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A DESCONSTRUÇÃO DO ROMANCE
ULISSES 
, DE JAMES JOYCE,NAS TRADUÇÕES BRASILEIRAS
Luiz Gonzaga de Alvarenga*
RESUMO:
Este ensaio pretende demonstrar que a obra
Ulisses
, de James Joyce, aindaestá a esperar uma tradução para o português que faça jus ao original. As duas traduções publicadas no Brasil, como se mostrará, possuem equívocos de versão em número suficiente para justificar esta assertiva.
Palavras-chave:
romance; traduções; publicações.
1 INTRODUÇÃO
O início do século XX foi marcado pelo aparecimento de uma série de textos que setornariam clássicos da literatura mundial. Apenas para citar alguns,
 Em Busca do Tempo Perdido
, de Marcel Proust, e
O Processo
, de Franz Kafka, são exemplos de obras quetransformaram a literatura. Entretanto, uma obra diferente surgiu nesta mesma época, nãoapenas provocando uma verdadeira revolução no meio literário, como viria a redefinir a própriaconcepção de “romance”. A concepção deste gênero literário começou a surgir a partir do século XVII, embora asuas origens mais remotas tenham se originado das histórias cavaleirescas, lendas, canções degesta e novelas que se escreviam nas línguas românicas que estavam a se definir ao longo daIdade Média. Quanto às bases do romance moderno, estas podem ser encontradas nas novelas,cujo tom realista e satírico atingiu o seu auge na obra do italiano Giovanni Boccaccio,
 Decameron
, no século XIV, e nos romances de cavalaria, cujo exemplo maior é
 Dom Quixote
,de 1605, escrita pelo espanhol Miguel de Cervantes. O gênero aumentou sua popularidade, noséculo XIX, com a publicação de folhetins em jornais. A partir daí, autores como AlexandreDumas Filho, Charles Dickens, Victor Hugo e Flaubert, entre outros, tornaram-se bastantefamosos junto ao um público leitor ávido das novidades literárias.
2 UMA REVOLUÇÃO NO ROMANCE
O escritor irlandês James Joyce, ou James Augustine Eloysios Joyce nasceu no dia 2 deFevereiro de 1882, em Rathgar, subúrbio de Dublin, capital da Irlanda. Suas obras literárias sãoas seguintes:
Chamber Music
(Poemas), 1907;
 Dublinenses
(Contos), 1913;
O Retrato do Artista Quando Jovem
(Romance), 1916;
 Exiles
(Teatro), 1918;
Ulisses
(Romance), 1922;
 Pomes Penyeach
(Poemas), 1927;
Collected Poems
(Poemas), 1936;
 Finnegan's Wake
(Romance) 1939;
Stephen Hero
(Romance) 1944. Joyce morreu em 13 de janeiro de 1941.
 ___________________________ *
Ex-p
rofessor de sociologia, filosofia e metodologia na UNIFAN. Membro da Academia Goianiense de Letras.Originalmente publicado em: http://www.germinaliteratura.com.br/literatura_mar2007_luizgalvarenga1.htm.
 
A principal obra de James Joyce é o romance
Ulisses
, uma narrativa contínua que cobre18 horas de um dia (16 de junho de 1904
1
) na vida do judeu-irlandês Leopold Bloom, na cidadede Dublin. A trama da obra divide-se em três partes, com dezoito episódios de densidadedesigual, sendo o enredo calcado sobre a obra
Odisséia
, de Homero, e suas partes ligam-se às partes desta obra, sendo Bloom o anti-herói, em relação ao herói grego Ulisses. Além de Bloom,o personagens importantes da obra: Stephen Dedalus (que surge inicialmente como personagem na obra anterior de Joyce,
 Retrato do Artista Quando Jovem
), Malachi Mulligan eMarion Bloom, a esposa infiel de Leopold Bloom (em contraposição à esposa fiel de Ulisses). Olivro levou sete anos para ser escrito (de 1914 a 1921). Traduzida para o francês, teve a sua primeira publicação feita na França pela escritoranorte-americana Silvia Beach, em 1922, pela Shakespeare and Company. Esta publicação provocou grande celeuma, tendo sido a obra acusada de amoral e pornográfica. Com isto, foi proibida nos EUA, e apenas em 1934 sua publicação foi autorizada neste país.
2
 Revolucionária em sua forma, a obra
Ulisses
desconcertou leitores,
3
em razão de suacomplexidade lingüística. Joyce, poliglota, profundo conhecedor de línguas mortas e de váriosidiomas modernos, como também de história antiga, mitologias, folclore, etc., criou ummonumento literário de difícil leitura, devido ao uso de monólogo interior 
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, como também emrazão das muitas citações eruditas e de uma mistura labiríntica de imitações de estilos. Por exemplo, no episódio: O Gado do Sol, de acordo com Eleni Loukopoulou (
LOUKOPOULOU,2005
), a técnica mostrada neste episódio em nove partes começa “por um prelúdio ao estiloTácito-Salustiano … em seguida pelo estilo do aliterativo inglês arcaico e do monossilábicoanglo-saxão …. pelo estilo de Mandeville … pelo estilo de Mallory em
Morte d’Arthur 
… emseguida pelo estilo das crônicas elisabetanas … em seguida passagens solenes de Milton, Taylor,Hooker, seguidos por um pouco de agitado latim vulgar, ao estilo de Burton e Browne, seguido por uma passagem ao estilo de Bunyan ... depois um pouco do estilo de diário de Pepys-Evelyn... atravessando Defoe-Swift e Steele-Addison-Sterne e Landor-Pater-Newman até finalizar comuma assustadora mixórdia de jargão inglês, inglês de negros escravos, o escocês, o irlandês,gíria de guetos e péssimos versos”. A esta lista, outros especialistas acrescentam os seguintesautores, cujos estilos são imitados por Joyce: Oliver Goldsmith; Edmund Burke; RichardSheridan; Edward Gibbon; Horace Walpole; Charles Lamb; Thomas de Quincey; Walter Savage; Thomas Macauley; Thomas Huxley; Charles Dickens; John Henry Cardinal; JohnRuskin e Thomas Carlyle.
Ulisses
é, igualmente, uma
 
