Welcome to Scribd, the world's digital library. Read, publish, and share books and documents. See more
Download
Standard view
Full view
of .
Look up keyword
Like this
6Activity
0 of .
Results for:
No results containing your search query
P. 1
17248

17248

Ratings: (0)|Views: 334 |Likes:
Published by UrbanoNunes

More info:

Published by: UrbanoNunes on Mar 12, 2009
Copyright:Attribution Non-commercial

Availability:

Read on Scribd mobile: iPhone, iPad and Android.
download as PDF, TXT or read online from Scribd
See more
See less

09/30/2012

pdf

text

original

 
175
O
fenômeno da agressão entre os seres humanos temsido abordado em disciplinas tão distintas como asociologia, a biologia, a antropologia e a psicologia.Cada área do conhecimento vê o tema sob uma diferente pers-pectiva e desenvolve hipóteses, algumas mais amplas, com autilização de fatores demográficos, culturais ou de princípiosevolucionistas, outras mais específicas, utilizando-se de altera-ções metabólicas ou processos cognitivos para explicar asorigens do comportamento agressivo (Tedeschi & Felson,1994). De acordo com a perspectiva utilizada, pode-se incluirsob o tema da agressão, eventos tão díspares quanto homicí-dios, violência intra-familiar ou mesmo guerras. Entretanto, acompreensão de fenômenos complexos exige que os mode-los explanatórios sejam elaborados a partir de uma perspecti-va integradora.O presente trabalho inicia com uma reflexão sobre osníveis de análise do comportamento humano, partindo logo a
Fatores etiológicos da agressão física: uma revisão teórica
Christian Haag Kristensen Juliane Silveira Lima Mirela Ferlin
Universidade do Vale do Rio dos Sinos
 Renato Zamora Flores
Universidade Federal do Rio Grande do Sul
 Patrícia Hauschild Hackmann
Prefeitura Municipal de Porto Alegre
Resumo
Considerando o fenômeno do comportamento agressivo, inicialmente são apresentadas quatro abordagensteóricas abrangentes: etologia, psicanálise, behaviorismo e teoria da aprendizagem social. Após uma análisecrítica destas abordagens, modelos teóricos recentes são apresentados: cognitivismo neo-associacionista,processamento de informação social, interacionismo social e modelo geral de agressão baseado em estruturasde conhecimento. Finalmente, argumenta-se que o emprego de uma abordagem biológica pode enriquecer osmodelos atuais do comportamento agressivo, oferecendo explicações tanto sobre as pressões ambientais aolongo do processo evolutivo quanto sobre a influência das interações sociais na organização e funcionamentodo sistema nervoso central.
Palavras-chave: agressão física, modelos teóricos, biologia
Abstract
 Etiological factors of physical aggression: a theoretical review
. Four theoretical approaches are initiallyreviewed regarding human aggressive behavior: ethology, psychoanalysis, behaviorism, and social learningtheory. After a critical appraisal of these models, the recent theoretical approaches of cognitiveneoassociationism, social information processing, social interactionism, and general aggression model basedon knowledge structures are presented. Finally, it is proposed that a biological approach can be very usefulas a way of explaining the environmental pressures throughout evolution, as well as the impact of socialinteractions on human brain.
Keywords: physical aggression, theoretical models, biology
seguir para a definição conceitual da agressão e, particular-mente, da agressão física. As teorias clássicas sobre o fenôme-no são apresentadas, destacando as contribuições da etolo-gia, psicanálise, behaviorismo e aprendizagem social. Poste-riormente, são revisados modelos teóricos recentes, dentreos quais o cognitivismo neo-associacionista, o processamentoda informação social, o interacionismo social e o modelo ge-ral da agressão baseado em estruturas de conhecimento. Final-mente, são sugeridas algumas possíveis contribuições daabordagem biológica para o alargamento dos níveis de análi-se nos modelos teóricos anteriormente mencionados.
 Definições e níveis de análise
A causalidade, para os seres vivos, pode ser de doistipos. As causas próximas são as que dizem respeito ao indi-víduo e seus modos de funcionamento, sejam essesbioquímicos ou psicológicos. As causas últimas, também
 
