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A Verdade e o Recalque. Por Maria Rita Kehl

A Verdade e o Recalque. Por Maria Rita Kehl

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Published by: Psicossomática Instituto Sedes Sapientiae on Mar 26, 2013
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Folha de S. Paulo, 24/03/2013
A verdade e o recalque
Os crimes do Estado se repetem como farsa
por MARIA RITA KEHL
Que tudo "continue assim", isto é a catástrofe.
 
Walter Benjamin
 Hoje se comemora o Dia Internacional do Direito à Verdade. A data foi escolhida pelaONU em dezembro de 2010 para lembrar o assassinato do defensor de direitoshumanos em El Salvador, monsenhor Oscar Romero, em 24 de março de 1980. Arelação estabelecida pela resolução da ONU entre dignidade humana e direito àverdade fez com que a Comissão Nacional da Verdade (CNV) decidisse comemorá-lanas ruas de São Paulo e do Rio de Janeiro."A verdade liberta", proclamou ao telefone meu amigo, o psicoterapeuta Nelson MottaMello, ao saudar a formação da CNV, em maio de 2012. Poupo o leitor do debatesobre o estatuto ontológico da verdade, que nem Cristo (nem Lacan) respondeu acontento.Se não nos é possível estabelecer com precisão o que é a verdade, não há dificuldadeem entender os efeitos da sua falta -ou da sua interdição- tanto na vida psíquica quantona dinâmica social. A psicanálise freudiana poderia ser entendida, "lato sensu", comouma metapsicologia do direito à verdade psíquica.Foi no final do século 19, quando a moral da nova classe emergente na Europaimpunha o silêncio sobre as representações da vida sexual, que Freud anunciou suahipótese a respeito do sofrimento histérico: "A histérica sofre de reminiscências". Asenigmáticas crises de conversão das histéricas não passavam, para o inventor dapsicanálise, de tentativas de dizer com o corpo verdades que estavam impedidas derecordar em pensamento e anunciar na fala.O discurso corporal da histeria é composto de fragmentos recalcados de lembrançase/ou fantasias sexuais interditadas, que buscam expressão através do sintoma. Aospoucos, Freud compreendeu que o estatuto da "verdade" de suas pacientes histéricasnem sempre correspondia ao senso comum: o que o tratamento psicanalítico revela sãofragmentos da verdade psíquica, cujas conexões com os fatos objetivos da vida passampor caminhos singulares e tortuosos.É que o recalcado só pode chegar à consciência através das formações secundárias,que deformam a marca primordial do vivido (inacessível ao próprio sujeito) para seadequar às formas corriqueiras da linguagem. Apesar das dificuldades de interpretaçãoe das limitações da técnica nos primórdios da psicanálise, a possibilidade de expressar
 
 A verdade e o recalque, por Maria Rita Kehl
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a fantasia recalcada revelou que a verdade psíquica é capaz de libertar o neurótico dasrepetições sintomáticas.Em 1914 Freud estabeleceu, em "Recordar, Repetir, Elaborar", uma importante relaçãoentre o esquecimento promovido pelo recalque e a repetição do sintoma neurótico: acompulsão à repetição seria a maneira enviesada que o neurótico encontra para tentartrazer à consciência uma cena, uma fantasia ou um pensamento, recalcado.O sintoma seria movido pela compulsão à repetição de um trauma e/ou de um gozointerditado, a cumprir duas funções antagônicas, a de promover um retorno em ato doque foi esquecido e permitir, ao mesmo tempo, um simulacro do prazer proibido. Aodar vazão ao recalcado, os sintomas constituem o "modo de recordar" encontrado peloneurótico. Contra a dobradinha patológica esquecimento/sintoma, Freud propôs aelaboração do trauma.Tal necessidade de elaboração pode ser observada tanto nas modalidades individuaisde retorno do sofrimento psíquico individual quanto nas repetições de fatos violentos etraumáticos que marcam as sociedades governadas com base na supressão daexperiência histórica.
TOTALITARISMO
Todos os Estados totalitários se apoiam na supressão do direito àinformação. Só assim conseguem silenciar, pelo menos por um tempo, a propagaçãodas violações, dos abusos, das violências contra o cidadão praticadas em "nome daordem", a revelar que na vida social não há direito perdido que não tenha sidousurpado por alguém. Falta de liberdades, de direitos e de acesso à informação sãoelementos fundamentais na consolidação do terrorismo de Estado.Se o estabelecimento da verdade histórica, nas democracias, está sujeito a permanentedebate, o direito de acesso a ela deve ser incontestável. A garantia do direito à verdadeopõe-se à imposição de uma versão monolítica, característica dos regimes autoritáriosde todos os matizes. Ela exige a restauração da memória social, estabelecida no debatecotidiano e sempre exposta a reformulações, a depender das novas evidências trazidasà luz por ativistas políticos e pesquisadores.Este é o estatuto da verdade buscada pela CNV: além da revelação objetiva dos crimespraticados por agentes do Estado contra militantes políticos, estudantes, camponeses,indígenas, jornalistas, professores, cientistas, artistas e tantos outros -cuja prova estádocumentada em arquivos públicos, muitos deles considerados ultrassecretos-, orelatório final produzido pela comissão pode restaurar um importante capítulo daexperiência política brasileira.A verdade social não é ponto de chegada, é processo. Sua elaboração depende doacesso a informações, mesmo as mais tenebrosas, mesmo aquelas capazes dedesestabilizar o poder e que, por isso, se convencionou que deveriam ser mantidas emsegredo. Se o reconhecimento dos fatos que um dia se tentou apagar não costumatrazer boas notícias, em contrapartida a supressão da verdade histórica produzsintomas sociais gravíssimos -a começar pela repetição patológica de erros e crimespassados.
 
