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Um Mundo e Poucas Vozes: jornalismo internacional, novas tecnologias edemocratização da comunicação
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Pedro Aguiar  Mestrando em Comunicação e Cultura, ECO/UFRJ 
 
RESUMO:
Trinta anos depois dos debates sobre a Nova Ordem Mundial da Informação eComunicação (NOMIC), as desigualdades nos fluxos globais de informação permanecem,porém num contexto em que a produção e a circulação são facilitadas pelas novastecnologias (NTICs). Este trabalho identifica fatores que contribuem para este aparenteparadoxo e propõe mudanças na práxis jornalística – particularmente na coberturainternacional – que podem permitir aos países em desenvolvimento alcançar os objetivospleiteados pela NOMIC.Há cerca de 30 anos, estava em voga o debate sobre a Nova Ordem Mundial daInformação e Comunicação (NOMIC), uma campanha pela reestruturação global dacomunicação internacional e dos fluxos de informação, nascida no seio do Movimento dosPaíses Não-Alinhados e auspiciada pela Organização das Nações Unidas para a Educação,Ciência e Cultura (UNESCO). Seus principais objetivos eram equilibrar o fluxo de informaçõesentre países pobres e ricos (altamente favorável a estes últimos), ampliar o acesso à produção edistribuição de conteúdo para nações subdesenvolvidas e promover a responsabilidade e a éticano cumprimento das profissões de comunicação – notavelmente no jornalismo. Após algunsanos de discussões controversas e impasses, o projeto da NOMIC foi abandonado e, pelomenos fora do mundo acadêmico, caiu no esquecimento.
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Este texto é uma versão concisa do trabalho de conclusão de graduação do autor pela ECO/UFRJ, defendido em 2007 sob orientação doProf. Dr. Mohammed ElHajji. O texto completo foi publicado pela coleção
Cadernos da Comunicação
, editada pela Secretaria Especialde Comunicação Social da Prefeitura do Rio de Janeiro, sob o nº 20 da série “Estudos”, em 2008.
 
2No entanto, o quarto de século que se passou parece não ter alterado as necessidadesque geraram a demanda por uma nova ordem informativa em nível global, ainda que tenhavisto nascer um conjunto de novas tecnologias para informação e comunicação que – semreceio de hipérboles – revolucionou todos os processos da área, desde a produção, reprodução,transmissão e distribuição até a circulação de informações, notícias e bens culturais. Oparadoxo é que estes mesmos avanços concretizaram potencialmente o cumprimento dasreivindicações feitas pela NOMIC e seus defensores, na medida em que tornaram viável arealização, na prática, de um processo reverso à concentração da mídia, da manipulação deconteúdo informativo e da geração e distribuição deste mesmo conteúdo.O que as Novas Tecnologias de Informação e Comunicação (NTICs) trouxeram foi apossibilidade de integrar diferentes sociedades e seus indivíduos em todo o mundo numa malhade alcance global cuja estrutura é – diferentemente da mídia canônica de natureza corporativaou estatal – descentralizada, desterritorializada, desarborizada e virtualmente ilimitada emtamanho, profundidade e capacidade de armazenamento de informação: em resumo, uma rede.Esta rede – ou, melhor dizendo, no plural “redes” – integra a um mesmo sistema decanais de comunicação diversos atores sociais anteriormente só alcançáveis por filtros eintermediações (técnicas, profissionais ou políticas), geralmente das empresas de comunicaçãoe órgãos estatais responsáveis justamente por selecionar e redistribuir informações, como asagências de notícias e os veículos de mídia. A adoção da forma plural ao longo do trabalhoreflete a visão inclusiva desta pesquisa sobre redes e a ênfase de que este tipo de comunicaçãointegrada é anterior e muito mais abrangente que a mais popular delas – a Internet.
1. O Paradoxo das Redes: mais canais, menos vozes
Tanto contemporâneos aos debates da NOMIC quanto observadores recentesconcordam que a informação objeto de tais discussões é, primordialmente, a informaçãonoticiosa de origem midiática (diferenciada, na literatura anglófona, entre os produtos da
entertainment media
e da
news media
, mais ou menos traduzível como “imprensa”) emdetrimento da informação científica, técnica ou cultural.Nestas mesmas últimas duas décadas, mudanças políticas e socioeconômicas em escalaglobal prejudicaram as iniciativas de controle público ou estatal sobre a comunicação efavoreceram a doutrina liberal do “livre fluxo de informações”. E trabalhos de pesquisa nos
 
3primeiros anos do século XXI apontam para o fato de que a substituição de temas na pauta dasrelações multilaterais – da NOMIC pela “Sociedade da Informação” e pela “Democratização daComunicação” – significou a troca de uma campanha fundamentalmente ideológica e políticapor uma abordagem essencialmente tecnocrática e mercadológica.Tem-se, assim, uma situação em que se deixou de buscar um fluxo igualitário deinformação entre as diversas partes do mundo no mesmo momento em que a própria estruturade comunicação internacional está modificada a ponto de permitir a circulação destasinformações em redes, não mais filtradas pelas agências e veículos de mídia transnacionais – oque permite claramente enxergar o problema da ordem informativa mundial como umproblema de notícias.É neste contexto que o jornalismo tem à sua frente uma ampliação da responsabilidadesocial que já antes deveria exercer: na medida em que aumentou em escala exponencial aacessibilidade a fontes, personagens, pontos de vista e versões para cada informação veiculada,o jornalista tem como executar seu trabalho de forma muito mais compreensiva, abrangente,inclusiva e direta na construção da notícia. Antes excluídos das pautas e apurações sob opretexto de serem inacessíveis dentro da rotina limitada (em tempo e espaço) de produção jornalística, estes atores sociais estão agora plenamente contactáveis pelos profissionais dasredações a partir de praticamente qualquer ponto do planeta, desde que conectado à redetecnologicamente mediada. E, ainda assim, apesar de toda esta facilidade, nas rotinas deprodução da notícia em diferentes mídias eles continuam preteridos pelos meios convencionais,centralizados, corporativos, industriais, enviesados de informação.A integração das redações brasileiras com as redes telemáticas e digitais – sendo a maisfamosa, embora não a única nem primeira, a Internet – multiplicou as possibilidades de pauta eapuração, além de abrir o acesso a fontes de informação alternativas ao fluxo hegemônico. Achamada
World Wide Web
(grosso modo, “teia de alcance mundial”), interface gráfica na qualperiódicos de todo o mundo apresentam seu conteúdo digitalizado e para a qual já existemcentenas (senão milhares) de veículos especialmente construídos, torna acessíveis tanto jornaisinternacionais de grande circulação quanto a imprensa local, sindical e comunitária – para nãocitar os
websites
testemunhais, chamados
weblogs
ou
blogs
, cuja validade como fonte jornalística é ainda discutível.
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