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Religiao Em Timor-leste

Religiao Em Timor-leste

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03/24/2013

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79
a rELigião Em timor-LEstE a partir DE umapErspEctiva histÓrico-aNtropoLÓgica
1
 
Alberto Fidalgo CastroDoutorando da Universidade da CorunhaBolseiro MAEC-AECID«Yo soy yo y mi circunstancia, y si no la salvo a ella no me salvo yo»
José Ortega y Gasset, Meditaciones del Quijote, 1914.
imor declara-se maioritariamente católico. O número de pessoas que éconsiderado
 sarani
soma ,% da população conorme dados do censo de. Esta oi uma das premissas com as quais cheguei a imor-Leste e que meazia crer —quando iniciava o meu trabalho de campo em — que seria umelemento que acilitaria a compreensão cultural do país devido à minha própriaeducação de raiz católica. Estava enganado, pois havia determinados aspectos docatolicismo que se praticava em imor que não coincidiam com a religião queeu conhecia, na minha condição de homem nascido na perieria de uma cidadeindustrial em crise do noroeste da península ibérica e socializado na doutrinacatólica por um ‘sacerdote operário’ durante os anos oitenta e noventa. O contexto histórico do imor-Leste a que chegava não era, claro está, o mesmoque o espanhol de que saía. Há cinco anos que as Nações Unidas tinham devolvidoa soberania ao Estado e a Igreja saía do desempenho de um papel undamentaldurante a resistência contra a ocupação Indonésia. A legitimidade moral que a Igrejae os religiosos detinham era reconhecida por uma grande maioria da população.Em , antes da minha chegada a imor-Leste, a Igreja tinha eectuado umademonstração do seu poder quando se tratou de dirigir as políticas de estado. Osactos começaram quando o governo tentou converter em optativa a disciplina dereligião no ensino primário, o que levou a igreja a opor-se ocialmente e a organizaruma maniestação de dezanove dias à volta do Palácio do Governo na capital, Dili.O governo cedeu ace à pressão da igreja que, amplamente secundada pelapopulação, conseguiu manter a obrigatoriedade do ensino da religião.
 
1.
Agradeo a ajuda de Enrique Alonso Población na edio e reviso deste artigo.
2.
 
Sarani 
signica «cristo, baptizado» enTétum. Todas as traduões do Tétum so minhas, à excepo daqueles em que se indique o contrrio.
3.
Uma anlise destesacontecimentos j oi eectuada pela antropóloga Kelly Silva num artigo, pelo que no aproundarei mais os mesmos. Para maisinormaões, veja da Silva 2007.
 
80Mas o choque cultural mais orte não se deveu tanto ao poder que a igrejaparecia deter como instituição no país —entre outras coisas porque tambémna Espanha tem uma grande inuência política—, quanto à coexistência daprática do catolicismo com outras práticas religiosas externas à doutrina daigreja, embora não necessariamente contrárias.Foram dados muitos nomes a tais práticas, mas neste artigo reerir-me-ei aelas denominando-as de «religião tradicional». Quero especicar que o termotradicional se aasta da ideia de uma religião timorense prístina ou estática atéà chegada dos portugueses, a que por vezes se az reerência do ponto de vistaromântico, projectando uma imagem proundamente ideologizada e de racabase empírica. O conceito de religião tradicional, tal como o utilizo, reere-seao sistema de crenças que localmente é denido em oposição ao católico;isto é, é aquilo que os meus inormadores entendem como pertencente àesera de crenças e práticas
 jentiu
—por vezes também reerida pelos meusinormadores como
adat, lisan, kultura ou kultura-adat.
É, em últimaanálise,
o outro-próprio
que se constrói ace à identidade católica
. Decidiutilizar tradicional em vez de outros termos como ‘nativa’, porque muitosnativos timorenses se consideram católicos enquanto proessam também areligião tradicional. Embora com uma orte base animista, prero não usareste termo dado que a religião tradicional inclui um heterogéneo leque depráticas e crenças que podem não ser classicadas como tal. Outras categoriascomo ‘pagã’ ou ‘aborígene’, usadas por vezes por técnicos e analistas, sãorontalmente rejeitadas pela conotação negativa que possam ter ganho paraos timorenses.É minha intenção explorar neste artigo essa relação entre a religião católica ea tradicional a partir de uma perspectiva histórico-antropológica. O objectivodo mesmo é triplo. Em primeiro lugar, pretendo mostrar que a relação entrecatolicismo e religião tradicional em imor não consiste numa hibridaçãoresultante da mistura de elementos tomados dos dois sistemas de crenças(a religião tradicional e a católica) que tenha resultado na construção de umaespécie de terceira via; não se verica —salvo alguma excepção— um novosistema de crenças ora do católico ou do tradicional. Neste sentido, sustenhoque o que realmente encontramos actualmente em imor-Leste, para além deum sincretismo ou uma hibridação, consiste na tensa coexistência entre os doissistemas de crenças.
 