 Estudos de Psicologia 2003, 8(1), 175-184
 
176
chamadas de históricas ou evolutivas, são as que procuramexplicar por que os indivíduos, como conjunto, são de umacerta maneira e não de outras tantas possíveis (Mayr, 1998).Grande confusão nas explicações psicológicas de determina-dos aspectos do comportamento humano pode ser produzi-da justamente pela falta de diferenciação entre os níveis deanálise de suas causas (Alessi, 1992). Mas ao procurar com-preender o ser humano a partir de uma concepçãobiopsicossocial, não é possível evitar a análise em mais deum nível, pois os fenômenos humanos devem ser resultantesde múltiplas determinações.A ciência geralmente se preocupa com as questões dotipo “como”. Sendo assim, causas próximas são maiscomumente investigadas. Por exemplo, abordar a agressãofísica entre adolescentes descrevendo as interações imedia-tas entre os membros de um grupo significa priorizar as cau-sas próximas e buscar as origens do comportamento em pro-cessos ontogenéticos (Lehner, 1996). Já na investigação decausas últimas, o questionamento se direciona sobre o “por-quê” (Alcock, 1998). Esse questionamento só pode ser res-pondido a partir de considerações históricas, e a história dosprocessos psicobiológicos é, por definição, evoluçãodarwiniana (Lumsden, 1988). Deriva-se, dos pontos acimamencionados, a necessidade de buscar uma perspectivaintegradora para a explicação da agressão física que incluadiferentes níveis de análise e, ao mesmo tempo, mantenhaclareza sobre o tipo de explicação que está sendo empregado.Mas para tanto, é preciso que o próprio fenômeno em ques-tão seja corretamente definido.Dentro destes parâmetros, é importante distinguir os ter-mos agressão e violência que, apesar de semelhantes, nãodesignam, exatamente, o mesmo fenômeno. Agressão (do la-tim
aggressione
) significa disposição para agredir, disposi-ção para o encadeamento de condutas hostis e destrutivas(Ferreira, 1999). Significa ainda ataque à integridade física oumoral de alguém ou ato de hostilidade e provocação (Houaiss,Villar & Franco, 2001). Violência deriva do latim
violentia
,significando a qualidade de violento, qualidade daquele queatua com força ou grande ímpeto, empregando a ação violen-ta, opressão ou tirania, ou mesmo qualquer força contra avontade, liberdade ou resistência de pessoa ou coisa. Podesignificar, ainda, constrangimento físico ou moral exercidosobre alguma pessoa para obrigá-la a submeter-se à vontadede outrem (Ferreira, 1999). Violento, por sua vez, é um adjeti-vo que indica aquilo que ocorre com uma força extrema ouuma enorme intensidade (Houaiss et al., 2001). Na busca poruma terminologia mais apropriada, etologistas propuseramuma distinção entre comportamento predatório e comporta-mento agonístico. Enquanto o primeiro caracteriza situaçõesde ataques entre animais de diferentes espécies – no qual umserve como fonte de alimento para outro – o comportamentoagonístico refere-se a situações de lutas e ameaças entre in-divíduos da mesma espécie (Lorenz, 1966). Já no âmbito dasciências humanas, a distinção entre a agressão premeditada eimpulsiva remonta há pelo menos dois séculos, atualizando-se nos conceitos de agressão instrumental e reativa (ouafetiva). Como será visto posteriormente, esta distinção, em-bora comumente empregada (Geen, 1998), não representa umconsenso entre os pesquisadores da área (Bushman &Anderson, 2001).Conforme Niehoff (1999), agressão é um comportamentoadaptativo entendido como a utilização de força física ouverbal em reação a uma percepção de ameaça. Por sua vez,violência é um comportamento mal-adaptativo, que consisteem uma agressão direcionada ao alvo errado, no lugar errado,no tempo errado e com a intensidade errada.Operacionalmente, o comportamento agressivo é uma cate-goria que engloba atos que variam de acordo com manifesta-ções típicas para cada idade, severidade e escolha do opo-nente ou vítima (Loeber & Hay, 1997). Distintamente, violên-cia é uma característica de algumas formas de agressão com oobjetivo de causar dano extremo (Anderson & Bushman,2002) entre co-específicos de uma espécie bem particular: sereshumanos.
Perspectivas teóricas clássicas sobre a agressão:uma breve revisão
Diferentes perspectivas teóricas têm sido utilizadas paraa compreensão do fenômeno da agressão. Destacam-se, den-tre as teorias mais generalistas, tanto as contribuições domodelo de evolução por seleção natural proposto por CharlesDarwin quanto a psicanálise desenvolvida por Sigmund Freud,ambas já centenárias. A partir dessas originais formulações,outras abordagens foram geradas, sendo merecedoras dedestaque as contribuições da etologia, do behaviorismo e daaprendizagem social. Sem a pretensão de esgotar cada umdos aportes teóricos acima mencionados, esta seção resgatabrevemente suas principais contribuições para a compreen-são do comportamento agressivo.
 Etologia
Em seu último livro, de 1872,
 A expressão das emoçõesno homem e nos animais
, Darwin (1998) causou grande im-pacto ao afirmar que o comportamento humano é controladopelos mesmos mecanismos que governam o comportamentodos demais organismos. Nas décadas de 30 e 40 um grupo decientistas, que se auto-determinavam etologistas, como NikoTinbergen, Konrad Lorenz e Karl von Frisch, e geneticistasde insetos, como Seymour Benzer, aumentou a complexidadedo modelo biológico ao mostrar que os instintos, que consis-tem em rotinas e sub-rotinas comportamentais, apresenta-vam um componente genético que poderia ser “dissecado”pelos métodos tradicionais da biologia: existiam genes queregulavam os ritmos da vida, a memória e o esquecimento eos modos de identificar parceiros sexuais.Nesta hierarquia informacional, um instinto é diferentede um reflexo, que é uma simples resposta dada instantanea-mente pelo organismo a algum estímulo, sem o envolvimentode um centro cerebral (como o reflexo patelar, nos adultos, oua fuga à asfixia, em bebês). Os instintos tornam-se mais com-plexos à medida que o sistema nervoso de uma espécie tam-bém se sofistica. Por exemplo, todos os casos de alteraçõesno processo de cortejo sexual entre insetos são devidos à
C.H. Kristensen et al.
 
