O ano de alargamento do Mercosul, os tratados formados pelo Chile e Bolívia com oMercosul, jornais e televisões noticiaram a adesão dos dois ao bloco sub-regionalliderado pelo Brasil e Argentina. Isso não aconteceu, pelo menos por enquanto. Masfoi dado o primeiro passo nessa direção: o Chile e a Bolívia firmaram tratados deassociação, o que significa que, sem aderir ao bloco, eles passam a aceitar regrasde tarifas comerciais reduzidas no intercâmbio com os integrantes do tratado deAssunção de 1991. O passo adiante não aponta para o alargamento do Mercosul poragregações sucessivas, mas para o desenvolvimento de um processo mais complicado,que os diplomatas brasileiros apelidaram de estratégia do building blocks.O Chile esnobou o Mercosul até a pouco. " Adios, Latinoamerica", chegou atrombetear uma manchete de EL Mercurio, o principal diário de Santiago, resumindouma política voltada para a Bacia do Pacífico e uma estratégia de integração doNafta. As coisas mudaram. A solicitação de adesão à zona de livre comércio lideradapelos EUA esbarrou no colapso financeiro mexicano de dezembro de 1994. Escaldados,os parlamentares americanos negaram a tramitação rápida da solicitação no Congressoe as negociações continuam a se arrastar. Além disso, a abertura comercial que seespraia pela América Latina repercutiu sobre o intercâmbio externo chileno,puxando-o devolta para o subcontinente.A Bolívia solicitou, em julho de 1992, a adesão gradual ao Mercosul. O gradualismoboliviano está orientado para controlar um obstáculo político e diplomático: o paísfaz parte do Pacto Andino e Tratado de Assunção não permite a entrada deintegrantes de outras zonas de comércio. Mas, no terreno da economia e dageografia, a Bolívia está cada vez mais colada ao Mercosul. O acordo recente parafornecimento de gás natural e construção de um gasoduto Brasil-Bolívia vale maisque as filigranas jurídicas que bloqueiam a adesão imediata. E as perspectivas decooperação de todos os países do Cone Sul tendem a abrir duas saídas oceânicasregulares para a Bolívia, cuja história está marcada pela perda de portos deAtacama, na Guerra do Pacífico (1879-83). Não é provável que o Chile ingresseplenamente no atual Mercosul, e Santiago não quer perder suas vantagens comerciaisno intercâmbio com o Nafta e a Bacia do Pacífico. A Bolívia não pretende deixar oPacto Andino entrar no Mercosul, e o Chile, com melhores razões não pretendedesistir do ingresso no Nafta. O horizonte com o qual trabalham os diplomatasbrasileiros é o da articulação gradual do Mercosul com os países e blocoscomerciais vizinhos, com vistas á formação de uma Associação de Livre Comércio Sul-Americana(Alcsa).Essa é a estratégia do buiding-blocks. A sua meta consiste em criar, a partir de umgrande bloco comercial na América do Sul, a plataforma ideal para negociar aintegração pan-americana com a superpotência do Norte. É por isso que o Brasil nãotem pressa nas conversações destinadas a formação de uma super zona de livrecomércio das três Américas, que foram lançadas pelo ex-presidente dos EUA, GeogeBush, em 1990.No caso brasileiro, entenda-se atender aos desafios criados pela globalização epelo Plano Real. É o que mostra uma pesquisa do Centro de Gestão de Negócios daUniversidade São Marcos, de São Paulo. Foram consultadas 117 empresas, com capitalna casa dos 500 milhões de dólares. O trabalho mostra que aqueles dois fatorespresidiram a frenética busca da redução de custos e aumento de produtividade,perseguidos por 80% dos entrevistados. No quesito produtividade, as providênciaspara a metade delas consistiram em reestruturações, redução de quadro e ampliaçãoda participação de mercado. Para um número substancial, as mudanças significaramuma volta ao core business, interrompendo um processo de diversificação vigente nadécada passada. Duas constatações dos pesquisadores: a) poucas empresas assumiramuma atitude pró-ativa, antecipando-se às dificuldades; b) foi mínima a influênciados gurus da administração. Isso não quer dizer que elas não tenham apelado para aajuda de fora. Os consultores externos (12%) foram bem mais acionados que osinternos ( 5,5%) pelas empresas. Há também uma surpresa: a área de RH, com 9%, teveuma participação pequena nas mudanças. “Isso mostra que elas atacam mais sistemas eprocessos do que a formação dos funcionários”, diz Ugo Barbieri, coordenador dapesquisa.