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CARTILHA MATERNAL.doc

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Published by: Manuel De Castro Nunes on Feb 11, 2013
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08/31/2013

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CARTILHA MATERNAL,Instrução Breve e Obrigatória,método seguro para os doudos apenderem a ler e a escrever.Dedicada ao Professor Doutor M. F. P.Prólogo Breve, e dedicatória.SENHOR PROFESSOR,apresento pois a Vossa Senhoria, para que pondere e julgue, este Método Seguro Para Ensinar OsDoudos A Lerem E A Escreverem. Não quero com ele suprir as faltas daqueles que manda ensinarna magistral instituição a cujos desígnios preside; nem substituir o ilustre magistério de VossaSenhoria.Mas se a Vossa Senhoria foi dada a subtil astúcia de saber dar a cada um a sabedoria quelhe convém, eu acho que foi mais habilitado para ensinar os meninos, que têm o ouvido maismaleável para a música e o corpo mais viçoso para a ginástica. E como os doudos chegam aosbancos da escola em idade mais madura, necessário é provê-los de um método mais eficaz, parareger os tis, os travessões, os circunflexos e os hífenes. Sem perderem muito tempo com asmetáforas e outros ramalhetes da retórica. Porque é de uma espécie de antropofagodoudagogia quese trata.E porque para ensinar um perneta a correr, é preciso primeiro, pelo menos, provê-lo deuma prótese; no mínimo de uma muleta.Hoje, como sempre, a Vossa Senhoria dedicado,DAMIÃO.
 
Capítulo primeiro; sobre a origem da língua, das palavras e das letras e algumas consideraçõessobre a doudice; a didáctica aplicada às letras e aos doudos.A primeira coisa que se deve saber, para se poder escrever e ler como convém, é de ondevêm as letras, as palavras e a língua. E é coisa muito árdua.Pensar-se-ia então que aos doudos se deve dispensar de exrcício tão violento, como é o desaber se tal vocábulo, tal signo, tal inflexão ou mesmo uma linguagem inteira vem do Latim ou doGrego, do Semítico ou do Camítico, do Rúnico, do Sínico, Nipónico, Índico, ou do Ibérico; ou se éArábigo.Mas devo advertir que a doudice é a habilitação conveniente à decifração destes mistériosdas ciências filológicas, pois a própria origem da doudice é obscura e penumbrenta; e todo o doudoconhece, da sua paciência clínica, ciências muito afins, como a decifrão dos sonhos, acriptografologia e outras artes de descodificação das charadas.Todo o doudo deve saber então que a língua portuguesa é uma mistura do latim com ogrego, o semítico numa proporção discreta de bíblico e de rabínico e o arábigo em partes iguais eequidistantes; que posteriormente ainda se enriqueceu com algumas entoações bantus e interjeiçõesbosquímanes, da Indonésia e da Melanésia.Mas porque nem todos aceitam esta simetria, é que há tantas variedades no falar; porqueuns estão mais afeiçoados ao latim, outros ao semítico, outros ao sortilégio gutural e monossílabo dobosquímane e outros ainda ao tom de rabulice do arábigo. Um puxa para o grego, outro para ocananeu, congresso traz congresso e a língua portuguesa parece uma doudice, sem rei nem roque.Por isso o que é conveniente, porque reduz o problema, é convir em que todas as línguasderivam do cananeu bíblico, tal qual o falava Moisés, que descende em linha directa do Babilónicoantes da diferenciação dos falares.E há quem diga que a doudice foi criada então, porque houve alguns em quem a fala não sediferenciou e ficaram a falar todas as línguas ao mesmo tempo, uma sílaba em latim e outra emfenício, uma consoante arábiga e uma vogal helénica. E há investigações recentes que comprovam,sem refutação, que existem algumas moedas hispano-romano-púnico-cananeias que denunciamestas astúcias. Um doudo é um monumento filológico.É por isto que a arte de saber ler e escrever se deve ensinar aos doudos servindo-nos dedois métodos, convém saber: o primeiro é que aos doudos não se deve dizer que há só uma maneirade escrever, mas que muitas, tantas quantas as diversidades criativas das suas astúciasfilológicas. Por exemplo, a palavra portuguesa docência, vem de dois verbos latinos docere e duceree sei lá de quantos outros gregos e fenícios; por conseguinte pode escrever-se ducência, docência eainda, por equidade, doucência. Mas poder-se-ia dizer que vem, sem atalhos, do léxico grego doxa,que quer dizer a opinião do vulgo, quase aquilo a que chamamos hoje doudice. E então escrever-se-ia, com toda a legitimidade doxência. Ou estultícia.E o segundo é que aos doudos não se deve sobrecarregar com muita gramática e o queinteressa é que saibam distinguir um sinal de trânsito, ou o emblema de um partido, de umametáfora do Vieira e do pé de um verso de um vilancete; uma lírica epístola amorosa, de umapetição ou requerimento e todas estas de uma receita de cozinha ou rol de mercearia. Um poema,do boletim de voto para as eleições autárquicas e a insígnia dos sociais democratas da doscomunistas. Porque aí é que a porca torce o rabo.E que saibam falar por sinais e ler no movimento dos lábios, para poderem coloquear comos moucos, os gagos e os surdos.E quanto à caligrafia, de que tratarei já no seguinte capítulo, tanto faz que escrevam daesquerda para a direita ou da direita para a esquerda, de cima para baixo ou de baixo para cima,conforme à natureza ou ao jeito de cada um; porque contrariar uma inclinação estética é ainda piordo que emendar um feitio físico, um pé torto ou uma corcunda.Continua no próximo número e segundo capítulo.
 
