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Furtado, Junia. Sedição, heresia e rebelião nos trópicos - a biblioteca do naturalista José Vieira Couto.pdf

Furtado, Junia. Sedição, heresia e rebelião nos trópicos - a biblioteca do naturalista José Vieira Couto.pdf

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Sedição, heresia e rebelião nos trópicos: a biblioteca do naturalista José Vieira Couto
*
 
Júnia Ferreira Furtado
**
 
Resumo:
Esta comunicação analisa a visão política que marcou o pensamento do naturalista JoséVieira Couto, nascido em Minas Gerais/Brasil, na segunda metade do século XVIII. As idéias derebeldia, sedição política e heresia religiosa que marcaram seu pensamento podem sercompreendidas a partir da análise da volumosa biblioteca que reuniu em vida e que inspirou emgrande parte suas idéias. Seu acervo, formado entre fins do século XVIII e início do século XIX,abrangia diversas áreas do conhecimento como Física, Matemática, História Natural, Medicina,Artes, Direito, Política, Filosofia, História, Dicionários, Gramática e Literatura. Possuía perto de238 volumes com cerca de 601 tomos, sendo que a maior parte abarcava áreas relativas às ciênciasda natureza. Eclética e variada, a biblioteca não apresentava, entretanto, nenhum livro de cunhoreligioso, sugerindo sugestivas e instigantes conexões entre inconformismo científico, político ereligioso. Das estantes do naturalista ilustrado irradiavam idéias bem pouco ortodoxas.
1.
 A Inconfidência Mineira
Em 1789, nos confins do Brasil Colonial, foi descoberto um grande plano sediciosopara tornar independente a região das Minas Gerais, área produtora de ouro e diamantes,então centro financeiro arterial da América Portuguesa. Enquanto a França se tornava palcodo movimento revolucionário mais significativo da época moderna, nos sertões auríferosdas Minas, outros inconfidentes se reuniam e traçavam seus planos sediciosos, tendo comopalco irradiador Vila Rica, sede da Capitania. Buscavam como exemplo a experiência dosEstados Unidos da América e inspiravam-se nos escritos iluministas, especialmente nasidéias do Abade Raynal.Suas idéias eram tão ameaçadoras aos laços de dependência que ligavam a colônia àmetrópole portuguesa, que as autoridades procuraram devassar o movimento em segredo.Mas ao fim do processo, procurou o castigo exemplar para esse crime de lesa majestade.Um dos inconfidentes foi enforcado, a maioria desterrada para a África e os eclesiásticosconfinados em monastérios portugueses. Em meados do século XIX, redescoberto peloshistoriadores, a Inconfidência Mineira se tornou o marco referencial da constituição da
*
Este artigo é fruto da pesquisa “Espelho do mundo: libertinos, hereges e rebeldes nas Minas Barrocas”,desenvolvida inicialmente como pós-doutoramento realizado na Universidade de Princeton (2000), comfinanciamento da CAPES. Posteriormente o projeto recebeu apoio do CNPq, por meio de concessão de bolsade pesquisa nos anos 2002-2003.
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Professora Adjunta e Coordenadora do Programa em de História da UFMG. Mestre e Doutora em HistóriaSocial pela USP.
 
2nacionalidade brasileira, que teria sido forjada na resistência contra a opressão colonial.
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 Seu principal réu, Joaquim José da Silva Xavier – apelidado o Tiradentes - foi elevado àcategoria de mártir nacional.A primeira denúncia escrita sobre a sedição ocorreu em abril de 1789, sendo seuautor um dos próprios envolvidos no levante. Tiradentes se encontrava de licença no Rio deJaneiro, onde procurava apoio para o movimento, marcado para o momento em que secomeçasse a cobrar nas Minas Gerais a derrama. Foi preso um mês depois, período no qualficou sob severa vigilância do vice-rei do Rio de Janeiro, Luís de Vasconcelos. Advertidopor amigos e pelo próprio denunciante encarregado de vigiá-lo que as autoridades já sabiamde tudo, Tiradentes tentou escapar. Os rumores da repressão iminente se espalhavam pelacidade e pelas Minas Gerais e apavoravam os envolvidos.Ao longo do tempo, muitos autores mergulharam na história desse movimento,
2
 sufocado antes mesmo de nascer,
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para tentar compreender as motivações, idéias, projetos,inspirações e alcances de seus planos de revolta.
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Suas principais fontes foram os
 Autos da Devassa
realizada pelas autoridades portuguesas. Discurso construído pelo poder e para opoder, os Autos apresentam uma série de limites para reconstituição do movimento. Masnas entrelinhas, no murmurinho, no cuidado das autoridades, enfim, tudo indicava que asraízes do movimento eram mais longas e difusas que os documentos insinuavam. Foramréus não só o ouvidor-geral da Capitania, Tomás Antônio Gonzaga, principal cargo judiciário da região, como quase todos os contratadores de impostos.
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Vários outrossuspeitos foram arrolados, mas suas culpas não chegaram a ser confirmadas e por isso não
1
Para análise da construção da Inconfidência Mineira como fato histórico e sua apropriação como mito ecomo fato ao longo do tempo ver: FURTADO, João Pinto.
O manto de Penélope:
história, mito e memória daInconfidência Mineira: 1788-9. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
2
Para historiografia da Inconfidência ver também: FIGUEIREDO, L. R. Painel Histórico. In: PROENÇAFILHO, Domício. (org).
 A poesia dos Inconfidentes: poesia completa de Cláudio Manoel da Costa, Tomás Antônio Gonzaga e Alvarenga Peixoto.
Rio de Janeiro: Nova Aguiar, 1996. (Especialmente a parte I: A sede ea saga: um percurso historiográfico da Inconfidência.)
3
As denúncias apresentadas ao então governador da Capitania, o Visconde de Barbacena, por doisparticipantes do movimento fizeram com que a Coroa ordenasse a prisão imediata dos suspeitos, antes que omovimento pudesse ter sido deflagrado. Como a Derrama seria utilizada como estopim do levante, ogovernador mandou que a cobrança fosse imediatamente suspensa.
4
Cabe destacar: MAXWELL, Kenneth.
 A Devassa da Devassa.
Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978. 2
a
. ed.
5
No império português era constante a prática de entregar a particulares a cobrança dos tributos que eramarrendados por contratos temporários acertados ao fim do período. A participação dos contratadores deimpostos da Capitania no levante era explicada pelo grau de endividamento que eles se encontravam naépoca. Esperavam que com a independência da região não tivessem suas dívidas executadas. Pela mesmarazão – a busca do perdão das dívidas - o principal denunciante do movimento era contratador de impostos.
 
