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corporaçoes de oficio e o tarot

corporaçoes de oficio e o tarot

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07/27/2013

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A motivação principal para a criação deste ensaio deveu-se à tradução que realizei dosfolhetos que acompanham os baralhos de Jean Noblet e de Jean Dodal restaurados porJean-Claude Flornoy. Em ambos os textos, me deparava com a história das
corporações deofício
e as comparações que Jean-Claude fazia com estas e o Tarô e fui percebendo quemeu entendimento era praticamente nulo... Aos poucos com a ajuda de Roxanne Flornoy, atradução de outros textos e as leituras de diferentes fontes, a questão das corporações deofício, como elas funcionavam, seus objetivos e a possível relação delas com o Tarô tornou-se mais clara. Talvez as mesmas dificuldades que enfrentei outros leitores brasileirostambém tenham. Desta forma, divido os passos que trilhei com a esperança que esteensaio ajude na compreensão daqueles que se interessam pelo Tarô, seus símbolos e suahistória.
O Tarô e as Guildas Medievais das Corporações de Ofício
Para desenvolver sua abordagem sobre o Tarô Jean-Claude Flornoy centrou-se sobre aestrutura dos
Companheiros do Dever 
(
Compagnons du Devoir 
) e a espiritualidade medievalintrínseca neles.Os
Compagnons
eram pessoas que passavam por um rigoroso treinamento na estrutura da
Compagnonnage
, com o intuito de serem reconhecidos como especialistas na sua área deatuação. Na França, a organização dos ofícios sob o Antigo Regime estava construída emtorno de corporações com três estágios: aprendiz, companheiro e mestre. Estasorganizações darão origem mais tarde às agremiações maçônicas (DOUCET, 2001).Esses graus de ascenção que um
Companheiro/Compagnon
passa durante seu período deaprendizado e aperfeiçoamento, J-C Flornoy utiliza-os na sua proposta de estrutura dostrunfos do Tarô, por ele chamado de
Caminho de Vida
. Ou seja, são parte das cinco fases daperegrinação da alma:infância,
aprendizagem
,
companheirismo
 ,
 
mestria
e
sabedoria
.
 
Parte da espiritualidade dos Compagnons que chegou até nós refere-se ao trabalho dosentalhadores de pedra, que estavam envolvidos nas construções das catedrais. Suasconstruções tinham a função de sintonizar as energias telúricas da Terra e beneficiar aspessoas que frequentassem estes lugares.
“O conhecimento oculto está, por assim dizer, imbuído arquitetonicamente na
pedra, [...] nas esculturas, na estrutura geral e na magia dos vitrais. Todacatedral transpira mensagens sagradas e ocultas em pedra e vidro. O
conhecimento está sempre presente, visível e ao mesmo tempo oculto.” Sonja
Klug in
Catedral de Chartres
, Ed. Madras, 2002.Além deste aspecto, em termos de religiosidade, havia também a criação de imagens, quenão só os entalhadores de pedras nos deixaram suas obras, mas os xilogravuristas(entalhadores da madeira) e os ilustradores em papel. As formas de encarar o divino e osensinamentos morais e/ou teológicos eram transmitidos através da sucessão de imagens.Fulcanelli em
 As Moradas dos Filósofos
também desenvolve essa ideia.Flornoy constrói sua hipótese para aorigem do tarô através da relação entreas imagens dos 22 trunfos do Tarô, comas imagens criadas para as catedrais ecom a cultura trovadoresca da IdadeMédia.Os Companheiros de Ofício eramdivididos através da atividade que cadasegmento realizava. Primeiramente, osentalhadores de madeira faziam parteda corporação dos carpinteiros; os escultores (joias, armaduras e metais)
 –
considerados declasse mais elevada
 –
pertenciam à associação dos ourives ou prateiros. Já os ilustradoresnão podiam participar da associação dos ourives e também estavam em uma posição maiselevada que os entalhadores. Com a ascenção do papel, através dos árabes, há a união dashabilidades do ilustrador com a do gravador/entalhador. A partir de 1400, novascorporações de impressores são criadas. O ilustrador, no topo, dirigia a corporação e fazia
 
os desenhos. O entalhador/gravador que cortava moldava os blocos e os trabalhadores queimprimiam e coloriam as gravuras por último (HIND, Arthur.
 An introduction to a History of Woodcut 
. Vol. 1, 1963 (pg. 79-89). Como visto em: Tarô dos Santos de Robert Place, 2003(pg. 32 e 33)).Considerando-se os fatos acima, pode-se afirmar que, possivelmente, o conhecimento maisprofundo e tradicional (se ele existiu realmente) fosse gestado e transmitido no seio destesprofissionais, também conhecidos como imagineiros ou santeiros medievais.Dependiam de associar-se com um mestre
cartier 
(feitor de cartas)
 –
um editor responsávelpela produção e distribuição das cartas. O primeiro passo para se ter um conjunto de cartasque transmitisse uma mensagem mais sutil (ou oculta) dependia da sensibilidade deste
cartier 
.
Conclusão
A proposta de organização dos trunfos baseada na evolução de um
compagnon
, apesar deseus méritos, não é tão importante, pois é mais uma forma de organização lógica dostrunfos. Existem tantas dessas organizações quanto existem comentaristas do Tarô. Aquinão há erros, nem exageros, só interpretações.Porém, o mais importante reside na hipótese da origem ou da evolução do Tarô. Mesmoque as imagens do Tarô não tenham surgido através das guildas de companheiros, talveztenha sido no seio destas corporações que a simbologia e a ordem do Tarô tenha sesolidificado, ganhando a forma dos Tarôs clássicos que chegaram até nós, onde o Tarô deMarselha se destaca. Lembrando que entre os baralhos mais antigos que conhecemos(pintados à mão) e a tradicional iconicidade dos Tarôs ditos de Marselha há uma diferençade mais ou menos 200 anos. Neste período, o número de cartas, a ordem das mesmas e osseus símbolos mudaram diversas vezes.É uma hipótese honesta, pois trabalha com evidências históricas documentadas e maispróximas da nossa cultura e do nosso modo de encarar o mundo. As teorias que empurramo surgimento do Tarô para tempos e culturas mais distantes que a Europa cristã e medieval(apesar de não serem possibilidades totalmente descartáveis) estão, como diz FriedrichDoucet, transferindo um problema.A peculiar espiritualidade destas corporações provavelmente foi desenvolvida em conjuntocom sua prática profissional. A busca pela excelência e pelo reconhecimento do bomtrabalho era, provavelmente, acompanhada pelo direcionamento espiritual do trabalhador.

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