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Publicado originalmente emwww.eternoretorno.com
Dostoiéski e a psicologia
Lembro-me do primeiro romance deDostoiévski que li. Não fui pelo título, nempor indicação (salvo a ciência de que oautor poderia ser categorizado comoexistencialista e uma de suas obras, “Osirmãos Karamazov “, foi caracterizada porFreud como o melhor romance já escrito),fui pelo número de páginas. Sei que issoo é um critério para descobrirmospensamentos que gostamos, mas entretantas obras do autor com 600, 700 e até1000 páginas, dependendo da formataçãoe tradução, optei começar por algumasdezenas de páginas: Notas do subterrâneo - também encontrada com otítulo de Memórias do subsolo.Foi amor à primeira vista. Lendo “Nietzsche: biografia de uma tragédia”(2001) do fisofo alemão Safranski, descobri que Nietzsche, em seus“rascunhos e notas” de momentos quando sua saúde não estava bem secomprazia com romances (e não só); entre eles, deleitou-se com a mesmaobra em questão: fiquei pasmo! Ainda, o filósofo costumava fazer resumosdas obras do autor russo e intitulava-o como “o único psicólogo com quetenho algo a aprender (…)” (apud Safranski, R.; 2001). Lembrando queNietzsche era bem seletivo no que lia, além de ser um crítico da psicologiada época, pois para ele a grande questão era a moral, na qual a psicologiaestava também enredada em “erros morais” - na qual, na minha opinião,creio ser uma crítica ainda válida para muitos pontos da psicologia - e qualciência não estaria também presa a certos valores intocáveis?E é a partir dessa consideração, de Nietzsche, sobre Dostoiévski, que dareiseguimento a esse texto, culminando com algumas passagens da obra “Oidiota” (claro, agora já não ligo para o número de páginas em se tratandodesse escritor russo), em especial uma passagem, na qual retrata ossentimentos de um homem prestes a ser fuzilado - o que é uma alusão àprópria vivência de Dostoiévski que estava prestes a ser fuzilado ante aacusação de conspirar contra um dos czares, porém teve a pena comutadapara um exílio de 5 anos em uma prisão da Sibéria, onde esteve envolvidocom árduos trabalhos. Essa vivência também originou uma narrativabiográfica em forma de romance: Memórias da casa dos mortos.Ao ler Dostoiévski corremos o risco de nos ver desnudos dos nossos maisominosos sentimentos e desejos. A angústia que nos arrebata e quasesempre não a compreendemos desfila em palavras através dos conflitos eações dos personagens, tão reais, de Dostoiévski.São inúmeras as vezes em que me senti paralisado diante de sentimentosdos personagens dostoievskiano em épocas tão distantes, situações tão
 
Publicado originalmente emwww.eternoretorno.comdiferentes e todavia, estava lá, uma elaboração em palavras de uma dor, deum tédio, de uma angústia e, principalmente, de coisas profundas das quaisdesejamos ou sentimos, muitas das quais não sabemos como elaborar outranspor em palavras para comunicar. E mesmo que não sabemos dizer empalavras um desejo ou um sentimento, sequer tentamos e até mesmo jamais cogitamos a idéia de ao menos compartilhar com um confidenteíntimo, quanto mais tentar satisfazê-los através do frágil e fictício meio dosquais dispomos para nos relacionar: a linguagem, seja ela por meio daspalavras, dos gestos ou das emões das quais o temos comocompartilhá-las senão através dos cadafalsos das palavras.o das profundezas do esrito que Dostoiévski consegue dar umaelaboração às angústias, mazelas e paixões nas quais estamos enredados. Eé ai que nos encontramos nas ginas de Dostoiévski que narramexistências com suas virtudes e vícios, medos e desejos que nos separamdo entendimento, por mais que sentimos o doce sabor de um beijo íntimoque nos completa para depois nos trair, mesmo que sufocamos os amargosconflitos em uma custosa aparência de afabilidade.Ler Dostoiévski é se descobrir como um púbere que manipula os enigmas deum corpo em chamas e se depara trdo pelos olhares dos pais. Énecessário suportar as consequências fisiológicas que se sucedem com oavançar das páginas. Aliás, é evidente nos personagens de Dostoiévski, oquanto a fisiologia é inerente ao esrito, pensamento e corpo secomunicam mutuamente. Convulsões, estupores, paroxismos, vertigens,dores de cabeça e até mesmo doenças mortais eso passíveis