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A imitação pode curar

A imitação pode curar

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11/02/2013

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A imitação pode curar 
 Neurônios-espelho nos permitem simular internamente as ações dos outros. A medicina está interessada nessa  propriedade para facilitar a reabilitação de pessoas que sofreram derrame Ferdinand Binkofski e Giovanni Buccino
“Fascinante!”, costumava dizer Dr. Spock, da clássica série de TV americana Jornada nas estrelas. O primeiro oficialda nave Enterprise vivia se surpreendendo com o comportamento dos terráqueos. “Fascinante” para Spock era o
mesmo que estranho, incompreensível. Sua frieza e racionalidade, marca de seu povo
 – 
os vulcanos
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o impedia dereconhecer intenções e emoções alheias, algo em que nós terráqueos somos especialistas. Apesar disso, durantemuito tempo essa façanha cerebral permaneceu incógnita para a ciência. Até pouco tempo atrás, os neurocientistasse concentravam nos processos inerentes ao indivíduo, sem dar maior atenção à forma como compartilhamosnossas experiências, pensamentos e sentimentos. Com a descoberta dos neurônios-espelho isso mudouradicalmente.Essas células foram descobertas por acaso em 1994 na Universidade de Parma, Itália, pelos neurocientistasGiacomo Rizzolatti, Leonardo Fogassi e Vittorio Gallese. Eles constataram que a simples observação de açõesalheias ativava as mesmas regiões do cérebro dos observadores normalmente estimuladas durante a ação do próprioindivíduo. Ao que tudo indica, nossa percepção visual inicia uma espécie de simulação ou duplicação interna dos
atos de outros (ver “Reflexo revelador”, Mente
& Cérebro 161, junho de 2006).Em 2001, um grupo coordenado por um de nós (Giovanni Buccino), também de Parma, resolveu estudar essesneurônios mais a fundo. Usando ressonância magnética funcional (fMRI), os pesquisadores mediram a atividadecerebral de voluntários enquanto eles assistiam a um vídeo que mostrava seqüências de movimentos de boca, mãose pés. Dependendo da parte do corpo que aparecia na tela, o córtex motor dos observadores se ativava com maiorintensidade na região que correspondia à parte do corpo em questão, ainda que eles se mantivessem absolutamenteimóveis. O cérebro parece associar a visão de movimentos alheios ao planejamento de seus próprios movimentos.Poderia essa propriedade espelho ser útil no tratamento de certos distúrbios neurológicos?
Observar e reaprender 
Os neurônios-espelho têm despertado o interesse de um número cada vez maior de médicos e fisioterapeutas quelidam com pacientes com sequelas motoras decorrentes de acidente vascular cerebral (AVC). Tais sequelascostumam ser minimizadas, até certo ponto, graças à fisioterapia e à plasticidade cerebral, fenômeno em que regiõespróximas à área lesionada pouco a pouco vão assumindo as funções comprometidas. No entanto, essa recuperaçãoparcial depende de treinamento intensivo durante longo tempo. A pergunta que intriga os especialistas da área é: aobservação prévia dos movimentos a serem reaprendidos não aceleraria o processo? É bem possível que acoordenação seja mais fácil se os neurônios-espelho responsáveis por esses movimentos forem estimulados emuma espécie de pré-aquecimento.Com base nessa hipótese, nós desenvolvemos no Hospital Universitário de Schleswig-Holstein em Lübeck, Alemanha, um programa de reabilitação de pacientes cujas regiões corticais motoras haviam sido lesionadas por AVC. Primeiramente os participantes assistiram a um filme de seis minutos que mostrava uma sequência demovimentos (por exemplo: estender o braço, abrir a mão, segurar uma maçã, levá-la à boca e por fim mordê-la).Em seguida, cada paciente tentava imitar o que acabara de ver, a fim de consolidar a representação da sequência nocérebro. Depois de 40 dias de treinamento, a habilidade motora dos participantes melhorou muito mais rápido doque a dos indivíduos do grupo de controle, que não assistiram a vídeo algum.Em outro estudo, realizado com 22 vítimas de AVC com sérias dificuldades para movimentar braços e mãos,confirmamos o mesmo resultado: o treinamento dos movimentos perdidos funcionou mais rapidamente quando,antes de cada sessão de exercícios, os pacientes assistiram a filmes curtos nos quais movimentos de mão e braçosforam apresentados. Com ajuda da fMRI, conseguimos demonstrar que, paralelamente a essa melhora namotricidade, também as regiões do córtex motor estavam mais ativas. Além disso, as áreas responsáveis pelo
 
