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HistÓrIa da FilosofiaVolume seteNicola AbbagnanoDIGITALIZAÇÃO E ARRANJOS:Ângelo Miguel Abrantes(segunda-feira, 30 de Dezembro de 2002)HISTÓRIA DA FILOSOFIAVOLUME VIITRADUÇÃO DE: ANTóNIO RAMOS ROSA ANTóNIO BORGES COELHOCAPA DE: J. C.COMPOSIÇÃO E IMPRESSÃOTIPOGRAFIA NUNESR. José Falcão, 57-PortoEDITORIAL PRESENÇA * Lisboa 1970TITULO ORiGINAL STORIA DELLA FILOSOFIACopyright by NICOLA ABBAGNANOReservados todos os direitos para a língua portuguesa à EDITORIALPRESENÇA, LDA. - R. Augusto Gil, 2 cIE. - LisboaviLEIBNIZ§ 436. LEIBNIZ: VIDA E ESCRITOSSe a filosofia de Espinosa é uma doutrina da ordem necessária do mundo,a filosofia de Leibniz pode ser descrita como sendo uma doutrina daordem livre do mundo. A diferença entre as duas filosofias tem o seufundamento na diferença entre dois conceitos de razão: a razão é paraEspinosa afaculdade que estabelece ou reconhece relações necessárias, ao passoque é para Leibniz a simples possibilidade de estabelecer relações.Gotfried Wilhelm Leibniz nasceu a 21 de Junho de 1646 em Leibniz. Foium garoto precoce: aprendeu sozinho o latim e muito cedo conseguiu darsoluções pessoais aos problemas que se debatiam nas escolas. Estudoujurisprudência em Leipzig e emAltdorf (perto de Nuremberga), onde se licenciouem 1666. Os seus primeiros escritos são precisamente teses para aobtenção de títulos académicos: umadiscussão intitulada De principio individui, vários escritos jurídicose a Ars combnatoria em que se anuncia já a sua ideia de um "alfabeto
 
dos pensamentos humanos" e de uma lógica organizada matematicamente.Em Nuremberga, Leibniz trava conhecimento com o barão de Boineburgo, umdos mais eminentes homens políticos alemães da época, que o levou aFrancoforte e o apresentou ao Eleitor de Mogúncia. Leibniz escreveentão o Novo nwthodus discendãe docendaeque jurisprudentiae (1667), queé o mais importante dos seus ensaios jurídicos. Em Mogúncia obtém ocargo de conselheiro do Eleitor e desempenha vários cargos científicose políticos. Começava assim a actividade política, que ocupou grandeparte, da sua vida e que, embora sendo inspirada por circunstânciasocasionais e pelo interesse das pessoas que se valeram dele, obedece noseu conjunto a um grandioso desígnio: o de uma organização políticauniversal ao serviço da civilizaçã o e da ciência. Entretanto, a suaactividade filosófica incide sobre problemas de ordem teológica, lógicae sobretudo física. Em 1671 compõe a Hypothesis physica nova. Iniciatambém neste período a correspondência com os maiores cientistas dotempo, na qual se encontra consignada boa parte da sua actividade deescritor.Em 1762, Leibniz foi enviado a Paris com uma missão diplomáticadestinada a dissuadir Luís XIV da sua projectada invasão da Holandainspirando-lheo desejo de conquistar o Egipto. O projecto gorou-se e foi declaradaguerra à Holanda. Leibniz foi autorizado a permanecer em Paris, ondeestreitou relações com os homens mais importantes da época. Aípermaneceu quatro anos que foram decisivos para a sua formaçãocientífica. Em França dominava então o cartesianismo, mas Leibnizinteressou-se sobretudo pelas descobertas matemáticas e físicas. Em1676, descobriu o cálculo integral que no entanto só tornou público em1684 nos "Acta cruditorum". O cálculo integral havia sido descobertopor Newton uma dezena de anos antes; mas Leibniz fez a sua descobertaindependentemente eformulou-a de modo a torná-la mais fecunda, possibilitando uma maisrápida e cómoda aplicação. Em 1676, regressou à Alemanha, onde aceitou ocargo de bibliotecário junto do duque de Hannover, João Federico deBraunchweig-Luneburg. Na viagem de Paris a Hannover, travouconhecimento com Espinosa em Haia e com ele teve longas conversações.Espinosa havia então já terminado a sua Ética e por isso,provavelmente, nada lhe trouxe oconhecimento de Leibniz. Mas Leibniz viu-se, neste encontro com ele,perante uma doutrina que era directa e simètricamente oposta à sua. Eesta doutrina tornou-se, nos seus escritos