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Um modismo equivocado - por Pedro Pomar, do Página 13 – 06 de agosto de 2012
Por Pedro Estevam da Rocha Pomar* 
Virou moda o emprego da expressão “Ditadura Civil-Militar” para designar o regimeinstaurado em nosso país por meio do golpe militar de março-abril de 1964. Ativistas dedireitos humanos, ex-presos políticos, estudantes universitários, e até pesquisadoresacadêmicos de renome vêm utilizando tal adjetivação, na mesma medida em quedescartam a designação habitual, Ditadura Militar, que até alguns anos atrás pareciaconsolidada tanto na literatura e historiografia quanto na tradição oral popular, bem comono discurso coloquial da militância política de esquerda.Os defensores da expressão “Ditadura Civil-Militarvêem-na como necessária paraexplicar adequadamente o conteúdo do regime vivido no Brasil entre 1964 e 1985, queresultou de um conluio do extrato militar com setores empresariais civis. Assim, noentender dessa corrente, falar somente em Ditadura Militar seria deixar de reconhecer opapel ativo de segmentos da burguesia no regime ditatorial, “livrar a cara” da ala civil dacontra-revolução que ensanguentou, oprimiu e humilhou o país por duas décadas.Ocorre que, por mais nobre que seja o propósito de renomear o período, trata-se de umprofundo equívoco. Tivemos neste país não uma “Ditadura Civil-Militar”, mas umaDitadura Militar, sem aspas. Embora todos nós da esquerda saibamos da participaçãocivil tanto no golpe de 1964 (fartamente documentada em livros como
1964: A Conquista do Estado 
, de ReDreyfuss) como no regime que dele se originou, tammentendíamos perfeitamente que quem mandou de fato, quem exerceu o poder político, foio Alto Comando das Forças Armadas.Os militares ocuparam não apenas a Presidência da República, mas também cargoscentrais em todos os órgãos da administração federal direta e indireta, de ministérios aempresas estatais, nos seus principais escalões. Alguns se tornaram, até, governadores deEstado.Controlavam a sociedade por meio da comunidade de informações, encabeçada pelo SNIe formada por centenas de milhares de agentes e informantes (há quem fale em doismilhões de informantes), e cujo aparato repressivo possuía tentáculos operacionais que seapresentavam como siglas macabras:OBAN, DOI-CODI, CIE, CISA, Cenimar.Os militares passaram a controlar a educação, a cultura, o esporte… Mas, sobretudo,deram as linhas na política e na economia. Os parceiros civis de maior expressão queincentivaram o golpe de 1964, ou nele embarcaram com a ilusão de que teriam algumainfluência nos destinos do novo regime, como Carlos Lacerda, Magalhães Pinto,Juscelino Kubitschek, Ademar de Barros, foram postos de lado em algum momento. Piorainda, alguns desses parceiros foram perseguidos.Ao cair mortalmente adoentado o ditador Costa e Silva, o vice-presidente civil, PedroAleixo, foi impedido de assumir a presidência. Em seu lugar empunhou o poder a JuntaMilitar. Só no último governo ditatorial, o de João Figueiredo, é que um vice-presidente
 
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civil, Aureliano Chaves, exerceu por curto período a presidência, quando do afastamentodo general para tratamento médico no exterior.O parlamento, uma das faces mais visíveis do poder civil no capitalismo, funcionou amaior parte do tempo, mas em que condições? Foi continuamente solapado e mutilado,especialmente desde que se recusou a punir o deputado Márcio Moreira Alves, em 1968.Dissolução de partidos, cassações de parlamentares da oposição, criação da figura dosenador biônico, de tudo inventou a Ditadura Militar para subordinar e impor limites aoparlamento. Mesmo o judiciário, um poder conservador por excelência, foi ultrajado coma perda das garantias históricas dos juízes e a extinção do
habeas corpus 
.Tivemos portanto neste país, sem a menor sombra de dúvida, um regime militar,constituído por governos militares, ainda que tenha contado com sócios e cúmplices civis.Portanto, neste exato momento da história em que a Comissão Nacional da Verdade dáinício a seus trabalhos, falar em “Ditadura Civil-Militar” é um desserviço e só se presta adiluir a responsabilidade dos militares que cometeram crimes de toda sorte, atrocidades eviolações de direitos humanos, e que procuram despistar e criar confusão.É preciso sim identificar os grandes empresários e a oligarquia que financiaram einspiraram o golpe militar e a repressão política. Os cúmplices civis dos governosmilitares, os apoiadores dentro e fora da mídia. Queremos sim sua punição! Mas deimediato deve-se identificar e punir aqueles que foram a sua guarda pretoriana, quecometeram crimes de sangue em favor do regime. Que perseguiram, trucidaram,executaram covardemente, ocultaram e destruíram corpos.Enquanto não fizermos isso, enquanto a sociedade brasileira não acertar as contas com aDitadura Militar, as Forças Armadas continuarão atuando contra a democracia. E,portanto, agindo em benefício das mesmas forças civis que apoiaram e estimularam ogolpe. Para que as instituições militares deixem de ser um obstáculo à democracia emnosso país, é preciso que fique bem caracterizada a existência da Ditadura Militar noperíodo 1964-1985.Porque as Forças Armadas precisam ser democratizadas: suas escolas, seus currículos deformação de oficiais, seus regimentos disciplinares. E para isso não pode haver qualquerdúvida a respeito do que ocorreu neste país: um regime militar, comandado por altosoficiais; um regime que contou sim com a cumplicidade do grande capital nacional eestrangeiro, e que o beneficiou; e que exatamente por esta razão vem sendo defendidopela mídia e por partidos de direita como DEM e PSDB.É claro que o golpe de março-abril de 1964 teve forte presença do grande capital e deoutros setores civis e, neste sentido, pode ser denominado “cívico-militar”. Mas uma vezderrubado Jango e entronado Castello Branco, instaurou-se a Ditadura Militar. Ou seja, apartir de 1964 a forma assumida pelo domínio burguês foi precisamente um regimemilitar, uma ditadura castrense.Ao falar-se em “Ditadura Civil-Militar”, com a finalidade de garantir que não seja

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