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Dia, semana, mês e ano: frase, período, parágrafo e texto
Muito antes que o atual culto às ciências virasse moda, Francisco de Quevedo(1580-1645), o genial polígrafo espanhol, cultivou a palavra escrita com o rigor de um pesquisador de laboratório. Para ele, a linguagem era essencialmente um"instrumento lógico". Não era à toa que as metáforas e símiles da poesia oincomodavam tanto: achava-as fáceis, imprecisas – e, sobretudo, falsas.Para os cultores da prosa como ele (como nós, aqui desta oficina literária),Quevedo legou a preciosa observação de que muitas línguas ocidentais – oespanhol e o português, entre elas – empregam o mesmo verbo
contar 
paraações aparentemente tão diferentes como
enumerar 
e
narrar 
. "Entre nós", diziaQuevedo, "contam-se histórias como se contam os dias". Certamente, o espertoespanhol já intuía que tanto a linguagem quanto a vida transcorrem na esfera dotempo linear e sucessivo – como já comentamos aqui, por sinal, em aulasanteriores...Quevedo estava rigorosamente certo. Tanto a passagem do tempo quanto odesenvolvimento de um texto seguem os clássicos padrões aristotélicos:começo, meio e fim. E, assim como o ano se divide em subunidades como o dia,a semana e o mês, um texto também se estrutura a partir de unidades menores,como a frase, o período e o parágrafo.Então, aproveitando o começo deste novo ano, que tal começar a aprender umpouco sobre tudo isso?
O desenvolvimento pleno e articulado de um texto, a partir dos processos de narração,descrição, dissertação e diálogo, precisa contar com o suporte concreto de algumasferramentas essenciais: a
frase
e o
 período
, que são
as unidades mínimas
da arte daboa escrita. De sua combinação, nasce o
 parágrafo
(elemento-chave do texto), que vaipor sua vez integrar a
estrutura
, quer dizer, a ordenação dinâmica dos componentesde um texto. Disso que trata a lição de hoje.PODE-SE DIZER QUE A FRASE É O
ELEMENTO MÍNIMO
de um texto, no sentidoque interessa aos limites deste curso. Há outros elementos ainda menores (a
 palavra
,os
radicais
e os
fonemas
), mas que são matéria de estudos de outras disciplinas,como a lingüística e a gramática.
 
Frase
é o nome que se dá a qualquer enunciado que disponha de conteúdo suficientepara formar um sentido completo, por menor e mais simples que seja. Assim, pode-sechamar de frase desde conjuntos complexos de palavras, como a célebre frase do dr.Samuel Johnson, famoso dicionarista inglês do século XVIII:"O patriotismo é o último refúgio dos velhacos."até informações mais banais e cotidianas:O carteiro chegou.Ou:Chove.Ou ainda:Fogo!Muitas vezes, a frase se confunde com o
 período
– que constitui o segundo elementomínimo do texto. Isso acontece no caso do
 período simples
, que contêm uma únicaoração, limitada pelo ponto. Mas o período também pode ser formado por duas oumais orações (integradas por coordenação ou subordinação, como já se viu), sendoentão chamado de
 período composto
.A combinação de frases e períodos constitui o
 parágrafo
– o elemento ou subunidademais importante da arte da boa escrita. O parágrafo tem extensão variável e secaracteriza por desenvolver uma mesma idéia ou núcleo (ou
idéia-núcleo
, comotambém podemos chamá-la). Em torno dessa idéia-núcleo, congregam-se outrasidéias, secundárias, ligadas a ela pela estrutura do texto. Claro que, como todadefinição, esta aqui peca por ser breve ou simplificada demais. Portanto, para maioresdetalhes, não custa nada consultar uma boa gramática – "apetrecho" por sinalindispensável nesta aventura da boa escrita.Em geral, o parágrafo vem delimitado visualmente no corpo de um texto por umpequeno afastamento da margem esquerda, logo na primeira linha. Mas sua principalcaracterística é de natureza
lógica
: o que efetivamente distingue um parágrafo dosoutros, dentro de uma mesma obra é o fato de desenvolver uma
idéia unitária
. Nessesentido, a divisão em parágrafos não existe apenas para tornar um texto visualmente
 
mais leve ou "arejado": acima de tudo, ela serve para separar e ao mesmo tempoarticular as idéias principais e secundárias da maneira mais conveniente – ou seja,com o máximo de exatidão, clareza e elegância. Por isso, seu tamanho não é fixo, namedida em que está necessariamente ligado à complexidade e profundidade dasidéias ali desenvolvidas. Veja esses dois exemplos:"Penumbra. Escritório. Homem, com as mãos à cabeça, fuma e pensa na vida. Alto-falante." (Carlos Drummond de Andrade, em
 A Bolsa & a Vida
)"E o Santa Rosa estava ali. Seria o mesmo dos meus dias de menino? Sem dúvidaque a vida passara também por ele. Onde estavam Generosa, Galdina, Ricardo? Domeu quarto, entre os livros que trouxera de fora, no meio daqueles despojos doestudante que se fora, começava a pensar, a tomar pulso dos fatos. Precisava olhar oSanta Rosa, entrar na intimidade do meu velho mundo. Ouvia o velho José Paulinotossindo. Já andava mais curvo, o seu grito de mando não ia tão longe. E havia maissilêncio na casa-grande. Onde estavam os moleques e os meninos gritando? Ondeestavam todo aquele ruído, as carreiras pelo corredor, as brigas da velha Sinhazinha?A casa era mais vazia, e tudo nela se amesquinhava para mim. Lembrava-me de unsversos de um poeta qualquer que voltava como eu à casa paterna: 'Deserta a casa.Entrei chorando.' Não, não era chorando que eu voltava: era enfadado, cheio demelancolia. E nem as saudades dos tempos outros me davam coragem para me fixar ali onde fora meu paraíso de antigamente. E não havia nada mais triste do que umretorno a esses paraísos desfeitos." (José Lins do Rego, em
Bangüê
)Tamanho, como se pode reparar, não é uma simples questão de quantidade – mas deadequação aos objetivos do texto.O mais importante, no caso de qualquer um desses elementos-chave, é compreender que neles começam o sentido, a ordem e a beleza de um texto. Uma frase, umperíodo ou um parágrafo confusos – ou fora de lugar – acabam comprometendo todo ocorpo do texto. Por isso, é importante você aprender. E caprichar.A UNIDADE DE UM TEXTO – esse conjunto articulado de parágrafos – é demarcadapor sua extensão, mas, sobretudo, por sua
estrutura
, quer dizer, pela ordenaçãodinâmica de seus componentes.Segundo Aristóteles (o mestre grego que nos legou as definições mais essenciais daarte da escrita), essa estrutura é a mesma de todos os corpos que ocupam o universo:
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