filosóficos e especialmentena Teodiceia, o seu ponto de referência polémico constante. Leibnizacabou por ver nela a expressão típica do ateísmo, do naturalismo eespecialmente daquela necessidade cega que nega a liberdade humana e aprovidência divina.Leibniz permaneceu durante a vida inteira ao serviço dos Duques deHannover. Primeiro bibliotecário, depois historiógrafo da casa, foiincumbido pelos príncipes de Hannover dos mais variados encargos e foio defensor teórico da sua política. Numerosos escritos políticos foramcom esse intuito compostos por ele. A sua obra maior neste campo é apesquisa histórica que empreendeu sobre as origens da casa deBraunschweig, que pretendia descender do próprio tronco dos Estc.,di. Afim de demonstrar com documentos a exactidão desta genealogia, Leibnizviajou durante três anos (1687-90) pela Alemanha e Itália para
 
consultar arquivos e descobrir documentos; mas essa viagemproporcionou-lhe também o ensejo de abordar cientistas e homens váriose de nutrir a sua insaciável curiosidade científica. Mais conforme aosseus ideais foi o projecto, em que trabalhou longamente, de reunir aIgreja católica à protestante. Também este projecto lhe foi sugeridopelo interesse dos Duques de Hannover que, sendo católicos, governavamno entanto um país protestante. Leibniz manteve numerosacorrespondência com muitos homens da época, e especialmente comBossuet, que defendia o ponto de vista católico. O projecto falhou, masas tentativas feitas por Leibniz nesta ocasião revelavam oaspecto fundamental do seu pensamento, que é o de tender a uma ordemuniversal na qual encontrem lugar e se harmonizem espontâneamente osmais diversos pontos de vista.Esta mesma tendência se revela nas suas tentativas de organizar naEuropa uma espécie de10República das ciências em que participassem, através das academiasnacionais, os homens de ciência de toda a Europa. Em 1700, fundou emBerlim, segundo o modelo da sociedade de Paris e de Londres, umasociedade das ciências que se tornou depois a Academia Prussiana. Emseguida, tendo sabido, através de padres missionários e especialmenteGrimaldi, do grande interesse que o imperador chinês mostrava pelasciências, bem como das tentativas realizadas por cientistas chineses,pensou também estabelecer contactos culturais com a China. Quando Pedroo Grande empreendeu a renovação cultural da Rússia, Leibniz tornou-seseu conselheiro e fez projectos para as instituições que deviam levar aRússia a participar daquela organização universal das ciências queLeibniz patrocinava.A pesquisa científica e filosófica constituía a actividade privada deLeibniz. Ela está quase toda consignada na sua vastíssimacorrespondência e embreves ensaios publicados nas revistas do tempo. Em 1684 publicava nos"Acta cruditorum" o Nova methodus pro maximis et minimis em que tornavaconhecida a sua descoberta do cálculo integral. Entretanto perseguia oseu ideal de uma ciência que contivesse os princípios e os fundamentosde todas as outras e determinasse os caracteres fundamentais comuns atodas as ciências e as regras da combinação delas. Os resultados queLeibniz alcançou restas tentativas encontram-se em vários manuscritos,tais como Mathesis universalis, Iiútia mathenwtica, etc.Quase todos os escritos de Leibniz têm carácter circunstancial. Em 1681compôs o Discurso de metafísica, um breve ensaio, que todavia é umdocumento importante do seu pensamento. Seguiram-se-lhe o Novo sistemada natureza e da comunicação das substâncias (1695); os Princípios danatureza e da graça fundados na razão (1714); a Monadologia (1714),dedicada ao Príncipe Eugénio de Sabóia, que ele conhecera em Viena; osNovos ensaios sobre o intelecto humano (1705), que é uma crítica daobra de Locke. O único livro publicado (em 1710) por Leibniz foi oEnsaio de teodiceia que teve o seu ponto de partida nas críticasexpostas por Bayle no artigo Rorarius do seu Dicionário histórico ecrítico da filosofia. Leibniz nunca escreveu uma exposição completa e
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