obra cuja extrema dificuldade de tradução foi vivenciada por aqueles que se aventuraram a tal empreendimento.
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Sob certos aspectos, boa parte dela éintraduzível, em razão da grande quantidade de trocadilhos, jogos de palavras, coloquialismos,gírias e de palavras novas criadas por Joyce.
6
 
3 TRADUÇÕES E TRADUTORES
 
Este ensaio não tem por objetivo analisar a complexidade da escrita ficcional de Joyce, nemadentrar a descrição de seus expressivos recursos narrativos. Pretende, isto sim, expor (atédiríamos, desnudar) as traduções nacionais da obra em suas pretensões e presunções quanto àfidelidade ao original.
 
Existem, sabidamente, três traduções do
Ulisses
para o português (Brasil). A traduçãomais antiga deve-se ao escritor, filólogo e tradutor Antônio Houaiss (realizada em cerca de umano), cuja tradução mereceu publicação original pela Editora Civilização Brasileira, em 1966,em uma edição de 960 páginas
7
(atualmente, em sua 14ª. Edição, já agora com a EditoraRecord).
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 Outra tradução, mais recente, teria custado sete anos de esfoos à tradutoraBernardina da Silveira Pinheiro, 83 anos, professora aposentada de literatura da UniversidadeFederal do Rio de Janeiro.
9
Foi publicada pela Editora Objetiva (912 páginas), e encontra-se emsua segunda edição. Uma terceira tradução deve-se a um professor de lingüística daUniversidade do Paraná, Caetano Galindo, e continua inédita. Uma tradução ao português dePortugal é creditada a João Palma Ferreira (1989).
 
4 A RESPEITO DE TRADUÇÕES
 
Toda tradução - e isto o sabem os bons tradutores - exige um compromisso entre afidelidade ao original e a necessidade de adaptar este original à língua que vai recebê-lo. Não é possível verter contextos que se reconhecem no original, mas que o leitor final não sabereconhecer ou identificar. Pode-se dizer que uma tradução, mais que uma simples substituiçãode palavras, torna-se uma “transcriação”, ou seja, um misto de versão, recriação e de ousadiasvocabulares capazes de transcrever as intenções do escritor. Em textos reconhecidamentedifíceis como o
Ulisses
, há necessidade destas transposições e recriações e de ousadias quereflitam a erudição, a linguagem rebuscada, o coloquialismo, em suma, a suprema riqueza dooriginal. E cabe ainda ao tradutor tentar desmentir o que dizem os italianos:
tradutore tradittori
(ou seja, ainda que não o queira, todo tradutor trai o texto original).As traduções de Houaiss e de Bernardina, analisadas no seu todo, refletem abordagensdivergentes e diferentes perspectivas. A segunda procurou tornar (em suas próprias palavras)mais coloquial e acessível o texto joyceano, utilizando um linguajar mais “nativo”. Houaiss, por outro lado, buscou re-inventar o texto, mantendo entretanto (ou até aumentando) o hermetismooriginal.Mas o que faremos aqui não é um simples cotejo de resultados gerais. Pretendemos, istosim, mostrar que muitas palavras de tradução corriqueira e devidamente dicionarizadas sofreramem ambos os textos uma distorção ocasionada pela falta de perspicácia, por desconhecimento ou por puros equívocos com relação ao significado.Naturalmente, os leitores que tiverem maior intimidade com a obra terão mais facilidadeem reconhecer as passagens descritas. Por fim, é opinião deste ensaísta que a tradução que foirealizada por Houaiss, ainda que seja pedante, muitas vezes disparatada e até mesmosimplesmente errada, é, ainda assim, algo melhor do que esta versão mais recente(principalmente no famoso capítulo O gado do Sol). Além disso, é forçoso dizer, a tradução da prof. Bernardina padece dos mesmos defeitos que se encontram na tradução anterior.
 
5 CONFRONTOS
A tradução de Houaiss, por sua anterioridade, serviu de base para o confronto detraduções. Ou seja, a comparação é entre esta tradução e a da prof. Bernardina, e não ocontrário. As passagens comparadas são apenas uma amostra, e não esgotam as passagens mal
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