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Salomão Rovedo
Sonja Sonrisal
(Contos)
Rio de Janeiro2006
 
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SONJA SONRISALCONTOS1 ADEGA DOS SOLITÁRIOS, pg. 32 UMA ILHA DE SAUDADE, pg. 93 MARÉ DE VIDA, pg. 144 SOLIDÃO, pg. 185 O BAR RIGA FECHA AS PORTAS, pg. 216 ROSÁLIA ROMERO SOBE AOS CÉUS, pg. 267 OS MORTOS ENTRE NÓS, pg. 288 EU, IDO, E OS OUTROS EUS, pg. 339 SONJA SONRISAL, pg. 38
 
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ADEGA DOS SOLITÁRIOS
“Sem os amigos o mundo não passa de um deserto”.
 (Francis Bacon)O dia me pareceu igual a todos os dias de aposentado, cheio da calmariasilenciosa que essa fase da vida traz. Ontem, porém, tive a noite de sono agitado.Pesadelo, pressão alta, cabeça pesada (devo ter dormido de estômago cheio). Demanhã ao levantar reparei o chinelo emborcado. Para completar sonhei que me caíaum dente. Sinal de morte na família. Uma chatice! Minha dentadura dorme no copod’água um sono melhor que o meu. Devo aprender a acordar como ela, sempresorrindo lá do copo para mim. No entanto, para compensar a noite atribulada, odomingo amanheceu branco, translúcido, com o céu estupidamente azul.Vamos vivendo sem a preocupação de mudar o ambiente de ócio puro nos fins desemana, porque afinal sábado é dia sagrado de vadiagem e domingo de descansoobrigatório, dia de coçar o saco. Segui o roteiro no ritmo de sempre: acordei, fiz meucocozinho, botei a dentadura, tomei água de coco em jejum, mastiguei um comprimidode AAS infantil, caminhei até os jardins, fui à estação de trem, me benzi diante daigreja, cumprimentei a fauna matinal de andarilhos, retornei pela rua orlada deamendoeiras e desemboquei na
Adega dos Solitários 
, já perto de dar meio-dia. Roteiro,claro, feito a meu gosto.Como de praxe, ocupei
a minha mesa,
disposto a ler as notícias do jornal, mais aspropagandas, incluindo os anúncios eróticos. Só não perco tempo lendo obituário nemfazendo palavras cruzadas, que é coisa de velho. A
minha 
mesa fica encostada numcantinho desprezado da
Adega dos Solitários 
, nas proximidades da porta, caminhoobrigatório de todo mundo que entra e sai, ensejo para inevitáveis abraços,cumprimentos, tapinhas nas costas. De entremeio fico paquerando as mulheres quevão e vêm pelo ambiente. Existe coisa mais bonita que mulher? Ainda mais na flor daidade? Que beleza!
– Como vai? Saúde boa? Viu o Elísio por aí? Esse cabra anda sumido.– Tudo bem, vamos levando. O Elísio está zanzando por aí... Deve chegar a qualquer momento.
É o garçom que chega com os cumprimentos habituais, inventando novidade Traza cerveja gelada, serve a tulipa, mas fica ali conversando fiado sobre a netinha, que jádiz algumas palavras, que já anda, que faz peraltices, espiando volta e meia asmanchetes do jornal. Entre uma frase e outra comenta conforme o assunto, a manchetedo dia, os crimes, a fofoca política.Em tempos de frio na
Adega dos Solitários 
convém beber o vinho tinto seco,gostoso, cor de sangue. Outra opção é a cerveja escura (não a preta), a münchen –munique – ou bock. Mas no verão é insubstituível a
loirinha 
servida espumantegeladinha na tulipa. Ainda mais quando o corpo está agitado, puxado ao calor do
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