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Memória-Máquina. CORRÊA, M. D. C. Lugar Comum (2013, n. 37-38, p. 95-111)

Memória-Máquina. CORRÊA, M. D. C. Lugar Comum (2013, n. 37-38, p. 95-111)

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No Brasil contemporâneo, a memória constitui um dos campos privilegiados de combates que, ao colocarem em jogo a totalidade sempre aberta e rompida do tempo, põem-na em xeque como um conceito metafísico inteiramente submetido às formas da identidade, da representação, do psicologismo e da consciência. Excendendo os quadros das definições clássicas e transcendentes de memória – que de Platão a Kant constituíram afirmações limitativas e exclusivas de uma memória desontologizada e impotente –, o presente ensaio engendra a tarefa de constituir um conceito maquínico de memória e estimar, quarenta anos depois da publicação de O Anti-Édipo, as consequências ontológicas e políticas de uma reatualização do gesto do genealogista antiedipiano no seio da ideia de memória. Refutando suas afirmações limitativas e exclusivas – duradouro objeto da tradição metafísica ocidental – dos registros metafísicos e institucionais, trata-se de afirmar positiva e inclusivamente a disjunção entre memória-ser, memória-práxis e memória-lembrança, atestando, nas trilhas de Deleuze e Guattari, a dupla pertença do devir ao ser do passado e do novo. A última experiência anistiadora brasileira, iniciada em 1979, e ainda hoje inacabada, engendra o campo prático no seio do qual a disputa pelos signos-afetos no terreno imanente da memória seria capaz de sugerir um conceito de memória já não mais inerte ou patológico, mas virtual, maquínico e potente: linha de fuga em direção a uma ontologia política.
No Brasil contemporâneo, a memória constitui um dos campos privilegiados de combates que, ao colocarem em jogo a totalidade sempre aberta e rompida do tempo, põem-na em xeque como um conceito metafísico inteiramente submetido às formas da identidade, da representação, do psicologismo e da consciência. Excendendo os quadros das definições clássicas e transcendentes de memória – que de Platão a Kant constituíram afirmações limitativas e exclusivas de uma memória desontologizada e impotente –, o presente ensaio engendra a tarefa de constituir um conceito maquínico de memória e estimar, quarenta anos depois da publicação de O Anti-Édipo, as consequências ontológicas e políticas de uma reatualização do gesto do genealogista antiedipiano no seio da ideia de memória. Refutando suas afirmações limitativas e exclusivas – duradouro objeto da tradição metafísica ocidental – dos registros metafísicos e institucionais, trata-se de afirmar positiva e inclusivamente a disjunção entre memória-ser, memória-práxis e memória-lembrança, atestando, nas trilhas de Deleuze e Guattari, a dupla pertença do devir ao ser do passado e do novo. A última experiência anistiadora brasileira, iniciada em 1979, e ainda hoje inacabada, engendra o campo prático no seio do qual a disputa pelos signos-afetos no terreno imanente da memória seria capaz de sugerir um conceito de memória já não mais inerte ou patológico, mas virtual, maquínico e potente: linha de fuga em direção a uma ontologia política.

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LUGAR COMUM Nº37-38, pp. 95-
Memória-máquina
Murilo Duarte Costa Corrêa
1 ...quarenta anos depois...
Aproximar-se de um tema pouco ou quase nunca abordado por Deleuze--Guattari que, em um duplo do gesto nietzschiano, jamais ocultaram sua prefe-rência pelas potências ativas do esquecimento em relação aos fardos imobilistasde toda forma de memória. Não se trataria, no entanto, precisamente disto? – re-atualizar 
O Anti-Édipo
quarenta anos depois desse aerólito haver descido à terra(DOSSE, 2010, p. 175); prosseguir alguns passos mais no projeto de conjurar onegativo e fazê-lo no seio essencialmente problemático da memória. Duplo gestomultiplicador: fazer a memória de
O Anti-Édipo
e fazer de
O Anti-Édipo
umamemória, como quem engendra uma memória coalescente com o presente e osdevires, e se deixa entrar nas linhas de força envolvidas pelos campos do ser e dodesejo que,
in extremis
, coincidem.Que a proposta possa dizer-se temerária, o presente número de
 Lugar Co-mum,
dedicado aos quarenta anos de
O Anti-Édipo
, parece evocá-la singularmenteao assumir a tarefa de produzir-se como uma sua instância de comemoração (de
co
+
memorare
). O livro de Deleuze-Guattari constitui um acontecimento que nãocessa, ainda hoje, de encadear-se a outras múltiplas séries de acontecimentos queestimam o plural de que é feito uma obra e, assim, testemunham o princípio mes-mo antiedipiano: uma contínua gênese do novo. A um só tempo, essa memória emvias de efetuação que se solicita a uma obra in
nita, como
O
 
 Anti-Édipo
, amparao
tour de force
a que temerariamente nos propomos.Pesquisar a memória em
O Anti-Édipo
quarenta anos depois não implica procurar pelos fardos históricos ou inventariar lembranças desligadas do concreto;trata-se, antes, de repetir, com ela, o gesto singularizante e supremo de qualquer 
loso
a: criar um conceito. Se Deleuze (2008: 11-21) exigia dos historiadores da
loso
a o dom orbicular da diferença – resultado de uma seleção pela potênciacapaz de agir no cerne da repetição –, por que Deleuze-Guattari deveriam passar incólumes aos investimentos singularizantes de uma imaculada concepção?A partir de um dos elementos não-lidos de
O Anti-Édipo
, procuramosexceder os quadros canônicos das de
nições transcendentes de memória, que dePlatão a Kant constituíram a
rmações limitativas e exclusivas de uma memória
111
 
