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Projetotransnacionalredesenhao território político dacultura
Seminário busca
novos laços
 entre gupos sociais,artísticos, popularese acadêmicos
Páginas 3, 4 e 5
Mariza Veloso
e
Heloísa Buarque
 analisam o papelda cultura nas açõestransformadoras
Páginas 6 e 7
O rapper
GOG
fazsaudação à arte e à lutaanti-racial do mestre
Abdias Nascimento
Página 8
LE MONDE
diplomatique
BRASIL
 
 
ARTICULAÇÃO LATINO-AMERICANA: CULTURA E POLÍTICA
2
 
ARTICULAÇÃO LATINO-AMERICANA: CULTURA E POLÍTICA
3
O
que entendemos por “cultura” e “política” em nosso continente sãocategorias que, no decorrer da história, se combinaram de formas mui-to diferentes. Nos últimos anos, parece haver uma busca das duas di-mensões na criação de uma equação original, atenta e, quem sabe,aquilo que De Souza Santos chamou de uma “transição paradigmática”. Cultura epolítica protagonizam processos que, em diferentes partes do continente, ativaramuma poderosa revalorização dos conteúdos rituais, simbólicos e institucionais pro-venientes de manifestações populares, tanto na perspectiva dos movimentos sociaiscomo nas lutas dos povos originários, das reivindicações de gênero, das lutas sindi-cais e das múltiplas identidades raciais e étnicas que convivem em nosso territóriolatino-americano.É necessário enfatizar que, além do líder dos movimentos indígenas na Bolíviae do sacerdote que falou em guarani no Paraguai, duas mulheres presidem a Argen-tina e o Chile, e um metalúrgico ocupa a presidência no Brasil. Um fluxo e refluxotranscendente de transformações têm conectado os rios subterrâneos que fazem acomunicação, subjacente à realidade, entre a cultura e política, talvez construindoum único caudal simbólico que ainda não conta com sua própria estrutura. Porquenada evita que essas lideranças formais encontrem sérias dificuldades para criar napolítica pública visões que aparecem com maior nitidez nas manifestações culturaisreclamando direitos. Como em um sistema velho ainda predominante, a pobreza, adegradação do meio ambiente, a desigualdade e a violência sobressaem na vida co-tidiana, embora indiscutivelmente sua eliminação faça parte das reivindicações dasmaiorias populares. Mas o velho assiste a sua própria desarticulação, com renova-das forças éticas e políticas implementando paradigmas de nítida referência a direi-tos políticos, sociais, civis, econômicos, culturais, ambientais e sexuais.Além disso, esses cruzamentos entre política e cultura convivem com fenômenosde outra ordem que, no entanto, também são expressões de uma mesma transfor-mação. São subculturas urbanas, novas tecnologias, manifestações de religiosidadepopular que se mesclam aos avanços das igrejas eletrônicas. São criações das indús-trias culturais hegemônicas e dos meios de massa que permeiam expressões de bair-ros, coletividades ou grupos. É a explosão de organizações sociais que adotam a artecomo eixo de projetos comunitários... Todos, artistas de uma mudança de multifa-
Cultura e Política naintegração da América Latina
O
Grupo Executivo
da
 Articulação
é formado pelo argentino Eduardo Balán (Rede de Arte e TransformaçãoSocial), pelos brasileiros Guilherme Reis (Cena Contemporânea) e Iara Pietricovsky (Instituto de EstudosSocioeconômicos – Inesc) e pelos bolivianos Carlos Hugo Molina (Centro para la Participación y el DesarrolloHumano Sostenible – Cepad) e Sebastián Molina (Sociedade da Informação e Comunicação).
