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MORTOS NÃO DEIXAM GORJETA
“
Os segredos também são gente: nascem, vivem e morrem
”, disseArmando encerrando uma conversa a que foi chamado. Diariamente às 11horas da manhã ele chegava de braços dados com dona Yzolina, sedespediam com uma troca de beijos, ela seguia por mais um quarteirão até aigreja de N. S. Aparecida, Armando ficava parado mais um momento olhando amulher se afastar, atravessar o sinal de pedestre do cruzamento, subir aescadaria, até sumir lá dentro da igreja – e só então ele entrava no bar.Por duas razões coisas Armando conquistou a deferência se serrecebido sempre por Zezinho, gerente e filho do dono da casa. Primeiro porqueconheceu seu pai – com quem ficava horas e horas conversando – queretornou a Trás-os-Montes após anos e anos de trabalho ali, quando orestaurante ainda se chamava
Adega dos Solitários
. Segundo porque só bebiaum tipo de cerveja, a preta de alta fermentação, em fase de desaparecimento,que Zezinho, por tradição herdada do pai, comprava especialmente por causadaquele consumidor. Ainda existe gente assim...Armando sentava-se, desdobrava o jornal para ler enquanto esperavaser servido da cerveja preferida, em tulipa que exigia gelada. Servia-sedeixando pelo menos dois dedos de espuma, olhava o borbulhar através dacevada queimada e enfim bebia. Em média consumia uma ou duas garrafas dacerveja preta, dependendo da disposição física... e do calor lá fora. Bebericavaa cerveja com prazer e só desviava a atenção do jornal para cumprimentar um,receber abraço de outro, um bom dia, outro até logo. O Bar e RestaurantePonte da Barca – nome novo que ganhou após a reforma – era normalmentefreqüentado por gente por demais conhecida, do bairro, portanto não havianinguém que desrespeitasse aquele ritual extremamente particular.Ele de jeito e feições era simples, parecia estar sempre sorrindo, o queleva todos se aproximar com muita facilidade, certos de serem bem recebidos.Chegavam também a sorrir, como se fosse um cartão de apresentação: pareciapecado chegar até Armando de cara amarrada. Quando se resolvia era dereceber bem, largar o jornal, de dar toda atenção a quem se chegava. Outrasvezes o jornal caía-lhe ao colo grudado à mão – Armando tinha alguns rasgosde cochilo. De qualquer forma, não obstante a idade que o separava da maioriados freqüentadores, foi assim que se fez benquisto, era alguém da turma.Quando se dispunha a sair o sinal era deixar uma nota de um real sobre amesa como gorjeta: logo vinha a contaDe dona Yzolina se dizia erroneamente que era carola devota pordemais. Longe disso. Casaram-se sabendo que Armando era ateu e nem porisso deixou de freqüentar a igreja, as atividades sociais promovidas pelaparóquia, de acender para os espíritos velinhas num pires com água todas assegundas-feiras. E mais: nas raras ocasiões que ela era convidada a participarde atividade que exigisse a presença do casal, lá ia Armando de braços dados,comportado, molhando os beiços de saudade da cervejinha preta cujo sabor só
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