ospersonagens que se enredam pelos incontroláveis pensamentos que nostrazem estados de esritos afogados em anstias. o se sabe,obviamente, qual pensamento causa determinado distúrbio orgânico, não setrata aqui da fantasiosa lei “causa e efeito”. Mas, felizmente já se admite naciência, sobretudo na área da psicossomática, a incontestável ligação entrepensamento e corpo, ou estados de esrito e fisiologia, o que é bempresente nas obras de Dostoiévski - o que também é muito ressonante nopensamento de Nietzsche, Espinoza, Cioran - e tantos outros quecertamente me fogem em nome ou conhecimento -, do existencialismo e dapsicanálise em geral.Diante dessas breves considerações sobre o que podemos presenciaratravés das obras de Dostoiévski, não tenho dúvidas que o escritor, atravésda literatura, em seus romances, se mostra como um psicólogo do mais altovel. Certamente que o escritor exerceu profundas inflncias napsicanálise, começando por Freud, bem como no existencialismo, mas pordemais, penso que a psicologia, de modo geral, ainda parece o terpercebido a rica fonte de possíveis elaborações para o sofrimento humano,que éo material deixado por homens e mulheres que enfrentaramflamejantes demônios que emanam da exisncia, e mais do que isso,ousaram delatar seus sentimentos, entre eles a angústia que jorra das ardispeças que o pensamento encena através de frágeis palavras. Essa crítica àpsicologia enquanto ciência geral, imagino que terei que carregar mesmo
 
Publicado originalmente emwww.eternoretorno.comapós a formação, é uma ciência profundamente devedora a nomes comoDostoiévski, Tolstói, Schopenhauer, Kierkegaard, Nietzsche, Cioran, Augustodos Anjos, Florbela Espanca, Virginia Woolf, etc. -, só para citar alguns. Todavia, felizmente o existencialismo, corrente filosófica da qual se ergue apsicanálise existencial, reconhece o quanto muitos desses homens quenarraram a inenarrável existência têm a contribuir. É aqui que me sinto emuma casa mais aconchegante, porém, penso que ainda é pouco para aamplitude da psicologia. Por mais que sejam pessoas que viveram emépocas diferentes, falando de vivências diferentes, isto é, falando deexistências em seus tempos, convém dizer que indiferente às condiçõesmateriais e espirituais da época, os seres humanos estão todos lidando comsuas “existências”.Ainda, talvez a idéia de que somos tão diferentes uns dos outros não sejasenão mais uma das peças pregadas pelos nossos pensamentos das quaisqueremos nos tornar únicos. Estamos sempre a (re)significar nossasvivências e momentos em seus vários sentidos, sempre uma ficção deestados fisiológicos - e não estou falando de sinais orgânicos simplesmente,mas do estado corporal em si, uno em corpo e pensamento -, que semprenos escapam às palavras, e talvez, nesses recônditos, nos encontramoscomo todos iguais em configurações inauditas da “matéria” -, eternamentea se repetirem; e por meio de um gesto (significados), tal como dito porKundera em “A imortalidade da alma”, queremos nos tornar únicos. Nãoseria o sentimento de nos ver desnudos por determinados pensamentos deoutras pessoas uma prova maior disso tudo?Para saber mais sobre o escritor russo, sobretudo dados biográficos nasquais não foi a minha intenção abordá-los, até porque fogem em grandeparte ao meu conhecimento, o Wikipédia pode ser um bom começo.* Imagem: Fiódor Dostoiévski em retrato pintado por Vassilij GrigorovicPerov, 1872.
Trechos da obra “O Idiota” de Dostoiévski
Segue abaixo algumas transcrições da obra “O idiotade FiódorDostoiévski. Para quem estiver pensando em conhecer os escritos doautor, sugiro duas deliciosas leituras:
Memórias do Subsolo
e
Noites Brancas
- esse último geralmente encontrado com o título“Noites brancas e outras histórias” pois contém outros contos curtos -antes de se enveredar por obras bem mais extensas e de infinitascomplexidades presentes nos relacionamentos humanos - e nãomenos deliciosas - como
Crime e castigo
,
Os irmãos Karamazov
ea própria obra referida no título desse texto. Os trechos abaixo sãoalguns dos muitos que mais me chamaram atenção durante a leitura -momentos que todo leitor, acredito, está passível durante leituras quepodem nos arrebatar para qualquer lugar no nada. Todavia, é claro,
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