81Em segundo lugar aponto, mediante alguns exemplos, o cenário estratégico quese constrói através de um complexo jogo de transposições simbólicas, quer deelementos pertencentes à religião tradicional dentro do sistema de representaçõescatólicas, quer de elementos católicos dentro do tradicional. Sugiro, deste modo,que estas integrações, assimilações e intercâmbios de elementos entre os doissistemas de crenças são resultado de uma luta de poderes que se expressa e instituiem dierentes eseras da vida, obedecendo a uma lógica prática
(Bourdieu 2007)
, nestecaso orientada para ns práticos e posta em jogo por dierentes actores sociais.Por último, mediante um estudo de caso que tem um
rai-na’in kaer bua-malus
 como protagonista, mostro como este vive essa relação entre catolicismo e religiãotradicional. Utilizando ragmentos de uma entrevista situada num presenteetnográco (), mostro como o entrevistado manuseia ambos os sistemas decrenças, tendo por objectivo reproduzir, rearmar e conquistar espaços de poder;m para o qual adopta ou rejeita, invocando-os discursivamente, os elementos dosdois sistemas que legitimam a sua posição social. Com isso pretendo mostrar comouma das eseras de conito entre religiões —a tensa coexistência anteriormenteapontada— se dirime no plano do discurso. Desse modo, o entrevistado emitee constrói explicações que dão sentido e legitimam a validade do sistema —ouparte do sistema— de crenças que o dotam de autoridade, ao mesmo tempo quedeslegitima a parte ou as partes que o arrebatam.Para tal, dividi o presente texto em três partes. Na primeira parte,
 Notas sobre a infuência da teoria estruturalista na antropologia de imor-Leste,
 eectuo uma rápida revisão da inuência do estruturalismo na antropologiarealizada em imor-Leste antes da invasão da Indonésia e assinalo algumas dascríticas que oram esgrimidas pela teoria antropológica. Considero que ospressupostos do paradigma estruturalista continuam a inuir signicativamenteem muitos dos estudos sociais que são actualmente eectuados em imor-Leste,com as suas limitações que, no meu modo de ver, deixam ora da análiseantropológica aspectos da realidade social cuja análise é capital para umacompreensão mais certeira da cultura e sociedade timorenses.
4.
Deixo ora da presente anlise outras religiões tais como o protestantismo, o islo, budismo e as religiões de origem chinesa.Estas, embora minoritrias, coexistem juntamente com a religio católica e a tradicional no país. O antropólogo BrasileiroAlessandro Boarccaech ez a sua tese de doutoramento em data recente, em que trata das interacões entre a religio católica,a protestante e a tradicional na ilha de Ataúro.
5.
Na terceira parte deste artigo analiso mais pormenorizadamente a expresso
rai-na’in aer bua-malus 
. Adianto que se reere a um tipo de autoridade muito relacionada com a religio tradicional que, talcomo veremos mais adiante, desempenha um papel público a nível comunitrio.

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