3foram processados. Entre eles, o próprio governador,
6
o intendente dos diamantes e váriosoutros elementos no Rio de Janeiro. A expansão do movimento para o Rio de Janeiro eraestratégia vital para o sucesso da nova nação a ser criada nas Minas, pois sendo a regiãocontinental necessitava de um porto de ligação no litoral.Entre vários outros indícios, os
 Autos da Devassa
sugeriram a influência dailuminação francesa, cujos escritos se encontravam em bibliotecas seqüestradas aos réus,
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 como
 L’espirit des Lois
de Montesquieu,
a Encyclopédie
de Diderot e D’Alembert, etambém obras do abade Mably, de Turgot e de Raynal, entre outros. Também aindependência das Treze Colônias norte-americanas exerceu forte impressão e foi exemplopara os rebeldes. Várias testemunhas afirmaram nos autos que o livro,
 Recueil des LoisConstitutives des Etats Unis de L’Amerique
, estava sempre no bolso de Tiradentes que, nãosabendo uma língua estrangeira, insistia que o traduzissem para ele. A historiografia maisrecente tem apontado que, no ideário dos Inconfidentes, os valores da tradição, damanutenção da ordem e do
status quo
, os quais vinham sendo ameaçados pelas novasmedidas administrativas da Coroa, ocupavam papel de destaque e seu estudo é fundamentalpara o entendimento do ideário político da época.
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Esse ideário tem “suas possíveis raízes[nas tradições] ibéricas, mais precisamente lusitanas”, existindo uma forte afinidade “entreas idéias dos inconfidentes e aquelas defendidas pelos teólogos da Segunda Escolástica,pelo padre Antônio Vieira e, ainda, pelo Conde da Ericeira”.
9
Destacam-se nesse sentidouma das falas de Tiradentes que perguntado sobre o levante respondeu indignado: “Nãodiga levantar, é restaurar”, e a insistência do Cônego Vieira em legitimar o movimento naparticipação dos naturais da terra na reconquista do Brasil das mãos dos franceses (Rio de
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Os organizadores do levante se dividiram entre republicanos e monarquistas. Os primeiros inspiravam-seprincipalmente no exemplo norte-americano e os segundos nos ingleses. Os defensores da forma monárquicade governo a ser adotada pela nova república tentaram convencer o governador a aceitar a Coroa da jovemnação a ser criada nas Minas Gerais. Esta oferta, que transparece dos depoimentos de alguns réus nos Autos,foi mencionada como tendo sido apenas insinuada, isso de qualquer maneira transformava o governador numdos próprios suspeitos do levante e um provável réu. Pela legislação portuguesa, as
Ordenações Philipinas,
incorria no crime de inconfidência não apenas o participante ativo de uma sedição, mas também os que delatomassem conhecimento e não a denunciassem.
7
FRIEIRO, Eduardo.
O diabo na livraria do cônego.
São Paulo: Edusp, 1981.;VILLALTA, Luís Carlos. Odiabo na livraria dos Inconfidentes. In: NOVAES, Adauto. (org).
Tempo e História.
São Paulo: Companhiadas Letras, 1992. p.367-395.;VILLALTA, Luís Carlos. Os cléricos e os livros nas Minas Gerais da segundametade do século XVIII.
 Acervo,
Rio de Janeiro, v.8, n.1-2, p.19-52, jan/dez 1995.
8
VILLALTA, Luís Carlos.
 Reformismo ilustrado, censura e práticas de leitura: usos do livro na América portuguesa.
Tese de doutorado em História Social. São Paulo: FFCH/USP, 1999. Capítulo 8: Leituras eInconfidência Mineira (1789). p.457-516.
9
Idem. p.463.

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