Vejamos:De 169, 5 milhões de brasileiros, dos quais 50,79% são do sexofeminino, deste percentual, 44% são mulheres negras e pardas. Oúltimo censo do IBGE, 2006, mostra o abismo entre as condiçõesde vida da população branca e da população de pretos e partos erevela que 60% das famílias chefiadas por mulheresafrodescendentes têm renda inferior a um salário mínimo. Trata-sede uma roda viva em que, por um lado, a discriminação racialmantém a população negra em atividades profissionais nos setoresinferiores e, por outro lado não oferece condições reais de diminuir as desigualdades relativas à qualificação profissional entre brancose negros. Essa desigualdade é expressa também através dadiferenças salariais entre brancos e negros, colocando a mulher negra, dentre o segmento com piores rendimentos .Nesse contexto, é importante mencionar que há pouco tempo, ogoverno brasileiro vem fortalecendo a participação da sociedadecivil organizada nos processos de elaboração de políticas públicaspara setores historicamente excluídos, em especial, mulheres epopulação negra. Para tanto, as conferências cumprem papelsignificativo, na medida em que vêm se constituindo como espaçoaberto e plural, com foco no exercício de encontro de várias lógicase demandas e na construção de um espaço democrático e comdisponibilidade para devolver a palavra a todas(os) que lutam parasuperar qualquer tipo de opressão e discriminação.MARIAS E ANTÔNIASEm primeiro lugar, cabe resgatar, ainda que de forma sucinta, ahistórica contribuição do movimento feminista para a superação dasdesigualdades entre homens e mulheres e o fortalecimento da auto-estima da mulher, influenciando positivamente a vida das mulheresnegras no Brasil e no mundo.Embora o feminismo seja considerado, por algumas mulheres, umpatrimônio das “Marias” , não deveria impedir a visualização de umoutro feminismo, que vem sendo construído com a participação dasmulheres do movimento popular e sindical, do movimento negro,composto pela pluralidade de setores excluídos e pela diversidadeétnico-racial, orientação sexual e geracional das suas participantes.
 
Reconhecida tal proposição, neste momento, me expresso comomulher negra e feminista a respeito do que vivenciei como delegadana II Conferência Estadual de Políticas para as Mulheres de SãoPaulo, realizada no período de 11 a 13 de julho de 2007.A ausência de solidariedade entre as mulheres, princípiofundamental dentro do feminismo, a dificuldade do entendimento ecompreensão da fala das mulheres negras estiveram presentesnesta Conferência, evidenciando que dificuldade ainda permanecepara tratar, sem hierarquizar e sem ocultar, o impacto das questõesraciais na vida das mulheres. Observamos que a demanda dasmulheres negras não faz parte do discurso majoritário do feminismoo qual necessita urgentemente incorporar a pauta de reivindicaçãodas mulheres feministas negras que, no seu cotidiano, temensinamentos e conhecimentos disponibilizados e construídoshistoricamente. Esta ausência de solidariedade e respeito peladiversidade étnica vem demonstrar a pretensa neutralidade damulher branca, heterossexual, de classe média e sem deficiência,reafirmando que permanece no discurso majoritário a existência dedois mundos: o das Marias e o das Antônias – situação que dificultaa construção de um feminismo plural e anti-racista.As cenas da plenária final da II Conferência Estadual de Políticaspara as Mulheres de São Paulo, referentes ao comportamento dealgumas feministas brancas em relação a mulheres negras,provocaram em mim a lembrança de fatos ocorridos no início dadécada de 1990. Na ocasião, Suely Carneiro e Edna Rolandargumentavam a favor da construção de um feminismo negro, poisa existência de desigual capacidade de trocas, sem que sejamfeitas referências ao mundo negro, colocava em risco e perigo, emmédio prazo, as identidades étnicas e culturais das protagonistasatuantes no movimento feminista e de mulheres, desrespeitando apluralidade e a diversidade étnico racial que compõem estemovimento.De um lado, o relacionamento muito próximo entre feministasnegras e brancas pode apontar para o caráter aparentementedemocrático e tranqüilo de convivência racial, por outro lado, aocolocar as protagonistas brancas e negras em situação de convívionos espaços de poder, “Marias” e “Antônias”, o modelo de oposição

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