Capítulo segundo e trata do estilo no traçar das letras e algarismos, do tamanho das maiúsculas edas minúsculas; e porque razão a este assunto se não deve chamar caligráfico.Chamava-se antigamente à arte de traçar as letras a caligrafia; e àqueles que as traçavam,calígrafos. E era uma arte muito estimada e ofícios disputados à paulada e bofetões.Era a arte que primeiro se ensinava aos meninos. Logo que aprendiam a pronunciarmãmã, começavam a rabiscar os mm; quando diziam papá ficavam habilitados a usar três letras, asaber m, p e a. E davam-se umas noções de tis, circunflexos, graves e agudos, assuntos que podiamentrar logo em conjunção com as primeiras cantorias e pifaradas.E era porque então se investia muito na estética, na harmonia e no aspecto exterior detodas as coisas. Quero dizer que era muito importante para os pais, os avós e os tios, poderemapresentar meninos bem adestrados, com um falar harmónico, uma postura elegante edesempoeirada e capazes de oferecer, a qualquer visita eventual, uma flor com um monumentocaligráfico preso por um cordel ou fita de setim. Os meninos e os cachorrinhos de estimaçãodisputavam a primazia na ribalta permanente que eram os serões, os casamentos, os baptizados, osbailes de apresentação das raparigas casadoiras e as consoadas.De resto, a presença de um doudo, de um ceguinho a incomodar com umas rabecadas, ou aadivinhar o que os circunstantes escondiam nos bolsos, de um menino perneta, ou de um cãotinhoso, era sempre um ritual indeclinável de esconjura, que transmitia a todos a serena sensaçãodo privilégio de uma vida ponderada.E caligrafia quer dizer isso mesmo, a beleza, a harmonia e os artefícios no exercício dotraçar das letras e até dos algarismos; cujos critérios são sempre subjectivos e dependem dasinclinações estéticas de cada um. Por isso há uma caligrafia gótica, uma maneirista, uma barroca eaté uma abstracta e uma rococó.A caligrafia é um sinal exterior de distinção. E de exclusão, porque um canhoto, ummaneta ou outro estropiado, não podem nunca rabiscar com o desempeno de um menino perfeito,bem nutrido e rubicundo. E há ainda os tremulentos, ou porque são dados a pânicos e ânsias, ouporque sofrem de alguma enfermidade, como seja aquela a que vulgarmente chamam a coreia.E hoje se pugna por um ensino mais igualitário, que desvaneça as assimetrias mesmoformais entre os cidadãos e confira a cada um os meios de se integrarem até nos círculos maisprosélitos. E já não se vê com bons olhos que um cego, um coxo ou um doudo animem umaromaria, um grupo de beberrões numa taberna, ou um concurso de meninas no Casino do Estoril.E acresce ainda que essa distinção que se conferia aos meninos mais favorecidos, quer danatureza, quer de seus pais, lhes custava muitas vezes grandes sacrifícios e agonias; eu conheçomuitos cavalheiros, hoje muito bem colocados e distintos calígrafos, cujas mãos e alguns tiques sãobem a marca de muitas barbaridades, que se cometiam para lhes endireitar a escrita, florear asmaiúsculas, corrigir a postura e endireitar as costas, provê-los enfim de gestos largos elegantes eritmados no escrever, que são sempre sintomas de liberalidade, benevolência e cortesia no pensar eagir.Pensará o leitor que deriva do que disse que o vocábulo caligrafia se deveria substituir porequigrafia, mormente tendo em atenção aos doudos. Tratar-se-ia de os prover de um meio de seequalizarem a todos os outros cidadãos, inculcando em todos o gosto por uma traça sóbria euniforme dos caracteres, reduzidos à sua mais pristina forma e feitio.Bem pelo contrário. E os que assim pensam, ou por não lhes chegar a mais o pensamento,ou por desejarem que assim seja, investem de facto numa ilusão. Porque não como auniformidade para exibir as diferenças e pôr cruamente a nu as limitações e o génio de cada um.O sistema que decorre geometricamente de tudo o que expus é a anarcografia, que querdizer, mais coisa, menos coisa, a escrita sem mestre. E tenha-se em conta que da escrita sem mestrenão decorre apenas que cada um escreve conforme ao seu feitio, mas também conforme àdisposição do momento.É o sistema mais expressivo de escrita e aproxima-se muito da caligrafia abstracta, ougestual, pelo que não é propriamente uma novidade, mas uma reincidência ou redundância. Só queagora não é mais a estética que, tirana, dita o critério das traças, mas o coração e a gana.Junte-se a isto que este sistema se intromete ainda com a ortografia, de que tratarei noseguinte capítulo e número e de um relance imagine-se já um gestualismo estrutural, tanto naescrita como nos falares, que é a doutrina sobre que incide todo este método.Ficam com este sistema os doudos habilitados a escrever como melhor lhes convenha e semque nada os distinga, com a cor e traça que melhor se ajuste às suas manias, tiques ou crenças, daesquerda para a direita ou da direita para a esquerda, de baixo para cima ou de cima para baixo,

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