177
alterações genéticas. No caso dos humanos, ainda que a baseneural da sexualidade esteja bem estabelecida (Blum, 1998) eque haja fortes indícios de mutantes humanos para o com-portamento sexual, muitos indivíduos apresentam variaçõesna sexualidade de origem predominantemente ambiental.Assim, há críticas óbvias à aplicação, sem reservas, dotermo instinto no que se refere às influências biológicas nocomportamento agressivo em seres humanos. Um exemplode simplificação é o “instinto da agressão”, que foi descritopor Lorenz (1966) não como um princípio diabólico que tempor finalidade a destruição e a morte, mas como um contribu-inte da preservação e organização da vida. Dentre todas aslutas entre espécies diferentes, a função preservadora é ain-da mais evidente na agressão intra-específica. Para Lorenz,as funções básicas do comportamento agressivo animal sãoreguladas pelos instintos de hierarquia, territorialidade e de-fesa da prole. Eles irão agir, ou serão suprimidos, de acordocom a situação em que o animal se encontra. Para Lorenz(1966), as pulsões agressivas são o resultado da “pressão daseleção intra-específica” (p. 253), que fez surgir no homem,há muito tempo atrás, uma certa quantidade deste comporta-mento, para o qual ele não encontra um escape adequado nasociedade atual.Finalmente, outra contribuição da etologia se refere àdefinição de diferentes classes de comportamento agressivo.A classificação mais amplamente reconhecida é a de Moyer(1976), diferenciando o comportamento agressivo em preda-tório, territorial, inter-machos, defensivo, induzido pelo medo,maternal, irritável e instrumental. Para este autor, cada subtipoé controlado por substratos neuroanatômicos eneuroquímicos distintos e, algumas vezes, sobrepostos.
Psicanálise
Entretanto, a agressividade não era um domínio exclusi-vo da etologia. Embora Freud, especialmente na parte inicialde sua obra, não tenha atribuído muita relevância ao tema, apartir da “virada de 1920” percebe-se um escalonamento noestudo do comportamento agressivo. Em
Três ensaios sobrea teoria da sexualidade
(1905/1989), é apresentada a idéia deque na fase sádico-anal a criança desenvolve um componen-te de crueldade da pulsão sexual. Essa crueldade não teriapor objetivo o sofrimento alheio, mas simplesmente não olevaria em conta. Apesar disso, essa crueldade seria um traçonormal da infância, pois a trava que limita a pulsão de domi-nação, e faz com que a criança se detenha diante da dor dopróximo, se desenvolveria tardiamente. Com isso, Freud con-clui que a agressividade começa a se formar junto ao desen-volvimento do indivíduo.Em
O ego e o id 
(1923/1989), Freud fala sobre duas clas-ses de pulsões:
 Eros
, ou pulsão de vida e
Thanatos
, ou pulsãode morte. O primeiro abrange o conjunto das pulsões quecriam ou mantém a unidade (pulsões sexuais e pulsões deauto-conservação). Contrapondo-se às pulsões de vida, es-tão as pulsões de morte, que visam a redução completa dastensões. Essa pulsão está voltada, inicialmente, para o interi-or e tendendo à auto-destrutividade. Secundariamente se di-rigiria para o exterior, manifestando-se então sob a forma dapulsão de agressão ou de destruição. A pulsão de morte tor-na-se pulsão de agressão quando é desviada para o mundoexterno, fazendo notar-se através da agressividade edestrutividade. Sendo assim, essa pulsão está a serviço de
 Eros
, pois o organismo, quando escoa para fora esta energia,destrói outro objeto ao invés de destruir seu próprio eu
(self 
).Inversamente, se houvesse qualquer restrição dessaagressividade dirigida para fora, só aumentaria aautodestruição. Por isso, Freud acreditava na necessidadede atividades sociais que servissem como válvula de escapepara toda a energia armazenada, ponto de vista compartilha-do por etólogos como Lorenz.Em
O mal-estar na civilização
(1930/1989), Freud assi-nala que a agressão é o maior impedimento à civilização. Ainclinação que os homens têm para a agressão constitui ofator que perturba os relacionamentos com o próximo. “Emconseqüência dessa hostilidade primária dos seres humanos,a sociedade civilizada se vê permanentemente ameaçada dedesintegração” (p. 134).
 