Com um seminário internacional realizado no Brasil, a rede
 Articulação Latino-Americana: Cultura e Política
começouum caminho de reflexão e de busca de novas conexões entre grupos sociais, populares, sindicais, artísticose acadêmicos que fazem da cultura um fator de transformação social e de demandas por direitos. A
 Articulação
 propõe uma agenda comum e um intenso programa de trabalho para o próximo Fórum Social Mundial na cidadede Belém, Brasil, com ações na Argentina, Brasil, Chile, Peru, Bolívia e vários países da América Central
ces que envolve e mistura tudo que identificamos com a cultura e com conflitos einstrumentos da política, reabrindo a discussão do sentido do espaço público.Não passa despercebido a ninguém que na América Latina a arte e a políticaviveram uma espécie de romance apaixonado durante toda sua história: desde asimagens de Siqueiros, passando pelo Olodum e AfroReggae, Victor Jara, o Sertão,o carnaval uruguaio, ou Rodolfo Walsh na Argentina, até o continente integrado naescola de samba do mesmo Rio de Janeiro que reinventa o hip hop nas favelas. Polí-tica e poesia, política e pintura, política e cinema, política e teatro Política e artesão, e sempre foram, elementos de uma roda que não pára de girar, às vezes commaior fluidez e outras não isentas de profundos debates. Porém, os termos dessarelação são os mesmos que lhe davam vida há algumas décadas? É possível pensarem uma nova equação entre eles?Paralelamente a esses debates, a conflituosidade se torna densa, em termos polí-ticos e econômicos, enquanto tangencia as estruturas de um tema fundamental,como é a definição do sentido democrático dos meios de comunicação. Se um doscenários privilegiados do cruzamento entre política e cultura é o espaço público ecomunitário, o outro é, sem dúvida, o dos grandes meios de comunicação. Arte,comunicação, cultura e política são faces de um debate que, na América Latina, sereveste de características muito singulares e diversas.Neste suplemento se dá conta da experiência fomentada por uma rede, a
 Articu-lação Latino- Americana: Cultura e Política
ALACP
, que pretende construirferramentas para, em todo o continente, fortalecer os processos, as iniciativas e aslutas que, em uma perspectiva de direitos, ocorrem nos países latino-americanos.Em um esforço em prol da conectividade com experiências sociais, populares, sindi-cais, artísticas e acadêmicas, tal articulação propõe uma agenda comum e um inten-so programa de trabalho para o próximo Fórum Social Mundial na cidade de Be-lém, Brasil, com ações na Argentina, Brasil, Chile, Peru, Bolívia e vários países daAmérica Central visando, basicamente, promover o encontro entre dois mundosque, aparentemente, seguem caminhos diferentes, como são aqueles que se conside-ram produtores exclusivamente culturais e os que fazem do político e do social a suatarefa cotidiana.Porque no centro do debate surge, mais uma vez, o que parece ser o núcleo in-tegral das duas construções (cultura e política) que são, nada mais, nada menos, asvisões sobre democracia. Diante das realidades de pobreza e ameaça a nosso plane-ta e a nossos recursos naturais, torna-se urgente transformar a política e a demo-cracia em ferramentas participativas de um desenvolvimento sustentável e eqüitati-vo. E, nessa linha, a reinvenção da democracia está exigindo, cada vez com maisforça, uma recuperação crítica e renovada das práticas culturais geradoras de umareal cidadania.Com muito a dizer e fazer nesse sentido, os movimentos sociais, de gênero, etniae raça, culturais e artísticos estão explorando formas de intercâmbio para dotar suaspráticas com a eficácia e a amplitude necessárias aos problemas atuais. É nessa pers-pectiva que a
 Articulação
lança ao mundo um espaço de conexão entre cultura epolítica, por meio de sujeitos políticos que produzem, de forma inédita e consistente,os movimentos sociais e culturais comprometidos com os direitos humanos e suaimplementação radical.A
 Articulação Latino-Americana: Cultura e Política
começou a ser pensadaem 2007, por pessoas e organizações (muitas das quais hoje integram o
GrupoConsultivo
do projeto) comprometidas com a defesa e promoção dos direitos hu-manos. As reuniões foram convocadas pela Fundação Avina. O projeto tem aindao apoio do Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher (Unifem)e da Oxfam Novib.
D
esde a sua criação, em 1991, o Mercado Comum do Sul, o Mercosul,desdenha o universo das formas culturais. A ignorância dos países so-bre os modos de criação e produção artísticos dos demais atravanca ocaminho de um bloco que, apesar dos 18 anos de maioridade simbólica,padece de obsessiva fixação nas plataformas da economia e dos negócios em detri-mento de horizontes mais afeitos à cidadania, como as manifestações artísticas ou aproteção ao ambiente. O déficit de direitos sociais é sentido na pele por milhões decrianças, mulheres e homens para os quais o acesso à cultura deveria mobilizar osgovernantes tanto ou mais quanto os estimulam os tratados de livre-comércio. Nãoé por acaso que ganha força a idéia da simbiose de movimentos sociais e culturais,com esperanças de esse magnetismo irradiar para todos os recantos latinos. Essapercepção encampou o I Seminário
 Articulação Latino-Americana: Cultura e Po-lítica
(
foto, à direita
