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Luiz Mott: vida, obra e militânciahttp://gonline.uol.com.br/site/arquivos/estatico/gnews/gnews_filosofando_43.htmPor Ferdinando Martins03.02.09A história do antropólogo baiano e do grupo gay mais antigo do BrasilDiz Foucault: o autor não existe, apesar de existir. Em O que é um autor?, ofilósofo francês defende que as ideias de obra e autoria são uma construçãopolítica e uma realidade de transação. Assim, a autor e sua obra são unos com seumomento história e sua história de vida.É a partir dessa perspectiva que pensamos o trabalho de Luiz Mott. Antropólogo,militante, acadêmico e erudito, seu trabalho, sua obra, sua vida e seu legadomesclam-se com a da defesa dos direitos LGBT no Brasil - em uma trajetória ímpar ede central importância em diversas áreas.Família e religiãoMott nasceu em 6 de maio de 1946, na conservadora Zona Norte da capital paulista,em uma família pequeno burguesa de oito irmãos. Sua mãe, Odete de Barros Mott,renomada escritora de livros infanto-juvenis. Quando criança, era chamado pelosirmão de Chico Viramundo, apelido que, segundo ele, revela um traço de seustraços: andar muito. "Sou uma pessoa muito curiosa. Já viajei bastante pelo mundo.Virar o mundo, significava também virar a mesa. Acredito ter sido sempre umapessoa contestadora. Sobretudo, nos últimos vinte anos da minha vida. Tenhopolemizado sobre uma série de questões", declarou em uma entrevista de 1995.Quando criança, Mott era chamado de mariquinha por ser um menino sensível. Issofez com que a mãe o estimulasse a desenvolver aptidões mais masculinas. Acaboudesenvolvendo o desejo de se tornar padre, o que o levou a estudar em um semináriodominicano, chegando ao noviciado em 1963, em Belo Horizonte. Dessa época, Mottrecorda-se de ter desenvolvido gosto pela música clássica e dos textos lidos emfrancês. Sua espiritualidade fazia com que pensasse em Deus o dia todo, afirma."Era uma pessoa com espiritualidade muito forte, um certo pieguismo. Sobretudo umaespiritualidade já moderna no sentido da caridade, da solidariedade e com grandepreocupação pela Bíblia, cuja leitura fiz várias vezes... com a preocupação emrealmente ser um santo, o ideal de todo cristão: ser perfeito como o pai doscéus".Seminários são lugares que despertam a libido. Basta ler o romance Em nome dodesejo, de João Silvério Trevisan, para se ter uma idéia. Com Mott, não foidiferente. Na época em que aspirava a vida religiosa, teve uma relação platônicacom um seminarista mais velho, um mineiro chamado Flaviano. Mesmo sem envolvimentofísico, ficou batente sua inclinação homoerótica. Sua religiosidade, porém,mostrou-se não ser suficiente para a ordenação e em 1964, no ano do golpe militar,saiu do ambiente clerical e foi estudar Ciências Sociais na USP da Maria Antônia,no mesmo prédio que quatro anos mais tarde seria destruído no confronto entreuspianos e estudantes do Mackenzie.Nas USP, Mott foi aluno da nata das Ciências Sociais do país: Carlos GuilhermeMotta, Gioconda Mussolini, Eunice Ribeiro Durham, Ruth Cardoso, Maria Isaura
 
Pereira de Queiroz, Eva Blay, Ruy Coelho, Egon Shaden, João Batista Borges Pereirae Luiz Pereira, entre outros. Leu clássicos que marcaram seu pensamento: As Regrasdo Método Sociológico, de Emile Durkheim, Os Parceiros do Rio Bonito, de AntonioCandido, e A Ideologia Alemã, de Karl Marx. Como estudante, ficou preso algumasvezes no DOPS, que reprimia as manifestações estudantis no período.Do lado sexual, seus pensamentos eram povoados de homoerotismo, mas manteverelações com mulheres, motivado tanto pela repressão cristã quanto pelo estigmasocial. A homofobia internalizada fez com que ele buscasse experiênciasclandestinas, no ponto de pegação atrás da biblioteca Mário de Andrade. Acreditavaque a homossexualidade seria uma situação passageira.Antropologia e baianidadeJá na faculdade, Mott interessou-se pela Antropologia. E pelo Nordeste. Ganhou oapelido de "Luiz da Bahia", devido às viagens constantes que fazia para lá.Conseguiu uma bolsa de iniciação científica da Fapesp e foi para Sergipe estudarfeiras rurais, sob a orientação de Eunice Durham.Terminada a graduação, ganha outra bolsa e vai fazer mestrado em Antropologia naFrança. Muda-se do Sumaré, bairro de classe média alta de São Paulo, para a CitéUniversitaire, no Boulevard Jourdan, no XIVème arrondissement. De mobilete, andapela cidade luz, visita museus, conhece mais sobre arte e história. E passa a teruma vivência homossexual mais livre. No entanto, ainda sob o jugo da herançamachista e homofóbica, casa-se com uma mulher, uma antropóloga que pesquisaumbanda.Após cinco anos de um casamento aparentemente tranquilo, apaixona-se por um homeme decide não mais viver na ambiguidade. Começa a ler mais sobre o tema e,finalmente, assume-se como gay, após protelar por alguns meses, com medo que aentão esposa - que terminava de escrever sua dissertação - pudesse ter seutrabalho prejudicado por questões emocionais. Só se revelou após