Por outro lado, afirma que sem a agres-são o homem não se sente confortável. Posteriormente, emcarta enviada a Albert Einstein, indagado sobre o que pode-ria ser feito para proteger a humanidade da maldição da guer-ra, Freud (1932/1989) escreveu que o instinto agressivo natu-ral do homem é um atraso para a evolução da civilização eseria inútil tentar eliminar as inclinações agressivas dos ho-mens, pois esta é uma característica psicológica da civiliza-ção.
 Behaviorismo
Todavia, Freud não especificou se a energia psíquicatratava-se de uma energia real, ou metafórica. Caso ela sejametafórica, não pode ser medida, logo, não há como provarque a energia aumenta com a frustração, ou se dissipa com acatarse (expressão da agressividade) (Tedeschi & Felson,1994). Baseados nesta crítica, alguns discípulos de ClarkLeonard Hull, procuraram desenvolver a hipótese da frustra-ção-agressão. Dollard, Doob, Miller, Mower e Sears (1939,citados em Berkowitz, 1998), em um estudo interdisciplinar,definiram frustração como um ato ou evento que impede al-guém de atingir um objetivo, seja isto uma barreira física,social (regras, leis), ou uma simples interrupção.A frustração produz energia agressiva e esta, por suavez, instiga o comportamento agressivo (Miller, Sears, Mowrer,Doob, & Dollard, 1941). É importante notar que a frustraçãonão conduz, inevitavelmente, à ocorrência da agressão: “Frus-tração produz instigação a um número de diferentes tipos deresposta, um dos quais é a instigação a alguma forma deagressão” (p. 338). A manifestação de um ato agressivo vaidepender, entre outras coisas, da posição hierárquica ocupa-da pela instigação à agressão. Já a intensidade da respostairá variar de acordo com diversos fatores: a força com que setenta chegar a um objetivo, o valor atribuído a este e o graude interferência.Partindo deste princípio, também as respostas agressi-vas como reações catárticas, por reduzirem a energia negati-va provocada pela frustração, são auto-reforçadoras e de-vem reduzir, além da energia agressiva, a probabilidade da
Fatores etiológicos da agressão física

Activity (6)

You've already reviewed this. Edit your review.
1 thousand reads
1 hundred reads
JORGE BARBOSA liked this
JORGE BARBOSA liked this
Dulce Martins liked this
Biojanlima liked this

You're Reading a Free Preview

Download
scribd
/*********** DO NOT ALTER ANYTHING BELOW THIS LINE ! ************/ var s_code=s.t();if(s_code)document.write(s_code)//-->