sentido e uma ação despropositada, a situação passada em que a idéia se justificou e a açãoserviu a um propósito."Entretanto, há uma dificuldade decorrente dessa concepção. que é a de circunscrever o sentido"último" de um sintoma, o desejo inconsciente que o produz. O que permite a Freud afirmar queuma interpretação, ainda que ligada aos desejos infantis do paciente, é a "última" interpretação possível, que para além dela não pode haver outra interpretação, e mais outra, infinitamente?Há vários pontos da obra de Freud nos quais ele parece admitir um redimensionamento dessaquestão. No texto "Interpretação dos sonhos" (1900) está presente, ao lado da concepção de queos sonhos têm um sentido, a idéia da existência de um umbigo do sonho, ponto central do sonho,o ponto de onde ele mergulha para o desconhecido.'" Em "Lembranças encobridoras" (1899)Freud chega à conclusão de que, num certo sentido, toda recordação infantil é encobridora, oque significa que é necessário "reduzir a distinção (...) entre as lembranças encobridoras e outraslembranças derivadas de nossa infância" uma vez que "pode-se questionar se temos mesmoalguma lembrança
proveniente
de nossa infância: as lembranças
relativas
à infância talvez sejatudo o que possuímos."Como esses. há muitos outros pontos que apontam em Freud a presença de um brecha naquestão da direção da análise como busca de um sentido último do sintoma, uma brecha quetoma maiores proporções com a formulação da pulsão de morte em "Mais além do princípio do prazer" (1920) e com a segunda tópica. No texto "Análise terminável e interminável" (1937), por exemplo, Freud considera que "oefeito terapêutico depende de tornar consciente o que está reprimido (no sentido mais amplo da palavra) no Id", mas ainda assim admite a existência de pontos que permanecem intocados pelotrabalho de análise".É Lacan, entretanto, quem retomará essa questão, ampliando o limite da análise para além doÉdipo e situando-a em relação ao fantasma,: no qual a posição do sujeito articula-se à de seuobjeto, o objeto
a
. Aliados à noção de gozo, e à idéia do real como um resto não completamenteredutível ao simbólico, esses conceitos permitem a Lacan situar o final da análise para além da busca do sentido último do sintoma, tal como aparece em Freud. No
Seminário 11
, Lacanafirma: "a interpretação não visa tanto o sentido quanto reduzir os significantes a seu não-senso, para que possamos reencontrar os determinantes de toda a conduta do sujeito." Retomaremoseste ponto no próximo capítulo.Mas mesmo admitindo um "para além do Édipo" no trabalho analítico, a neurose é, paraLacan, a estrutura clínica que se caracteriza pela presença do recalque e de seu efeito patogênicono inconsciente, os sintomas.Além disso. segundo Lacan, "a estrutura de uma neurose é essencialmente a estrutura de umaquestão." Para ele, "o que está em discussão no nosso sujeito, é a questão
Quem sou eu?
ou
Soueu
, é uma relação de ser. é um significante fundamental. É na medida em que essa questão foireanimada como simbólica e não reativada como imaginária. que foi desencadeada adescompensação de sua neurose, e que seus sintomas foram organizados. Sejam quais forem assuas qualidades, a sua natureza, o material a que eles recorreram. estes tomam valor deformulação, de reformulação, mesmo de insistência, dessa questão." O sujeito adquire assim adimensão da resposta do ser à questão: quem sou? No texto "Instância da letra"(1957), Lacan afirma: "(...) Na coextensividade dodesenvolvimento do sintoma e de sua resolução curativa revela-se a natureza da neurose: fóbica,histérica ou obsessiva, ; a neurose é uma questão que o ser coloca para o sujeito 'lá de onde eleestava antes que o sujeito viesse ao mundo'." Não por acaso, no
Seminário 4
Lacan fazreferência, para situar essa questão, à frase que Freud utiliza para "explicar o complexo de Édipoa Hans."Mas qual a relação entre essa pergunta,
quem sou?
, que para Lacan é característica da