a conclusão domestrado de sua ex-mulher.Logo depois de sair do armário, escreveu o artigo A Homossexualidade no BrasilColonial entre os Índios do Brasil, utilizando material sobre a Inquisição. Otexto foi publicado na revista Lampião.Após viver um relacionamento com outro homem por um ano, mudou-se para Salvador.Passou a vernder antiguidades, desfez-se de coisas acumaladas e passou a trabalharcomo professor visitante na Universidade Federal da Bahia. Na época, final dosanos 1970, estavam sendo fundados os grupos Somos em São Paulo, Rio de Janeiro eSorocaba. E assim, em 1979, Mott publica um anúncio no Lampião: "Bichas baianas,rodem a baiana... tudo bem! Mas deixem de ser alienadas. Vamos fundar um grupo dediscussão sobre homossexualidade... me escrevam!". Nascia o Grupo Gay da Bahia(GGB), o mais antigo grupo de militância LGBT em atividade no Brasil.O Grupo Gay da BahiaA primeira reunião do grupo acabou acontecendo no ano seguinte, no dia 29 defevereiro de 1980. Dezessete pessoas se reuniram, numa noite de sábado, noapartamento de Mott - a maioria anarquista, jornalista ou professor. As primeirasreuniões foram todas nessa casa. Depois, passaram a se encontrar em um espaço deanarquista, no centro de Salvador. As reuniões eram sempre aos domingos.Um dos primeiros documentos do GGB foi o panfleto A todos os homossexuais daBahia, mas com medo da repressão, não constava o nome do grupo. O Grupo Gay daBahia, através do jornal Lampião, desde que foi fundado estabeleceu contato com os
 
grupos do sul. Na Semana Santa de 1980, ocorreu o I Encontro Brasileiro deHomossexuais em São Paulo. O GGB não participou porque, fundado pouco tempo antes,não dispunha de recursos financeiros para enviar representantes. Mas Mott recebeue guarda até hoje material desse encontro.Ainda na década de 1980 conseguem ter sede própria, na Praça Castro Alves, ondefuncionou por oito anos. As reuniões ocorriam três vezes por semana: às quartas,sextas e domingos. Em 1989, o GGB compra um andar na Rua do Sodré. Lá montam oCentro Cultural Triângulo Rosa. O GGB passou a ter mais espaço, com um local parafazer exposições.Capitaneado por Mott, o GGB tomou partido em várias frentes. A primeira campanhafoi contra o parágrafo 302.0 da Classificação Internacional de Doenças, daOrganização Mundial de Saúde , que considerava o "homossexualismo" como desvio etranstorno sexual. Conseguiu, em 1981, dezesseis mil assinaturas, assim como oapoio de Franco Montoro, Ulisses Guimarães e Darcy Ribeiro. A modificação da CID,no entanto, só veio a ocorrer em 1994. Em 1985, porém, o GGB batalhou para que oConselho Federal de Medicina deixasse de considerar a homossexualidade comodoença. E conseguiu! Além disso, pelas contas de Mott, o grupo também já conseguiuque aproximadamente uma centena de leis orgânicas municipais e duas constituiçõesestaduais incluíssem dispositivos de combate à discriminação por orientaçãosexual.Ressalte-se, também, que o GGB foi um dos primeiros grupos do Brasil a trabalharcom a prevenção às DST/AIDS. Mas foi sobretudo na área de combate à violência queo grupo se destacou.O mapa da homofobiaComo é de conhecimento, a violência contra gays, lésbicas, bissexuais, travestis etransexuais no Brasil atinge níveis epidêmicos. No entanto, a falta de dadosoficiais, misturados com o preconceito e a discriminação fazem com que dados demorbidade e mortalidade relacionados à orientação sexual ou identidade de gênerosejam subnotificados. A lacuna estatística, por sua vez, impede em larga medida aconcepção e implementação de políticas públicas focadas no combate à violênciacontra LGBT.A ausência de informações oficiais levou o GGB a realizar anualmente levantamentosa partir do noticiário da imprensa sobre a violência homofóbica. Ainda que essemétodo não seja 100% preciso, devido aos mecanismos institucionalizados deprodução da notícia, os dados computados pelo grupo são utilizados por gestorespúblicos e serviram de base para a elaboração do programa Brasil sem Homofobia.Segundo Mott: "Em 2007 foram assassinados 122 homossexuais no Brasil, 30% a maisdo que no ano anterior. Um assassinato a cada três dias. O número verdadeiro deveser muito maior, pois além de faltar informações sobre quatro Estados - Rio Grandedo Sul, Amapá, Rondônia e Roraima -, tais dados baseiam-se em notícias de jornal einternet, já que não existem estatísticas governamentais contra crimes de ódio noBrasil. Tal Relatório, embora certamente incompleto e lacunoso, é o principaldocumento mundial sobre crimes homofóbicos, seus dados são citados tanto pelaSecretaria Nacional de Direitos Humanos quanto pelo Departamento de Estados dosEUA.Apesar do grupo ter surgido em 1980, o levantamento remonta a 1963,correspondendo, portanto, a mais de quatro décadas. De 1963 a 2007 foramdocumentados 2802 assassinatos de gays, travestis e lésbicas no Brasil,concentrando-se 18% na década de 80, 45% nos anos 90 e 35% (972 casos) a partir de2000.
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