), realizado em Brasília nos dias 1° e 2 de setembro. O encontrointernacional constituiu o primeiro fruto do projeto de mesmo nome sobre o qualpensadores, artistas, produtores e militantes da Argentina, Bolívia, Brasil e Colôm-bia trabalhavam havia pelo menos nove meses.Aberto ao público, o seminário colocou em relevo o pensamentocrítico sobre as realidades regional ou continental; a troca de expe-riências bem-sucedidas em alguns territórios; e a convicção urgentede que a interseção cultura-política não pode ficar fora da agendasocial. A atriz e antropóloga Iara Pietricovsky, uma das coordena-doras do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc), destacou aaproximação desses dois vetores fundamentais: de um lado, a cul-tura dos movimentos sociais, a militância; e, de outro, a manifesta-ção por meio das artes, a expressão cultural em sua essência. “Écomo se essas duas dimensões ainda não se articulassem, não cons-truíssem caminhos comuns de mudanças”, afirmou. A necessidadede ampliar a força de ação dessas duas instâncias teve acolhida noCena Contemporânea – Festival Internacional de Teatro de Brasília.A tônica política de sua nona edição expôs maturidade ao incorporar a discussão àgrade paralela de espetáculos de dança, teatro e música que igualmente problemati-zam as questões da contemporaneidade em suas temáticas e linguagens.O ator, músico e professor argentino Eduardo Balán, coordenador do grupo decultura comunitária El Culebrón Timbal, nos arrabaldes de Buenos Aires, diagnos-ticou “a audácia política e artística” desse formato para uma mostra de artes cêni-cas. Ele afirmou que é importante ter consciência de que a América Latina vive umaépoca de mudanças profundas no âmbito da tecnologia, com o potencial da inter-net, e da política institucional nos processos de democratização, vide as eleições dospresidentes Lula (Brasil), Hugo Chávez (Venezuela), Evo Morales (Bolívia), RafaelCorrea (Equador) e Fernando Lugo (Paraguai). Mas isso seria apenas a ponta doiceberg: a sociedade, segundo Balán, começa a transformar também os paradigmasde como a cultura e a política estruturam a vida, o cotidiano das populações. “Quemsabe, somos todos Galileus diante de uma nova etapa da humanidade”, disse o ator,
Um território comum para a política e a cultura
evocando o físico e astrônomo italiano Galileu Galilei (1564-1642), um dos prota-gonistas do Renascimento Científico.Um exemplo latente desse outro mundo possível foi citado coincidentementeduas vezes no seminário, nas falas da historiadora Wânia Sant’Anna e da antro-póloga e socióloga Mariza Veloso, da Universidade de Brasília (UnB). Ambas selembraram de Joênia Batista Carvalho Wapichana (
foto
), a primeira advogadaíndia a fazer uma defesa oral no Supremo Tribunal Federal. No mês anterior, elahavia subido à tribuna do STF para defender a demarcação contínua da reservaRaposa/Serra do Sol, em Roraima. E o fez lançando mão, em certas passagens,do dialeto indígena do seu povo wapichana. “É de emocionar ouvir essa mulherpintada com traços de guerra [no rosto] e podendo se expressar também por meioda linguagem dos brancos, do direito”, disse Veloso, autora do artigo O papel dacultura na integração sul-americana (
ver página 6
). “Guardei aquela imagem,chorei. Aprendi muitíssimo com a Joênia quando fazíamos parte do ConselhoNacional dos Direitos da Mulher, o qual ela também foi a primeira indígena aintegrar”, rememorou Sant’Anna.As duas manhãs do seminário transcorreram sob o signo da mo-derna arquitetura de Oscar Niemeyer, num dos auditórios do re-cém-inaugurado Museu da República, na Esplanada dos Ministé-rios, desenhado por esse homem de 100 anos cujo ímpetotransformador não esmorece. A diversidade característica da for-mação brasileira perpassou o encontro ainda na homenagem aopensador Abdias Nascimento, ícone da causa anti-racista, co-fun-dador do Teatro Experimental do Negro, no Rio de Janeiro dadécada de 1940, dramaturgo, poeta, pintor e homem público ce-lebrado nas vozes da cantora Ellen Oléria e do rapper GOG, refe-rências da cultura negra politizada em território brasiliense, comodestaca reportagem na página 8. “Esta é uma geração proativa”,definiu a editora e coordenadora do Programa Avançado de Cul-tura Contemporânea da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), HeloísaBuarque de Holanda (
ver página 7 
).Eis o caleidoscópio sobre o qual o seminário permitiu uma alentadora refle-xão. Resultou uma generosa partilha de proposições por parte do público e dosparticipantes que saíram convencidos de que seus caminhos podem levá-los a umfuturo mais próximo quando se trata de construir uma sociedade mais justa, éti-ca e digna da condição humana. É o que contempla a cobertura do encontronestas páginas, com textos que possibilitam ao leitor uma interpretação dos ace-nos e passos iniciais do projeto
 Articulação Latino-Americana: Cultura e Polí-tica
, como nesta anedota bastante elucidativa sugerida por Balán: “Os engenhei-ros costumam brincar que a única coisa que se constrói a partir de cima é o poço.Para tudo o mais, é necessário começar da base”.
Por Valmir Santos*
Contatos do Grupo Executivo:
Carlos Hugo Molina (Bolívia): carloshugom@gmail.com
|
Eduardo Balán (Argentina): eduardobalan@yahoo.com.arGuilherme Reis (Brasil): cenabrasilia@cenacontemporanea.com.br
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Iara Pietricovsky (Brasil): iarap@inesc.org.br
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Sebastián Molina (Bolívia): yopuej@gmail.com
Este suplemento é parte da edição n
o
15 (outubro de 2008) de
Le Monde Diplomatique Brasil 
Realização:
Projeto
 Articulação Latino-Americana: Cultura e Política
Edição e Produção:
Geraldinho Vieira e Luciana Costa
Reportagem:
Valmir Santos
|
 
Foto capa:
AfroReggae / Mila Petrillo
O festivalCenaContemporâneaabrigou aagenda dainterseçãocultura-política
   P  e   d  r  o   F  r  a  n  ç  a   A  r  q  u   i  v  o   S   T   F   M   i  g  u  e   l   M  e   l   l  o
*
Valmir Santos é jornalista e mestrando em Artes Cênicas pela Universidade de São Paulo.
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