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COLABORAÇÃO
Tribuna da Saudade
Ferreira Moreno
O
saudoso vilafranquen
-se padre Ernesto Fer-reira, em “Animaisde cor negra”, no seulivrinho Ao Espelho da Tradição,
deixou dito que “no Egipto faraó
-
nico gozava da maior celebridadeo boi Ápis, que era retintamente
preto e apenas tinha, do lado di-
reito, uma mancha branca com aconguração de lua crescente.Haveria alguma diculdade em
encontrar este animal, mas logo
que o encontravam era conduzi
-
do p’ra Mêns e endeusado entre
ruidosas manifestações de rego-zijo.
O boi Ápis recebia homenagens
de adoração durante 25 anos,
ndos os quais os sacerdotes o
afogavam solenemente no Nilo,
e em seguida o embalsamavam e
sepultavam no templo de Serápis,
com magnicentes honras fúne
-
bres. Depois procuravam-lhe su
-cessor”.
Seja-me permitido, aqui e ago
-
ra, advertir que no capítulo 32do Livro do Êxodo está descrito
o episódio ocorrido no deserto,
quando os israelitas moldaramem estátua um bezerro de ouro, presumivelmente em lembrançado boi Ápis.
Conforme o testemunho do padreFerreira, “na ilha de S. Miguel o
povo acredita que a cor negra de
certos animais lhes confere uma
ecácia singular e um poder pro
-digioso. Assim, se em ocasiõesde trovoada alguém ocupar o lu-
gar donde acabou de sair uma rês preta, pode ter a certeza de quenão será fulminado pelo raio. Ofígado e o coração do boi preto
tem largo emprego na feitiçaria”.
Um outro ilustre vilafranquense,dr. Urbano de Mendonça Dias,no quarto volume de “A Vila”,
apontou ser “muito apreciado, e por isso de muita procura o cora-
ção de boi preto, porque por meiodele se praticavam vários bruxe
-dos, e se alcançam vários favo-
res. Diz-se que por meio dele se pode dar cabo duma pessoa que
nos seja importuna, ainda mesmo
que viva em Reinos Estrangeiros,
sem haver necessidade de sair-mos de nossa casa, e assim dar
lugar a que pessoa alguma saiba
das nossas intenções”.Seguidamente, Mendonça Diastranscreve as diferentes práticasou métodos no emprego do co-
ração do boi preto, com o devido
acompanhamento de determina-
das rezas e invocações. Visto que
não pretendo repetir essas mira-
bolantes lengalengas, aqui ca a
referência.Carreiro da Costa, na série “Tra-dições, Costumes & Turismo”
(Outubro 1964), anotou que “tan
-
to o boi como a vaca ocupam po
-
sição de destaque no quadro das
superstições populares açorianas,
o que não é de admirar, uma vezque desde remotas eras, nos Aço
-
res, os bois marcaram presençasaliente em consequência de te
-rem pertencido ao número dos
primeiros animais aqui espalha
-
dos a m de apoiar os trabalhos
dos povoadores”.
Relativamente ao boi, prossegue
Carreiro da Costa, “trata-se dum
animal que tem sido considera
-do como sagrado, devido semdúvida, não apenas a certas re-miniscências mitológicas, como
também ao facto de prestar servi
-
ços apreciáveis aos trabalhos da
lavoura”.P’ra poupar tempo e espaço, nãovou agora enveredar p’la carreirade superstições associadas com o
boi, como sejam aquelas lendá
-rias e curiosas crónicas alusivasao aparecimento providencialdesse animal, cuja carne concor-
ria p’rós tradicionais bodos doDivino Espírito Santo, como está
amplamente patente em diversas páginas do livro “Açores, Lendas
& Outras Histórias”, de Ângela
Furtado Brum.
Não quero deixar em branco que,
em português, temos “olho-de-
boi” aplicado à chamada cla
-
rabóia (skylight, em inglês), ouseja, aquela abertura envidradaexistente no alto de edifícios e
destinada a iluminar e ventilar o
interior. A expressão “passo de boi” signica andar devagar, en
-
quanto “andar com o carro adian
-
te dos bois” indica fazer qualquer coisa ao contrário. E bom serálembrar que em vão se leva um boi a beber água quando ele não
tem sede, nem tão pouco se ven-
de um boi por dois carniceiros.
Dito isto, vamos agora aos adá-
gios: o boi com muito viço dácom o corno no toutiço. O boi
pelo corno e o homem pela pala-
vra. Quem não tem bois, trabalha
com vacas. Quem seu carro unta,
os seus bois ajuda. Não vai o car
-
ro adiante dos bois. Onde vai ocarro, vão os bois. O boi depoisde morto é vaca. Boi bravo emterra alheia ca manso. Boi far
-
to não é comedor nem lambedor.Boi que campeia, sinal de mau
tempo.
Boi solto lambe-se todo; boiamarrado, só um bocado. Boi que
engorda na canga, engana o com- panheiro. Boi velho, dêem-lhe de
comer, que ele por si procura aabrigada. Mais come o boi dumasó vez que a ovelha em todo o dia.
Boi velho gosta de erva tenra.
Vaca do monte não tem boi certo.Vaca que não come com os bois,
ou comeu antes ou depois.
Não se aparelha um boi e um burro ao mesmo arado. O boi
conhece o dono e o jumento a
manjedoura. O inferno não se fez p’rós bois, nem p’ràs vacas. A boivelho chocalho novo. Ainda queo teu boi seja manso, não o mor
-
das no beiço. De boi manso meguarde Deus que do mau eu meguardarei. De pequeno verás que boi terás. Guarda-te do boi pelafrente, do burro por detrás e do
demo por todos os lados.
Na companhia de bois (2)
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