 A verdade e o recalque, por Maria Rita Kehl
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Melhor encarar as velhas más notícias e transformar a vivência bruta em experiênciacoletiva, no sentido proposto por Walter Benjamin. Para isso é preciso construir umanarrativa forte e bem fundamentada, capaz de transformar os restos traumáticos davivência do período ditatorial em experiência coletiva. "Para que se (re)conheça, paraque nunca mais aconteça."Freud poderia ter lido Marx a respeito das repetições farsescas dos capítulos malresolvidos da história. Se o sintoma neurótico é a verdade recalcada que retorna comouma espécie de charada que o sujeito não decifra, o mesmo vale para os sintomassociais. O Brasil ainda sofre com os efeitos da falta de acesso à verdade dos períodosvergonhosos de sua história, desde a escravidão até a ditadura militar. O modo como aditadura negociou sua dissolução com a sociedade brasileira -uma negociação entrequem tinha as armas na mão e quem até então estivera sob a mira delas- funcionoucomo um verdadeiro convite ao esquecimento.O apagamento rápido (e forçado) dos crimes da ditadura lembra os efeitos perversosdo esquecimento dos crimes da escravidão. No segundo caso, a falta dereconhecimento do estatuto criminoso de três séculos de escravidão impediu apromoção de políticas de reparação às populações afrodescendentes recém-libertas docativeiro. Os sintomas do esquecimento estão aí até hoje, na perpetuação muitas vezesimpune do trabalho escravo em fábricas e fazendas, a lembrar a advertência de Nabucode que a prática continuada da escravidão perverteria a elite brasileira.Não é absurdo pensar que o Brasil, país do esquecimento fácil, do perdão concedidoantes por covardia e complacência do que por efeito de rigorosas negociações, seja umpaís incapaz de superar sua violência social originária. Os sintomas da brutalidadeconsentida ressurgem nas execuções policiais que vitimam jovens nas periferias deSão Paulo, nas favelas do Rio e em todas as outras grandes cidades brasileiras.Ressurge nos assassinatos de defensores da floresta e pequenos agricultores, por jagunços e policiais a mando de grandes grileiros de terras.E se repete como farsa em episódios recentes, como o da bomba lançada no dia 7contra a sede da OAB do Rio de Janeiro, acompanhada das mesmas ameaças sinistrascom que agentes da repressão tentaram intimidar os que articulavam, na década de1980, a volta do Estado de Direito. Ou nas acusações de militares da reserva contrainvestigações conduzidas pela CNV, como se fosse o trabalho da comissão, e não osabusos cometidos no passado, o que mancha a imagem das Forças Armadas.Ou ainda em artigos como os de Contardo Calligaris, colunista da
Folha
, queconjeturou sobre a suposta conveniência de torturar alguém, sem levar emconsideração que a comunidade internacional já decidiu que a tortura é crime de lesa-humanidade.
ARTE
Só a arte nomeia os crimes silenciados no Brasil. As instalações de CildoMeireles e Nuno Ramos. O teatro da Companhia do Latão, d'Opovoempé e outrosgrupos corajosos. O rap de Mano Brown e outros manos; faixas dos últimos CDs deCaetano Veloso e de Chico Buarque. Os filmes de Sérgio Bianchi, Rubens Rewald e,recentemente, do pernambucano Kleber Mendonça Filho.

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