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COMO ADMINISTRAR NA CRISE
 
1. Em sua opinião quais as diferenças entre a crise de 1929 e a atual?
 
[Siqueira] Ambas tem uma origem semelhante. Se observarmos apenas o aspectofinanceiro que ocorreu com a expansão da produção em desequilíbrio com os recursosmonetários disponíveis. A grande diferença é que a de 29 começa com uma grave crise na estocagem dealimentos, financiados com garantia de hipoteca, e a atual decorre da liberação decréditos a custo muito baixo, também garantido por hipotecas, motivando a acumulaçãode imóveis com preços acima da realidade de mercado. A crise atual tem umcomponente a mais pela quantidade enorme de títulos lastreados nos referidos imóveisque ficaram sem liquidez e eram utilizados na composição de fundos distribuídos emgrande quantidade de países.Outro componente da crise de 29, após a quebra da Bolsa de Nova York, em funçãoda seca em grandes extensões dos EUA. Esse desequilíbrio provocou a migração degrande massa de trabalhadores, que se sujeitavam a salários muito baixos eeram incapazes de consumir o que havia sido produzido. A crise atual é típica do capitalismo moderno, com foco exclusivamente financeiro. Nãohá um lastro compatível com a riqueza gerada (em função, principalmente, da elevada econtínua inflação dos preços). Ela é uma novidade para o Mundo. A velocidadedas transações nas diversas bolsas em vários continentes – de forma instantânea – traz um componente novo.Há muitas coisas a serem analisadas como: crise de energia (inclusive da recente e fortequeda no preço do petróleo); situação em Gaza e posse do novo Presidente nos EUA;reordenamento dos países desenvolvidos; aumento da importância dos emergentes nocontexto global; cataclismas naturais, isso para ficar apenas em alguns itens.
2. O economista Joseph Stiglitz, prêmio Nobel de economia, diz que o Brasilnão está imune à crise e alerta para um cenário de créditos escassos. Isso jáestá acontecendo? Caso afirmativo quais as conseqüências imediatas e futuras?
[Siqueira] Ele está correto! Os economistas gostam de falar sobre o futuro. Como sãovárias as afirmações é evidente que “algumas delas estarão certas”. Não há como prever o desdobramento da crise atual; até porque não há modelos anteriores para seremanalisados e projetados. E nem seria possível, ainda que houvesse esse modelo, se
 
reproduzir todas as novas condições e variáveis para que houvesse os mesmosresultados, na “adoção de uma mesma política”. A Economia não é uma ciência exata! Aevolução da economia é baseada, muito mais, no acaso do que em regras matemáticas.Depende da forma que cada agente econômico interpreta e, portanto, reage diante dasituação. São milhões de possibilidades! O que torna impraticável a elaboração dealgoritmo adequado para sua projeção. Há grande possibilidade de que haverá resultadosmenos críticos se os principais agentes agirem com otimismo diante das decisões quetiverem de tomar. Aparentemente, até em função da mídia global, há uma tendência para “o quanto pior melhor, maior a venda de notícias geradas”. Mesmo porque os próprios jornais estão em crise diante das notícias virtuais. A grande crise que há, emminha opinião, é de otimismo além de avaliação mais próxima da realidade em cadacaso. Será desastrosa a decisão de restrição do crédito, especialmente àquele destinadoa produção agrícola, geradora natural de riquezas reais. É o Capitalismo dando “um tirona cabeça”, visando a normalização futura do mercado com base na escassez.É nessa esteira que o Brasil pode sofrer conseqüências com a crise. Mesmo em algunsestados, que como o Paraná, tenha sua produção agrícola baseada emCooperativas, fortalecidas e com recursos para financiar uma parte da produção de seuscooperados.Um dos grandes erros de avaliação da crise é a utilização de métricas exclusivamentefinanceiras. A economia é algo muito maior que apenas finanças. Infelizmente, ao que parece, a grande maioria das pessoas se esqueceu do que é, de fato, Economia. Umaciência que abrange o Homem, a Natureza e a Moeda, em especial. Analisar as situaçõesapenas pelo viés financeiro será a continuidade do desastre.Uma possível conseqüência futura ao Brasil, caso haja restrição exagerada do créditoagropastoril, será a inflação, gerada pela redução de bens disponíveis com conseqüenteaumento de preços e sem recursos ao consumo, visto que a massa dos salários tambémseria reduzida.Neste momento venho observando que as demissões em parte das indústrias vem se processando como uma higienização dos salários; ou seja: cortam-se os maiores saláriosque são substituídos por pessoas com salários de iniciantes. Pode ser um programaválido, caso não haja uma pressão sobre a produção.De qualquer forma, entendo que especular sobre o futuro é fazer um lance de dados,com alguma probabilidade de acerto (e muitas de erro).
 
3. Há um clima propício a acreditar, nos meios empresariais, que o impacto noBrasil não será tão forte. Por que este otimismo?
 
[Siqueira] Vivemos uma crise de ausência de otimismo, mesclada por otimismoexagerado, que levá-lo ao descrédito. Acredito que o “otimismo” possa ser maisfavorável para que as decisões conjuntas dos agentes econômicos sejam acolhidas comum pouco mais de confiança. A situação brasileira é caótica sob o ponto de vista dos investimentos públicos, dentretantas que a mazela pública nos tem proporcionado ao longo de muitos anos. A gangorra na Bolsa de Valores, bem como na taxa cambial, são condições que devemcontinuar até que “o Capital” consiga se reequilibrar com as perdas recentes. A euforiaque toma conta das bolsas no mundo todo apenas revela que grandes capitalistas estãogerando expectativas positivas aos pequenos e médios investidores, para que estesapostem e possivelmente percam suas economias seguidamente. Neste momento asbolsas são o ambiente mais sintomático dessa contínua transferência de recursos. Fixar-se nelas, e tentar entender os mecanismos de altas e baixas sucessivas, geraráansiedade e medo.É interessante observar que – recentemente – vem se dando maior ênfase aosresultados provocados pelo “acaso”. Cito o livro de Nassim Nicholas Taleb, "Iludido pelo Acaso – A influência oculta da sorte nos mercados e na vida" da Ed. Record. É um livroinstigante, especialmente a mim; profissional da área contábil, que tem por hábito medir apenas o que está realizado; como Contador exercito a criatividade de novos cenáriosnos momentos de elaboração de um Orçamento ou Planejamento Societário e Tributário,onde as decisões contábeis serão determinantes sobre a carga a ser suportada naoperação a ser realizada. As Normas Internacionais de Contabilidade, que passam a ser adotadas no Brasil, tem como característica principal revelar a “Essência sobre a Forma”,exigindo que os registros sejam feitos de acordo com a intenção de cada ato ou fatooperacional ou da sociedade. Assim, se um contador ao elaborar as DemonstraçõesFinanceiras de sua empresa adotar um viés muito otimista poderá colocar em risco osinvestidores e financiadores da mesma. Se, ao contrário, adotar um rigor nasinformações, revelando um pessimismo em relação ao futuro, poderá gerar,imediatamente, a descrença dos investidores e a perda de financiadores, causando – defato – um desastre.Portanto, o otimismo percebido nos meios empresariais – assim como o pessimismoobservado na mídia mundial – está baseado exclusivamente nas escolhas que se imagina possíveis de serem feitas. Não há uma lógica, ainda que a “contaminação do otimismo”  possa gerar uma nova realidade mais favorável.
4. O administrador brasileiro e a crise: como garantir a sobrevivência deplanos em médio e longo prazo, em meio a uma crise do capitalismo global?
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