96 MEMÓRIA-MÁQUINA
desontologizada e impotente, a
m de extrair um conceito antiedipiano e maquí-nico de memória, aproximado dos
uxos das produções inconscientes, intensivas,selvagens e, a um só tempo, emancipado de toda forma reminiscente servil aoidêntico. No interior de uma
loso
a prática, que é a de
O Anti-Édipo
 – por isso,Michel Foucault (2001, p. 134) o teria saudado quase em seu crepúsculo como o primeiro livro de ética que se escrevera em França após muito tempo –, esse novoconceito de memória exige que se de
na o campo problemático concreto no qualemerge.A
m de situá-lo em uma palavra, é preciso compreender de que maneiraa experiência anistiadora brasileira, que se inicia em 1979 e permanece, até hoje,inacabada, não pode produzir-se senão assentada sobre o campo de imanênciada memória. Disso dependem suas estratégias, seus códigos, sua e
cácia; dissodependem, igualmente, as infatigáveis e nuas repetições de estruturas políticasautoritárias no Brasil contemporâneo e a inibição dos potencias revolucionáriosda memória.
2 Memórias-signo
 No momento em que
O Anti-Édipo
é publicado em França, no ano de1972, regimes políticos ditatoriais encontravam-se em pleno curso na maior partedos países latino-americanos. O processo continental de esmagamento das frá-geis democracias nacionais latino-americanas é desencadeado a partir do golpe deEstado de 1964, no Brasil, alastrando-se sistemicamente nos anos seguintes por diversos países da América Latina, como México (1968), Chile e Uruguai (1973),e Argentina (1976). No plano econômico, as práticas desenvolvimentistas dos anos 50 e 60não apenas não serão desmontadas, como serão adaptadas ao discurso naciona-lista, testemunhando a faceta conservadora do crescimento econômico que, oraassumindo a alternativa da antecipação neoliberal – visível no modelo argentino –, ora tornando o Estado o elemento central de intervenção político-econômicana construção de alianças com o capital multinacional (mas conservando a prote-ção do mercado interno, como nos modelos brasileiro e mexicano), acabará por conduzir os países latino-americanos ao endividamento externo, sem que o cres-cimento econômico tivesse signi
cado outra coisa que não o aprofundamento da pobreza (NEGRI; COCCO, 2005, p. 104-107). No campo político, a repressão, a tortura e o assassinato sistemático deopositores constituirão, ao longo de algumas décadas, os paradigmas de exercício
 
97
Murilo Duarte Costa Corrêa
do controle social e da repressão estatais contra as insurreições da luta armadarevolucionária (NEGRI; COCCO, 2005, p. 103). Aparelho repressivo que, após atransição em direção ao regime democrático, não é desmontado, não sofre purgas,tampouco é reestruturado no Brasil. Pelo contrário, em pleno funcionamento, oaparato de violência legal permanece atrelado às estruturas herdadas do regime precedente o que poderia explicar, ao menos em parte, a escalada da violên-cia endêmica no Brasil e no resto do continente latino-americano pós-ditatorial(PINHEIRO, 2002, p. 240), especi
camente estruturada sobre o
rapport 
Estado--cidadão que se desenvolve em culturas políticas autoritárias marcadas pelo des-respeito aos direitos humanos e pela lógica da impunidade.
 A memória em disputa: anistia política e representação
Tudo indica que, desde antes da anistia de 1979 até hoje, a memória política brasileira não deixou de ser investida como um campo de disputas pelocontrole dos signos, pela possibilidade de expropriar o ser da memória tornando--a um signi
cante vazio ao qual se pudesse fazer imprimir arbitrariamente umsigni
cado.Seu signi
cado pode assumir indistintamente a faceta humanista da Jus-tiça de Transição, ou a negacionista, dos contramovimentos; pode assumir indis-tintamente o cariz da história o
cial, a versão dos algozes ou o rosto da narrativadas vítimas. Isso se torna especialmente evidente no momento em que a prote-ção aos direitos humanos de agentes de Estado violadores de direitos humanosé paradoxalmente invocada como argumento para sustentar a impossibilidade de persecuções criminais sob a égide de um Estado democrático de direito (SABA-DELL; DIMOULIS, 2011, p. 79-102), ou quando uma mítica anistia bilateralintegralmente controlada pelo Executivo (ABRÃO, 2011, p. 123-124) é invocadasob o argumento do garantismo penal que não se pergunta sobre a carência deautoridade internacional ou jurídica das autoanistias. Nos seio dessas antinomias,estes conceitos indeterminam-se ao in
nito e conduzem o canevás antropológicosobre o qual se funda a lógica da proteção dos direitos humanos a um oximoroaparentemente inextrincável.Agenciando dispositivos micropolíticos e macropolíticos em torno deestratégias de sobrecodi
cação da memória social, instâncias institucionais im- primem sentidos próprios no campo de uma memória social politicamente emdisputa, como é o caso da memória sobre o recente passado autoritário brasileiro.Se, por um lado, não há memória exclusivamente institucional, as insti-tuições sociais e estatais investem, de longa data, o campo da memória coletiva,

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