A senhora Lens fechou os olhos. Arfava. A respiração a enchia de vida exterior. O ar cortado pelascigarras, recém-chegadas do fundo da terra, dividia a madrugada embebida em barulho de mar, tornando-amultíplice em sua lucidez dilacerada. O mar ao longe. Parece aqui. Dentro do quarto. Nos pensamentosrelativos ao momento imediato, imprimiu-se um colorido digressivo. No pio da ave noturna há um desenhoaos pés da freira no colégio; o raio lunar, em que nasce o cântico das contrações, retroage para a primeira varanda ao luar ou a madrugada em que a menina sai à luz vinda do ventre de sua mãe. E como ouvisse dolado de fora céleres os morcegos, ao som da inspiração profunda, ansiou a antiga liberdade. Mãe, mãe! Ambíguas, as lágrimas brilhavam como num reencontro. – Minha filhinha... As reminiscências enviaram aocorpo quieto na cama as praias da adolescência povoada de gaivotas. Quem sou, se pergunta. Mulher,menina; mãe, filha; esposa. Esposa. Bater de asas. O pulsar do colchão de molas havia ateado um rubor vivíssimo às partículas de pó, assim o Verbo no principio, quando fervilham esperanças entre o sabor e oazedume. Permanece, permanece por toda a noite, noite semelhante àquela em que a consciência fez comque ela se acovardasse e decidisse casar, apesar da claridade gloriosa de um dia distante – o primeiro dia doseu primeiro namoro – apenas reconhecido por certa memória imprecisa que ainda consegue vislumbrar aredenção, mas se confunde com as preocupações de segurança material. Ai. Um arrepio na parte de dentrodas coxas. Como foi tola. O que se leva deste mundo? Nada, pensou ao levar os dedos. Então a revelação.Hoje. Espere. O gatinho sobe na cama e se aconchega ao lado dela. Esperaria, se anteciparia até. Através daestreita passagem, escura como a madrugada próxima ao amanhecer e, mesmo antes da aurora, pelo solredimida.Houve um momento em que o mundo se desligou da noite e o primeiro efeito foi a perda do contrastedas estrelas em relação ao céu. Preguiçosamente amanhecendo. Despertará também ela? Logo, a azáfama dospassarinhos. O espaço entre os galos, que se havia comprimido, volta a se deslocar na distância. A proximidade do sol deixa a Natureza em frenesi, introdução do rei no salão de festas após algumas danças.Uma e outra revoada. E outra mais. Fez-se uma daquelas ocasiões especiais em que o minuto que passoupouco apresenta em comum com o atual e o seguinte terá igualmente atributos peculiares, distando uns dosoutros não o período de tempo que os separa, mas todos os séculos culminantes no Juízo. O gato se agita,ergue os olhos para o teto como se visse os pássaros, suas garras chegam a se vergar. Que tristeza, murmura asenhora Lens. Seu espírito é levado para um canto mais sombrio do muro, onde se erguera o fícus no quintalimerso agora no arrebol. Mas logo ensaiará um sorriso, tocada pela súbita expectativa, traduzida pelasprimeiras luzes do dia a tangenciar o monte diante do qual o mar bramia seu misterioso refrão de louvoresmetálicos.
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