2Com o respeito devido, Patas-Fortes o reverenciou. Embora velho e ferido, o caribumantinha o porte altivo, mantendo a cabeça ereta e o olhar distante, como se ignorasse a presençade lobo. — Por que não me olha nos olhos, caribu? — Porque não o vejo.Era verdade. No lugar dos olhos do grande cervídeo havia dois buracos escuros. — Eu serei honrado em extinguir sua dor. Seja meu alimento, porque tenho fome. — Será uma grande honra para mim também, predador. Mas não quero ser o causador desua desgraça? — Por que diz isso? Não há desgraça maior para um lobo que morrer à míngua. — Certamente há. Se comer de minha carne, cairá na escuridão como eu. E nada pode ser pior que um caçador cego.Patas-Fortes ponderou por um instante. — O que devo fazer, então? — É simples. Basta trazer meus olhos de volta. — Isso é impossível, caribu? — Não, não é. Ao sul, além da tundra há uma grande planície. Depois da planície há afloresta. No meio da floresta há O Olmo, a árvore mais velha do mundo, tão alta que sua copa furouo céu, e cujas raízes jazem no mundo dos mortos. Em um oco do tronco dessa árvore vive o Corvo.Foi ele o ladrão que roubou meus olhos. — Não tenho escolha, então? — Ou isso, ou a míngua.Dito isso, o venerável animal bateu com os cascos no gelo, e uma névoa densa e leitosaergueu-se em toda a ravina. Naquele momento, Patas-Fortes entendeu que aquele não era uma presaqualquer. Era o Avô-Caribu. Ele sabia – como sabiam todos os lobos desde sempre – que não se pode negar um pedido do Avô-Caribu. Se contrariado, não haveria caça para os lobos por tantosverões quantas fossem as estrelas do céu. Sem escolha, o lobo partiu.
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Realmente interessante... Gostei bastante... A narrativa é realmente boa...