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IMAGINAÇAO SOCIAL
bem como as expectativas, muitas vezes latentes e imprecisas, de que essa ruptura seperpetuasse em situação “normal, “não-imaginativa”.Se nos virarmos para as ciências humanas, é fácil verificar que aimaginação, acompanhada pelos adjectivos “social” ou “colectiva”, ganhou tambémterreno no respectivo campo discursivo e que o estudo dos imaginários sociais setornou um tema na moda. As ciências humanas mostravam porém que, contrariamenteaos slogans que pediam “a imaginação ao poder”,
esta sempre tinha estado no poder
. O
paradoxo é apenas aparente. Os slogans exaltavam somente as funçõescriadoras da imaginação e, ao investirem o termo com funçõessimbólicas,concentravam nele as aspirações a uma vida social diferente,
outra
. Os
antropólogos eos sociólogos, os historiadores e os psicólogos começaram a reconhecer, senão adescobrir, as funções múltiplas e complexas que competem ao imaginário na vidacolectiva e, em especial, no exercício do poder. As ciências humanas punhamem destaque o facto de qualquer poder, designadamente o poder político, serodear de representações colectivas. Para tal poder, o domínio do imaginário e dosimbólico é um importante lugar estratégico.Contudo, não era possível insistir nas múltiplas funções do imaginário na vidasocial sem pôr em causa uma certa tradição intelectual. Foi sobretudo na segundametade do século
XIX
que se afirmaram correntes do pensamento que aceitavamcomo evidencias afirmações do gênero: “Não são as idéias que fazem a história. Ahistória verdadeira e real dos homens está para além das representações que estes têmde si próprios e para além das suas crenças, mitos e ilusões”. Tratava-se, pois,de uma tendência cientista e “realista”que pretendia separar na tramahistórica,-nas acções e comportamentos dos agentes sociais, o “verdadeiro” e o “real”daquilo que era “ilusório” e “quimérico”. A operação científica era assimconcebida como uma operação de “desvendamento” e de “desmistificação”.Retrospectivamente, há dois elementos próprios a esta abordagem que chamamem especial a nossa atenção. Em primeiro lugar, a confusão entre a operaçãocientífica propriamente dita e o objecto que ela inconscientemente constrói. Écerto que só há ciência daquilo que está escondido e, neste sentido, toda a ciência é“desvendante”. Todavia, na óptica cientista, a parte “escondida” do imaginário socialnão se encontrava nas estruturas que o organizam, nem nos seus modosdefuncionamento específicos. Por detrás dos imaginários, procura-vam-se os agentessociais, por assim dizer, no seu estado de nudez, despojados das suas máscaras, dassuas roupagens, dos seus sonhos e representações, etc. Ora, a abordagem cientista nãoobservava realmente esses agentes sociais “desnudados”; era ela que osconstruía. Existiriam eles, aliás, fora da finalidade que se propunha a própriaabordagem cientista? É singular, também, que a tendência para reduzir o imaginário aum real deformado se impusesse ao espírito numa época em que a produção deideologias e mitos políticos modernos se tornava particularmente intensa, implicandodesse modo a renovação do imaginário colectivo tradicional, bem como os seus modosde difusão. A construção de objectos como o “homem
real” e os
“grupos sociais
verdadeiros”,
isto é, despojados do seu imaginário, conjuga-va-se perfeitamentecom o sonho colectivo de uma sociedade e de uma história finalmentetransparentes para os homens que as constituem. Esta conjunção, que só a primeiravista pode parecer paradoxal, é particularmente nítida no caso do marxismo, aoqual teremos oportunidade de voltar adiante.
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Arrovani Fonsecaleft a comment
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L. Lothar C. Hein replied: