Mais Deste Usuário
Desabafando
Série de 13 artigos sobre a sociedade em que vivemos e os seus paradogmas.
Abaixo a humanidade
10 artigos sobre o complexo problema do aquecimento global, alterações climát...
N\u00e3o vejo, entre a poesia e a prosa, a diferen\u00e7a fundamental, peculiar da pr\u00f3pria disposi\u00e7\u00e3o da
mente, que Campos estabelece. Desde que se usa de palavras, usa-se de um instrumento ao
mesmo tempo emotivo e intelectual.
A palavra cont\u00e9m uma id\u00e9ia e uma emo\u00e7\u00e3o. Por isso n\u00e3o h\u00e1 prosa, nem a mais rigidamente
cient\u00edfica, que n\u00e3o ressume qualquer suco emotivo.
Por isso n\u00e3o h\u00e1 exclama\u00e7\u00e3o, nem a mais abstratamente emotiva, que n\u00e3o implique, ao menos,
o esbo\u00e7o de uma id\u00e9ia.
Poder\u00e1 alegar-se, por exemplo, que a exclama\u00e7\u00e3o pura - "Ah ", digamos \u2014 n\u00e3o cont\u00e9m
elemento algum intelectual. Mas n\u00e3o existe um "ah ", assim escrito isoladamente, sem rela\u00e7\u00e3o
com qualquer coisa de anterior. Ou consideramos o "ah " como falado e no tom da voz vai o
sentimento que o anima, e portanto a id\u00e9ia ligada \u00e0 defini\u00e7\u00e3o desse sentimento; ou o "ah "
responde a qualquer frase, ou por ela se forma, e manifesta uma id\u00e9ia que essa frase
provocou.
Em tudo que se diz \u2014 poesia ou prosa \u2014 h\u00e1 id\u00e9ia e emo\u00e7\u00e3o. A poesia difere da prosa apenas
em que escolhe um novo meio exterior, al\u00e9m da palavra, para projetar a id\u00e9ia em palavras
atrav\u00e9s da emo\u00e7\u00e3o. Esse meio \u00e9 o ritmo, a rima, a estrofe; ou todas, ou duas, ou uma s\u00f3.
Por\u00e9m meno que uma s\u00f3 n\u00e3o creio que possa ser.
A id\u00e9ia, ao servir-se da emo\u00e7\u00e3o para se exprimir em palavras, contorna e define essa emo\u00e7\u00e3o,
e o ritmo, ou a rima, ou a estrofe, s\u00e3o a proje\u00e7\u00e3o desse contorno, a afirma\u00e7\u00e3o da id\u00e9ia atrav\u00e9s
de uma emo\u00e7\u00e3o, que, se a id\u00e9ia a n\u00e3o contornasse, se extravasaria e perderia a pr\u00f3pria
capacidade de express\u00e3o.
\u00c9 o que, em meu entender, sucede nos poemas de Campos. S\u00e3o um extravasar de emo\u00e7\u00e3o. A id\u00e9ia serve a emo\u00e7\u00e3o, n\u00e3o a domina. E o homem \u2014 poeta ou n\u00e3o poeta \u2014 em quem a emo\u00e7\u00e3o domina a intelig\u00eancia recua a fei\u00e7\u00e3o do seu ser a est\u00e1dios anteriores da evolu\u00e7\u00e3o, em que as faculdades de inibi\u00e7\u00e3o dormiam ainda no embri\u00e3o da mente. N\u00e3o pode ser que arte, que \u00e9 um produto da cultura, ou seja do desenvolvimento supremo da consci\u00eancia que o homem tem de si mesmo, seja tanto mais superior, quanto maior for a sua semelhan\u00e7a com as manifesta\u00e7\u00f5es mentais que distinguem os estados inferiores da evolu\u00e7\u00e3o cerebral.
Leave a Comment