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O troféuO troféuO troféuO troféu
Volmar Camargo Junior
v.camargo.junior@gmail.com
Era manhã nevoenta do mês de Paucar Varay, anunciando o início do outono e a proximidade do Festival do Ramo de Flores. Os despojos da batalha cobriam a planície. Diante docampo de soldados abatidos estavam os muros da última cidade do povo que chamava a si mesmo
unancha
. Os guerreiros vitoriosos do exército do Tawantinsuyu levantaram-se para glorificar Inti, oDeus-Sol, pelo sucesso no embate. Na Terra, o homem que os comandara com presteza na investida
 
 2rápida e brutal – o jovem sinchi Huamán Acachi – preparava-se para concluir o que havia começadona noite anterior.
 
A população resumiu-se a um pequeno grupo, mulheres e homens ou muito velhos, ou jovens demais. Assim que os raios do Sol transpuseram os muros, os vencidos, armados com aquilode que dispunham, estacaram entre o general e seu objetivo. Atrás deles estava a entrada da huaca – o majestoso mausoléu de seus antepassados. Todos sabiam que mesmo derrotado o inimigo,conquistado seu território e dominado o povo, faltava ao Imperador Inca ainda um troféu. Não haveria mais mortes. A vila estava tomada, e sangue desnecessário não era do agrado deInti. Em pouco tempo, aquele seria o lar para uma boa família cusquenha. O líder guerreirocaminhou decidido de encontro ao povo, secundado por numeroso batalhão. Era um bom militar,mas não teria chegado à posição de comando apenas pela excelência em manusear armas. Suanotoriedade devia-se à perspicácia e ao talento para a diplomacia. Enquanto caminhava, procurourecordar tudo o que sabia a respeito daquelas gentes.Eram herdeiros distantes do sangue e da cultura Nazca, extinta antes mesmo de MancoCapác emergir das águas do Lago Titicaca. Não eram grandes combatentes, mas sempre souberamdefender-se. Isso, para Huamán Acachi era o ponto mais importante: o comando da cidade não erado guerreiro, mas do sacerdote. Entre aquelas pessoas amedrontadas, não foi difícil identificar umatão singular. A surpresa, para ele, foi concluir que o lugar do curaca, o líder político e religioso daaldeia, era de uma mulher.A sacerdotisa tinha a cabeça e as mãos adornadas com objetos de prata. Trazia ao peito umcolar feito de minúsculas conchas marinhas, donde pendia a insígnia representando o que, para ele,era o primitivo Deus-Jaguar. Era uma matrona forte, habituada igualmente ao serviço campesinocomo aos ofícios de curandeira, parteira, adivinha e conselheira. Sozinha, ofereceria resistência aoimponente sinchi se este resolvesse entrar sem ajuda. Contudo, não aparentava ser hostil ao invasor.Andando até distância favorável, Huamán ordenou que seus homens parassem. Ampla praçaseparava os dois grupos. Sem precisar qualquer aviso, ambos os líderes caminharam um na direçãodo outro. O militar inca começa a falar.
 
 3 — Há mais a ganhar que a perder recebendo aqui o Tawantinsuyu. É uma boa cidade. Nãohá com o que se preocupar, desde que as coisas sejam mantidas em ordem como sempre foi feito,sacerdotisa. — E, em troca, o que deseja o Filho do Deus-Sol? — O Imperador exige aquele que jaz em no interior da huaca. Será a prova de os unanchasão submissos a Ele. — Que será de nós se nos opusermos? — Serão todos levados a Cusco, como escravos. Os homens serão submetidos ao trabalho, eas mulheres à prostituição. As crianças serão educadas em ayllu honrados para servir ao Imperador. — Não temos escolha, então? — Não, sacerdotisa. É a vontade do Tupac Inca Yupanki.A mulher silenciou por um instante. Seu olhar percorreu os rostos apreensivos, sobretudodos anciãos. A eles, devolve a cumplicidade do sentimento. Calados, lentamente os vencidos abremcaminho até a abertura negra da pirâmide de pedra e adobe. Sem olhar para o combatente, diz: — Pode vir agora, general. Mas terá de vir sozinho.Com a cabeça, Huamán sinaliza, certificando-se de que seu imediato estaria de prontidão aqualquer sinal de perigo. Sob a observação pesada dos moradores, o jovem comandante toma umarchote da mão de um menino e adentra no negrume da tumba.A passagem era estreita e tão escura que, mesmo com o archote aceso, era impossível ver mais que o globo de luz e a mão que o segurava. O ar tornava-se rarefeito à medida que desciam. Aluz começou a diminuir até, sem razão aparente, extinguir-se por completo. Huamán abriu a boca
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