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PRÓLOGO
 Minha prima. — Gostou daminha história, e pede-me um romance;acha que posso fazer alguma coisa nesteramo de literatura.Engana-se; quando se conta aquiloque nos impressionou profundamente, ocoração é que fala; quando se exprimeaquilo que outros sentiram ou podemsentir, fala a memória ou a imaginação.Esta pode errar, pode exagerar-se;o coração é sempre verdadeiro, não dizsenão o que sentiu; e o sentimento,qualquer que ele seja, tem a sua beleza.Assim, não me julgo habilitado aescrever um romance, apesar de já terfeito um com a minha vida.Entretanto, para satisfazê-la, queroaproveitar as minhas horas de trabalhoem copiar e remoçar um velhomanuscrito que encontrei em umarmário desta casa, quando a comprei.Estava abandonado e quase todoestragado pela umidade e pelo cupim,esse roedor eterno, que antes do dilúvio já se havia agarrado à arca de Noé, epôde assim escapar ao cataclisma.Previno-lhe que encontrará cenasque não são comuns atualmente, não ascondene à primeira leitura, antes de veras outras que as explicam.Envio-lhe a primeira parte do meumanuscrito, que eu e Carlota temosdecifrado nos longos serões das nossasnoites de inverno, em que escurece aquiàs cinco horas.Adeus.Minas, 12 de dezembro.
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