planejamento de movimentos haviam sido aparentemente reforçadas. Concluímos, portanto, que a simulaçãointerna realmente facilita a execução de movimentos pelos próprios pacientes.Como já foi demonstrado por diversos estudos, os neurônios-espelho reagem a um grande espectro demovimentos diferentes
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seja quando pegamos um objeto, mordemos uma maçã ou chutamos uma bola. Além domais, não é necessário que a ação seja executada por um representante de nossa própria espécie. O grupo deBuccino mostrou a voluntários imagens de bocas humanas, símias e caninas. Os movimentos se dirigiam a umobjeto
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melhor dizendo, alguma coisa era comida
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ou tinham caráter puramente comunicativo. Na últimaseqüência, o homem movia os lábios para falar, o macaco torcia os lábios e o cão latia.
Limite do desconhecido
Curiosamente, tanto a mastigação humana quanto a dos animais ativaram igualmente os neurônios-espelho dos voluntários. Durante as cenas que retratavam comunicação, entretanto, a ressonância neuronal só ocorreu quandoenvolveu seres humanos. Assim, parece que os neurônios-espelho reagem apenas a ações que são parte do própriorepertório motor. Como latidos não fazem parte dele, nenhuma simulação interna é possível. Tudo leva a crer que a atividade dos neurônios-espelho depende de quão bem conhecemos o que estamos vendo.Deve ser por isso que, ao final do treinamento, nossos pacientes eram capazes apenas dos movimentos que jádominavam antes do AVC. Sabemos que o controle de seqüências de movimentos completamente desconhecidasenvolve processamento consciente. Quem nunca jogou tênis, por exemplo, dificilmente irá aprendê-lo apenas pelaobservação e imitação.Outro fato significativo para a prática clínica é o de o mesmo movimento poder surgir em diferentes contextos eservir para objetivos diversos. Por exemplo: quando alguém, à mesa do café da manhã, pega uma xícara, pode estarquerendo tomar um gole de café ou apenas tirar o objeto de cima da mesa. Será que é preciso se concentrarconscientemente na intenção de uma ação para ativar os próprios centros pré-motores? O neurocientista MarcoIacoboni, da Universidade da Califórnia em Los Angeles, investigou essa questão. Os participantes do estudocoordenado por ele também assistiram a vídeos curtos nos quais o mesmo movimento era apresentado, cada vezcom um objetivo diferente: numa cena uma pessoa pegava uma xícara para beber o que havia nela; na outra, paralavá-la. Também foram mostradas as mesmas ações desvinculadas de contexto e ainda objetos como pratos,talheres e copos, sem que nada se movesse (ver quadro na pág. 90).Os resultados revelaram que nem a ação nem o ambiente isolados ativaram os neurônios-espelho tão intensamentequanto a combinação de ambos
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afinal, apenas no último caso é possível perceber qual a intenção da pessoa naação. Da mesma forma, o contexto em que os movimentos se realizaram tem um papel importante, pois uma
“atividade cega”, sem objetivo reconhecível, é menos eficaz para o (re)aprendizado motor. No entanto, mais
estudos são necessários para confirmar esses achados.O que podemos afirmar é que a simulação interna por meio da estimulação dos neurônios-espelho não apenaspermite prever as intenções alheias como abre novos caminhos para que pessoas que sofreram derrame voltem adominar movimentos que acreditavam para sempre perdidos.Entender as intenções de outros é fundamental para o comportamento social, e os neurônios-espelho de humanospareceram conferir essa capacidade em um experimento projetado para testar seu reconhecimento de intenções. A voluntários foram exibidos clipes de vídeo mostrando duas ações similares de pegada de xícara sem contexto, doiscontextos sem ação e combinações de atos e contextos que sinalizavam a intenção da ação: um arranjo para o cháda tarde sugeria que a xícara estava sendo pegada para o propósito de beber, o outro, que o chá tinha acabado e axícara tinha de ser lavada. A ativação de populações de neurônios-espelho em áreas do córtex pré-motor em ambosos hemisférios cerebrais dos participantes foi maior em resposta a cenas de ação com claras intenções. Osneurônios-espelho também distinguiram entre intenções possíveis, respondendo mais intensamente à funçãobiológica básica de beber que ao ato culturalmente adquirido de limpar.

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