3 Alguns dentre vós são pobres, acham duro viver, e estão, por assim dizer, esforçando-se por respirar. Não meresta dúvida de que alguns leitores deste livro não têm meios de pagar todos os jantares que comeram ou oscasacos e sapatos que estão depressa se gastando ou já se encontram gastos, e defrontam-se com esta páginapor conta de uma horinha emprestada ou roubada, passando para trás os credores. É bem evidente a vidamesquinha e vil que muitos levam, digo porque a experiência tem-me aguçado a visão para os que vivem nacorda bamba, tentando negócios para escaparem às dívidas — esse antiqüíssimo atoleiro que os latinoschamavam de
aes alienum,
o cobre alheio, pois algumas de suas moedas eram cunhadas nesse metal — aindaassim vivendo e morrendo, enterrados pelo dinheiro alheio, sempre prometendo pagar, jurando pagaramanhã e morrendo hoje insolventes; bajulando por favores, angariando fregueses de mil e um modos desdeque não redundem em prisão, mentindo, chaleirando, votando, enredando-se em meia dúzia de palavrascorteses ou expandindo-se numa atmosfera de melíflua e vaporosa generosidade a fim de persuadirem o vizinho a deixá-los engraxarem seus sapatos, escovarem seu chapéu e casaco, limparem sua carruagem, ouainda carregarem para ele compras da mercearia; fazendo-se de doentes de modo a economizarem algo parao dia em que estejam de fato doentes, algo a ser guardado numa velha cômoda ou armazenado atrás doreboco, melhor ainda, na bancada de tijolos, não importa onde, não importa se muito ou pouco. Às vezes me espanto de que possamos ser tão frívolos, ouso até dizer, a ponto de atentarmos para a grosseirae algo adventícia forma de cativeiro conhecida por escravidão negra, quando há tantos senhores sutis eastutos que escravizam quer no norte, quer no sul. É ruim ter um capataz sulista, pior ter um nortista. Mas asituação pior de todas é quando se é o feitor de si mesmo. Falar da natureza divina do homem! Olhai ocarroceiro na estrada real, dia e noite a caminho do mercado. Move-o algo de divino? Seu dever mais elevadoconsiste em dar forragem e água aos cavalos. Que representa para ele o próprio destino comparado aos lucroscom o carreto? Não trabalha para um Senhor Importantão? Que história é essa de ser divino, imortal? Basta ver como se agacha e se esgueira, como teme vagamente ao longo do dia, não sendo imortal nem divino,porém escravo, prisioneiro da opinião que tem de si mesmo, da reputação ganha à custa de seus atos.Comparada com a opinião que temos de nós mesmos, a opinião pública é uma débil tirana. O que um homempensa de si, eis o que determina, ou pelo menos indica, o seu destino. Haja auto-emancipação também nas Antilhas da fantasia e da imaginação. Que Wilberforce
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será capaz de desencadeá-la? Pensem, igualmente,nas senhoras do país que tecem almofadas de toalete até a hora da morte para não deixarem transparecer uminteresse muito vivo em seus destinos! Como se se pudesse matar o tempo sem lesar a eternidade.Os homens, em sua maioria, levam vidas de sereno desespero. O que se chama resignação é desesperocrônico. Vão das cidades sem perspectiva para o campo sem futuro, e terminam por se consolar com a valentia das martas e dos ratos almiscareiros. Uma desesperança estereotipada mas inconsciente esconde-semesmo sob os chamados jogos e diversões da humanidade. Não há graça neles já que sucedem ao trabalho.Entretanto, manda a sabedoria não se desesperar com as coisas.Quando consideramos aquilo que, para usar as palavras do catecismo, é a principal finalidade do homem, eem que consistem as verdadeiras necessidades e recursos da vida, tem-se a impressão de que os homenselegeram deliberadamente seu habitual modo de viver porque o preferiram a qualquer outro. No entanto,pensam honestamente que não há opção, se bem que espíritos altivos e saudáveis dêem-se conta de que o solnasce todas as manhãs e de que nunca é tarde demais para abrir mão de preconceitos. Afinal, nenhum modode pensar ou agir, por mais consagrado que seja, pode merecer cega confiança. O que, hoje todos aceitam,louvando ou em silêncio, pode revelar-se amanhã como um equívoco, mera fumaça de opinião que algunstomaram por nuvem que espargiria chuva fecundando os campos. O que as pessoas mais velhas dizem quenão podeis fazer, tentam e acabam por conseguir. Fiquem os velhos com as velharias e os novos com asnovidades. Tempo houve em que as pessoas de idade eram incapazes de arranjar combustível para manter o
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William Wilberforce (1759-1833), parlamentar inglês que lutou pela libertação dos escravos nas Antilhas Inglesas.
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303211 magn303255fico,todos deveriam aprender sobre o que realmente tem valor.303211 altamente recomend303241vel.Obrigado.
obrigadão ai.. adorei!
maravilha cara! valeu