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Revisão e formatação: Lancelot -
http://es.groups.yahoo.com/group/Papiros_Virtuais/
 
O homem de botas de borracha entrou no elevador atrás de mim, mas aprincípio não o vi. No entanto, senti o cheiro - o odor penetrante de cigarro, vinhobarato e a vida nas ruas com falta de banho.Subimos sozinhos e foi quando olhei para o lado que vi as botas, pretas,sujas e muito grandes. Uma gabardina esfarrapada e gasta chegava-lhe até aos joelhos. Por baixo, camadas de roupa imunda aglomeravam-se à volta dacintura, dando-lhe um aspecto atarracado, quase gordo. Mas não era por estar bem alimentado; no Inverno, em Columbia, as pessoas da rua vestem tudo oque têm, ou pelo menos assim parece.O homem era negro e tinha um ar envelhecido. A barba e o cabelogrisalhos não eram aparados nem lavados há anos. Olhava direto através dosgrossos óculos escuros, ignorando-me completamente e levando-me aperguntar por que motivo o inspecionava.Não pertencia àquele local. Aquele edifício, aquele elevador, não eramcompatíveis com as suas posses. Os advogados dos oito andares trabalhavampara a minha firma a tarifas horárias que continuavam a parecer-me obscenas,mesmo passados sete anos.Mais um vagabundo que se protegia do frio. Estava sempre acontecendono centro do Washington. Mas nós tínhamos guardas para lidar com a ralé.Paramos no sexto andar e reparei pela primeira vez que ele não apertaraem nenhum botão, não escolhera nenhum andar. Vinha atrás de mim. Saírapidamente e, quando ia a entrar no soberbo átrio de mármore da Drake &Sweeney, espreitei por cima do ombro e o vi de pé no elevador, olhandofixamente, continuando a ignorar-me.A senhora Devier, uma das nossas recepcionistas mais resistentes,cumprimentou-me com o seu habitual tom desdenhoso.- Atenção ao elevador - disse-lhe.- Porquê?- Um vagabundo. Talvez seja melhor chamar um segurança.- Essa gente... - retorquiu ela, com o seu sotaque francês afetado.- E arranje também desinfetante.Afastei-me, tentando tirar o sobretudo dos ombros, e esqueci-me dohomem das botas de borracha. Tinha a tarde totalmente preenchida comreuniões intermináveis, com conferências importantes com gente importante.Virei a esquina e ia a dizer qualquer coisa a Polly, a minha secretária, quandoouvi o primeiro tiro.A senhora Devier estava atrás da mesa, petrificada, olhando para o canoinvulgarmente longo de uma pistola que o nosso vagabundo empunhava. Comofui o primeiro a correr em seu auxílio, o homem teve a gentileza de apontá-lopara mim, e também eu fiquei rígido.- Não dispare - pedi, de mãos no ar. Já vira muitos filmes para saber exatamente o que havia de fazer.- Cale-se - resmungou ele, com uma grande compostura.Ouvi vozes atrás de mim, no corredor. Alguém gritou Ele está armado!Depois as vozes deixaram de se ouvir lá atrás, tornando-se cada vez maisdistantes à medida que os meus colegas se aproximavam da porta dos fundos.
 
Imaginava-os a saltar pelas janelas.à minha esquerda havia uma pesada porta de madeira que dava acesso auma grande sala de reuniões, por acaso cheia naquele momento, com oitoadvogados do nosso departamento de Contencioso.Oito litigantes combativos e destemidos que passavam o seu tempomassacrando as pessoas. O mais duro era um pequeno torpedo brigãochamado Rafter. Quando abriu a porta e perguntou que diabo...? , o cano dapistola virou-se para ele, e o homem das botas de borracha conseguiuexatamente o que pretendia.- Baixe essa arma - ordenou Rafter da porta.Um segundo depois, ouviu-se outro tiro na zona da recepção, um tiro nadireçâo do teto, por cima da cabeça de Rafter e que o reduziu a um simplesmortal. Virando a arma para mim, o homem fez um aceno de cabeça e euobedeci. Entrei na sala de reuniões, atrás de Rafter. A última coisa que vi lá forafoi a senhora Devier tremendo à secretária, aterrada, com os fones no pescoço eos sapatos de salto alto bem encostados ao cesto dos papéis.O homem das botas de borracha fechou a porta atrás de mim e agitou aarma lentamente no ar para que os oito litigantes pudessem admirá-la. Pareciatrabalhar bem; o cheiro da descarga era mais intenso que o do seu proprietário.A sala era dominada por uma longa mesa, cheia de documentos e depapéis que ainda há pouco tempo pareciam extremamente importantes.Várias janelas em fila davam para um estacionamento. Havia duas portaspara o corredor.- Encostem-se à parede - disse o homem, servindo-se da arma comeficiência.Em seguida, encostou a arma à minha cabeça e acrescentou:- Feche as portas à chave.Obedeci.Nem uma palavra dos oito litigantes, que recuaram atabalhoadamente.Nem uma palavra minha, quando me apressei a fechar as portas à chave e olheipara o homem à espera da sua aprovação.Por qualquer motivo, continuei a pensar na estação dos correios e emtodo aquele horrível tiroteio - um empregado descontente regressa do almoçocom um arsenal e mata quinze dos seus colegas. Pensei nos massacres doparque infantil e nas carnificinas nos restaurantes de fast food.E essas vítimas tinham sido crianças inocentes e outros cidadãosdecentes. Nós éramos um grupo de advogados!Resmungando e agitando a arma, o homem obrigou os oito litigantes aencostarem-se à parede, ao lado uns dos outros, e quando se deu por satisfeitovirou-se para mim. O que queria ele? Faria perguntas? Se assim fosse,conseguiria tudo o que lhe agradasse. Eu não lhe via os olhos devido aos óculosescuros, mas ele via os meus. A arma estava apontada para eles.Despiu a gabardina nojenta, dobrou-a como se fosse nova e colocou-ano meio da mesa. Senti de novo o cheiro que me incomodara no elevador, masque não era importante naquele momento. O homem estava do outro lado damesa e despiu lentamente a segunda camada de roupa, um casaco de malha
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