em si é uma doutrina, e, se é verdadeira, como propugam seus fautores, deve estar naBíblia, sob pena de considerá-la uma contradição. Alguns responderão, citando oApóstolo: “Toda a Escritura é inspirada por Deus, e útil para ensinar, para repreender,para corrigir e para formar na justiça.” (II Tm 3,16) Entretanto, se a passagem afirmaa inspiração divina da Bíblia – que não é negado pelos católicos! –, ela não sustenta,por outro lado, que somente a Escritura possui tal inspiração. Assim, afirmar “Fulano éinteligente” não importa em dizer que “Só Fulano é inteligente.” A aludida perícopeescriturística não prova o argumento protestante.Voltamos à pergunta, e a reformulamos, para destruir de vez o esquema dos hereges:existe, acaso, na Bíblia, a sentença de que só que nela está contido é verdadeiro, oude que tudo, para ser verdadeiro, deve estar em suas páginas? Solapada a primeiratentativa, com a carta a São Timóteo, resta um exame acurado de todo o conteúdo daEscritura, o que resulta na resposta negativa. O ensino da “Sola Scriptura” – do latim, “Só a Escritura” –, resumo do significado de “toda doutrina verdadeira deve estar naBíblia”, não encontra respaldo na mesma. A “Sola Scriptura” não está na Bíblia! Seuma doutrina, para ser verdadeira, deve estar na Bíblia, só temos duas conseqüências:ou a Escritura confirma semelhante proposição, o que vimos não ser correto, pelacompleta ausência de frases a respeito; ou a “Sola Scriptura”, por não estar na Bíblia,não é verdadeira. A própria sentença protestante que diz ser somente correto o queestá na Escritura, nela não se encontra, fazendo-nos crer que não é verdadeira –resultado lógico! Interessante que aquilo que justifica a fé protestante na Bíblia (féessa correta, ainda que distorcida), não é uma verdade, mas um falso silogismo jádesmontado. Não é possível que a “Sola Scriptura” seja verdadeira se seu significado éde que a doutrina, para ser legítima e aceita como revelada da parte de Deus, devaestar na Bíblia, e ela mesma não está!Feita a apreciação negativa da base doutrinária protestante, resta-nos, antes depassarmos ao segundo erro fundamental da mesma, expôr argumentos positivossubsidiários. Não só a doutrina que afirma que é verdadeiro somente o expresso naSagrada Escritura nela não se encontra, como também justamente o contrário é aliafirmado. Se não, vejamos o seguinte. São Paulo, escrevendo a São Timóteo, exorta-oa guardar o que foi a ele ensinado – e esse ensino não está na Escritura, de modo quetemos de entender como passado oralmente –, dizendo: “Ó Timóteo, guarda o bemque te foi confiado!” (I Tm 6,20), e repetindo, em outra ocasião: “Guarda o preciosodepósito, pela virtude do Espírito Santo que habita em nós” (II Tm 1,14). Explicandotextualmente que o ensino cristão não se dá apenas pelo contido na Bíblia, o mesmoApóstolo, escreve: “Assim, pois, irmãos, ficai firmes e conservai os ensinamentos quede nós aprendestes, seja por palavras, seja por carta nossa.” (II Ts 2,15); a doutrinaverdadeira está na Bíblia – carta –, mas também no ensino oral – palavras dosApóstolos. E reafirmando o valor da Tradição – do latim “Traditio”, que significa “passado adiante” –, e que se dá oralmente, exorta-nos o santo que evitemos tudo oque contrariar a “tradição que de nós tendes recebido.” (II Ts 3,6) O que é livre de erronão é somente a Escritura, mas o ensinamento apostólico, que se dá, outrossim, pelapregação – aliás, antes de termos definido o cânon, isto é, a lista dos livros quepertencem à Bíblia, já tínhamos a pregação dos Santos Apóstolos, a Tradição oral: “anossa PREGAÇÃO não provém de erro, nem de intenções fraudulentas, nem deengano.” (I Ts 2,3; grifos nossos) As próprias leis que norteiam a administração daIgreja nos tempos primevos não estavam presentes na Bíblia, mas mesmo assim éordenado que sejam acatadas: “Eu te deixei em Creta para acabares de organizar tudoe estabeleceres anciãos em cada cidade, de acordo com as normas que te tracei.” (Tt1,5) São João, o discípulo amado, escreve um Evangelho e três epístolas, e contudodeixa ensinos, por certo verdadeiros, para ser transmitidos oralmente: “Tinha muitas
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