• Embed Doc
  • Readcast
  • Collections
  • 1
    CommentGo Back
 
 
http://www.flickr.com/photos/peupleloup/3025048809/sizes/o
 
O ladrão de olhosO ladrão de olhosO ladrão de olhosO ladrão de olhos
Volmar Camargo Junior
v.camargo.junior@gmail.com
Patas-Fortes era um lobo jovem e solitário. Escolheu exilar-se de sua família para não ter decompetir com o pai pela liderança da alcatéia. Nos últimos dias de um outono estranhamente curto,assolado por ventos sussurrantes vindos do Oeste, Patas-Fortes avistou à distância um caribudesgarrado. A caça fugiu dele por muitos dias até o limite de sua exaustão. Levou sua presa a cair em uma ravina, de maneira que nem por um milagre escaparia.
 
 2Com o respeito devido, Patas-Fortes o reverenciou. Embora velho e ferido, o caribumantinha o porte altivo, mantendo a cabeça ereta e o olhar distante, como se ignorasse a presençade lobo. — Por que não me olha nos olhos, caribu? — Porque não o vejo.Era verdade. No lugar dos olhos do grande cervídeo havia dois buracos escuros. — Eu serei honrado em extinguir sua dor. Seja meu alimento, porque tenho fome. — Será uma grande honra para mim também, predador. Mas não quero ser o causador desua desgraça? — Por que diz isso? Não há desgraça maior para um lobo que morrer à míngua. — Certamente há. Se comer de minha carne, cairá na escuridão como eu. E nada pode ser  pior que um caçador cego.Patas-Fortes ponderou por um instante. — O que devo fazer, então? — É simples. Basta trazer meus olhos de volta. — Isso é impossível, caribu? — Não, não é. Ao sul, além da tundra há uma grande planície. Depois da planície há afloresta. No meio da floresta há O Olmo, a árvore mais velha do mundo, tão alta que sua copa furouo céu, e cujas raízes jazem no mundo dos mortos. Em um oco do tronco dessa árvore vive o Corvo.Foi ele o ladrão que roubou meus olhos. — Não tenho escolha, então? — Ou isso, ou a míngua.Dito isso, o venerável animal bateu com os cascos no gelo, e uma névoa densa e leitosaergueu-se em toda a ravina. Naquele momento, Patas-Fortes entendeu que aquele não era uma presaqualquer. Era o Avô-Caribu. Ele sabia – como sabiam todos os lobos desde sempre – que não se pode negar um pedido do Avô-Caribu. Se contrariado, não haveria caça para os lobos por tantosverões quantas fossem as estrelas do céu. Sem escolha, o lobo partiu.
 
 3O disco do Sol, cada vez que completava sua volta, ocultava-se mais e mais atrás dohorizonte. Estava ficando escuro. O mundo começava a vestir seu luto pelo Verão. Patas-Fortescorreu como louco para vencer a tundra. Sua fome era tanta que sentia suas entranhas devorarem-no. Quando o azul do céu despediu-se definitivamente, o jovem lupino pisou na planície.Diante do deserto imenso, o lobo sentiu pela primeira vez a solidão. Para espantá-la, Patas-Fortes uivou tão alto quanto podia.Então, uma surpresa. Vindo de muito além da vastidão cinzenta, ouviu a resposta ao seuuivo. Era também um lamento, mas, de alguma forma, havia naquele outro uivo uma gota degratidão. Precisava chegar à floresta. Precisava reaver os olhos do Avô-Caribu. E a partir daqueleinstante, precisava também encontrar o dono daquele uivo longínquo.Em sua enorme agitação, não percebeu que o mundo estava mudando. O céu ficava cada vezmais baixo, o ar mais pesado e duro. O seu trote rugia mais alto aos seus ouvidos que o vento. Foi por isso que, quando a nevasca tomou a planície, o lobo foi surpreendido. O Inverno havia chegadodefinitivamente. O jovem lobo foi sendo aos poucos vencido pela neve, pelo isolamento e pelafome. Perdeu a consciência.Algum tempo depois, seu corpo foi invadido por uma onda de calor aconchegante. Mesmode olhos fechados, percebeu a claridade amarela e quente que o rodeava. Havia um cheiro primaveril de terra, e em sua língua o adocicado sabor de tutano. — Devo ter morrido.Uma voz antiga e afetuosa soprou em seus ouvidos. — Ainda não, lobo. Aqui não é a morte para você. — Quem é? Onde estou? — Aqui é para onde venho quando Inverno chega. Oh, sim. Eu sou Urso. — Por que me trouxe para cá?
of 00

Leave a Comment

You must be to leave a comment.
Submit
Characters: ...

Realmente interessante... Gostei bastante... A narrativa é realmente boa...

You must be to leave a comment.
Submit
Characters: ...