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O Que Falar Quer Dizer - Pierre Bourdieu.pdf

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O QUE FALAR QUER DIZER
1
 
Pierre BourdieuSe o sociólogo tem um papel, este seria, antes de tudo, dar armas e nãolições.Vim aqui para participar de uma reflexão e tentar dar aos que têm aexperiência prática de um certo número de problemas pedagógicos, osinstrumentos que a pesquisa propõe para interpretá-los e compreendê-los.Se, no entanto, meu discurso é decepcionante, e às vezes até mesmodeprimente, não é porque eu tenha qualquer prazer em desencorajar; ao contrário.É que o conhecimento das realidades leva ao realismo. Uma das tentações doofício de sociólogo é aquilo que os próprios sociólogos chamaram desocioloqismo, isto é, a tentação de transformar as leis ou as regularidadeshistóricas em leis eternas. Daí a dificuldade que há em comunicar os produtos dapesquisa sociológica. Temos que nos situar constantemente entre dois papéis: deum lado, o de desmancha-prazeres e do outro, o de cúmplice da utopia.Hoje, aqui, gostaria de tomar como ponto de partida de minha reflexão oquestionário que alguns de vocês prepararam para esta reunião. Se tomei esteponto de partida, foi com a preocupação de dar a meu discurso um enraizamentotão concreto quanto possível e evitar (o que me parece uma das condiçõespráticas de toda relação de comunicação verdadeira) que aquele que tem apalavra, que tem o monopólio real da palavra, imponha completamente o arbitráriode sua interrogação, o arbitrário de seus interesses. A consciência do arbitrário daimposição da palavra coloca-se cada vez com mais freqüência, hoje, tanto a quemtem o monopólio do discurso quanto aos que o sofrem. Por que em certas con-dições históricas, em certas situações sociais, ressentimo-nos com angústia oumal estar, desta demonstração de força que está sempre implícita ao se tomar apalavra em situação de autoridade ou, se quisermos, em
situação autorizada,
1
Intervenção no Congresso da AFEF (Associação Francesa dos Docentes de Francês), Limoges,30 de outubro de 1977, publicada em
Le français aujourd'hui,
mao de 1978, 14 esuplemento.
 
 2
sendo o modelo desta situação a situação pedagógica?'Assim, para dissolver, a meus próprios olhos, esta ansiedade, tomei comoponto de partida questões que
realmente
se colocaram a uma parte de vocês eque podem se colocar a todos vocês.As questões giram em torno das relações entre o escrito e o oral e poderiamser formuladas da seguinte maneira: "o oral pode ser ensinado"?Esta questão é uma forma moderna de uma velha interrogação que já seencontrava em Platão: "A excelência pode ser ensinada?" É uma questãoabsolutamente central. Pode-se ensinar alguma coisa? Pode-se ensinar algo quenão se aprende? Pode-se ensinar isto com o que o ensinamos, ou seja, com alinguagem?Este tipo de interrogação não surge em qualquer momento. Se, por exemplo,ela se coloca em tal diálogo de Platão, é, parece-me, porque a questão do ensinose coloca ao ensino quando o ensino é questionado.É porque o ensino está em crise que há uma interrogação crítica sobre o queé ensinar. Em tempos normais, nas fases que podemos chamar de orgânicas, oensino não se interroga sobre si mesmo. Uma das propriedades de um ensinoque funciona bastante bem − ou bastante mal − é de estar seguro de si mesmo,de ter esta espécie de segurança (não é por acaso que se fala de "segurança" apropósito da linguagem) que resulta da certeza de não apenas ser escutado, mascompreendido, certeza que é própria de toda linguagem de autoridade ouautorizada. Esta interrogação não é, portanto, intemporal, ela é histórica. É sobreesta situação histórica que eu gostaria de refletir. Esta situação está ligada a, umestado da relação pedagógica. a um estado das relações entre o sistema deensino e aquilo a que chamamos a sociedade global, isto é, as classes sociais, aum estado da linguagem, a um estado da instituição escolar. Eu gostaria de tentarmostrar que a partir das questões concretas colocadas pelo uso escolar dalinguagem, pode-se colocar ao mesmo tempo as questões mais fundamentais dasociologia da linguagem (ou da sócio-lingüística) e da instituição escolar. Parece-me com efeito que a sócio-lingüística teria escapado mais rapidamente daabstração se tivesse considerado como lugar de reflexão e de constituição esteespaço particular, mas muito exemplar, que é o espaço escolar, se ela tivesseconsiderado como seu objeto este uso muito particular que é o uso escolar dalinguagem.
 
 3
Vou tomar o primeiro conjunto de questões: você acha que se ensina o oral?Que dificuldades você encontra nisso? Você encontra resistências? Você sechoca com a passividade dos alunos?...Imediatamente, me dá vontade de perguntar: ensinar o oral? Mas que oral?Existe algo implícito aí, como em todo discurso oral ou mesmo escrito. Háum conjunto de pressupostos que cada pessoa traz consigo ao colocar estaquestão. Sabendo-se que as estruturas mentais são estruturas sociaisinteriorizadas, temos todas as chances de introduzir, na oposição entre o escrito eo oral, uma oposição totalmente clássica entre o distinto e o vulgar, o científico eo popular, de maneira que o oral tem grandes chances de ganhar toda uma aurapopulista. Ensinar o oral seria assim ensinar esta linguagem que se ensina narua, o que já leva a um paradoxo. Dito de outra forma, será que a questão daprópria natureza da língua ensinada não importa? Ou então, será que este oralque se quer ensinar não é simplesmente algo que já se ensina, e isto de umaforma muito desigual, segundo as instituições escolares? Sabe-se por exemploque as diferentes instâncias do ensino superior ensinam o oral de uma maneiramuito desigual. As instâncias que preparam para a política como Sciences Po,ENA; ensinaram muito mais o oral e lhe dão uma importância muito maior naatribuição de notas do que o ensino que prepara para o magistério, ou para atécnica. Por exemplo, na Polytechnique, faz-se resumos, na ENA, faz-se aquiloque se chama de "grande oral", na verdade é uma conversa de salão exigindo umcerto tipo de relação com a linguagem, um certo tipo de cultura. Não há nada denovo em dizer apenas "ensinar o oral", isto já é muito comum. E este oral pode,portanto, ser o oral da conversa mundana, o oral do colóquio internacional, etc.Assim, perguntar "ensinar o oral?", "que oral ensinar?", não é suficiente. Épreciso perguntar também quem vai definir que oral ensinar. Uma das leis dasócio-lingüística é que a linguagem empregada numa situação particular dependenão apenas, como o pensa a lingüística interna, da competência do locutor nosentido chomskyano do termo, mas também daquilo que chamo de mercadolingüístico. O discurso que produzimos, segundo o modelo que proponho, é uma"resultante" da competência do locutor e do mercado no qual passa seu discurso;o discurso depende em parte (que seria preciso examinar de maneira maisrigorosa) das condições de recepção.Toda situação lingüística funciona, portanto, como um mercado onde o

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